ANSIEDADE

Existe muita ansiedade quanto à definição rápida do secretariado do prefeito eleito José Bonifácio.

É grande a expectativa por mudanças no perfil político de Cabo Frio, que tragam transformações substanciais, que impeçam a contínua decadência da cidade.

Não dá para se conformar com o município, que, vai de forma acelerada se transformando em balneário da zona metropolitana do Rio de Janeiro e sua periferia.

Os moradores de Cabo Frio sentem no dia-a-dia o aumento da violência, a destruição sistemática dos equipamentos urbanos e a superlotação das unidades de saúde.

Ao mesmo tempo estão incomodados quanto à degradação ambiental e do imenso patrimônio histórico e cultural, que poucas regiões do país possuem.

Em sua ansiedade pela montagem e divulgação do secretariado a população demonstra sua imensa preocupação quanto ao futuro da cidade.

 Afinal, qual a modalidade de políticas públicas o governo vai desenvolver?

ÓLEO DE PEROBA

Óleo de peroba

Muitos dos derrotados em 15 de novembro estão colocando os seus nomes à disposição da população e obviamente do prefeito eleito. Sempre enfatizando que o intuito é servir ao povo e não a si mesmo. O discurso, de tão manjado e antigo, é cheio de traças, mas a cara de pau resiste a qualquer óleo de peroba.

O Inoxidável

A minguada votação de pouco mais de 800 votos na eleição para prefeito parece não ter desanimado o radialista Dirlei Pereira. O político foi de tudo um pouco, vereador e secretário de saúde e de governo de Alair Corrêa. Hoje, clama pela moralidade pública e abre espaço para a turma que sem votos apela para teorias da conspiração e fraudes na justiça eleitoral.

Disputa ou Consenso?

As redes sociais transmitem a idéia que se trava luta encarniçada pela presidência da câmara. Às vezes acontece, mas é raro. Normalmente a eleição do presidente do legislativo acontece por consenso para não prejudicar a articulação política dentro da casa. Afinal, todos se acomodam nas confortáveis poltronas do Plenário Oswaldo Rodrigues.

Magdala & Tamoios

Pelas declarações do prefeito eleito de Cabo Frio, a vice Magdala Furtado será amplamente prestigiada. Magdala não terá um cargo meramente decorativo, mas papel essencial na nova administração. José Bonifácio tem reafirmado o desejo de dar a Tamoios a importância que o 2º Distrito nunca teve na política cabofriense.

O discreto Marquinhos Mendes

Marquinhos Mendes manteve bastante discreto após o 15 de novembro. O ex-prefeito foi o 3º colocado após processo político tumultuado, quando antes de confirmar a candidatura deu seu apoio ao vereador Aquiles Barreto. Pesou para a derrota a demora no lançamento da candidatura e o temor que não pudesse tomar posse.

Secretariado

A formação do secretariado não será subordinada a pressão das redes sociais ou de grupos econômicos que sempre rondam o Palácio Tiradentes nesses períodos que antecedem a posse dos prefeitos. A idéia hegemônica é prestigiar os grupos que deram apoio na fase de formatação da arquitetura do projeto político-eleitoral do hoje prefeito eleito.

Estrelas cadentes?

Aquiles Barreto e Rafael Peçanha, ambos jovens políticos, aparecem como “novas figuras” da política cabofriense. Resta saber e só o tempo vai dizer se permanecerão no firmamento ou apenas serão estrelas cadentes. O novo governo poderá contribuir para uma resposta duradoura.

No governo bolsonarista

O governo bolsonarista de Cláudio Castro ganhou novo secretário de ciência e tecnologia, o deputado Sérgio L. Azevedo. O deputado parece não ter gostado da ALERJ, primeiro tentou ser prefeito de Cabo Frio, mas depois da dura derrota, 11 mil votos, optou por fazer parte do governo do estado.

A derrota do bolsonarismo

O bolsonarismo foi amplamente derrotado nas eleições municipais, mas o deputado continua apostando no que resta de popularidade ao presidente da república. Mesmo com toda a fidelidade do deputado o apoio de Bolsonaro a sua candidatura foi pífio, provocando indignação nos coordenadores da campanha.

Vovô Bibiu recomenda calma

Alguns bolsonaristas mais exaltados continuam trabalhando as “teorias da conspiração” apesar dos seus candidatos terem sido fragorosamente derrotados nas urnas. Em sua última carta psicografada Vovô Bibiu, o “Homem do Obelisco” recomendou calma: os adeptos da TFP, entretanto, não sossegam.

A LIÇÃO SABEMOS DE COR

Octavio Perelló *

Cabo Frio, através dos mais de 44 mil eleitores que deram o seu veredito nas urnas e de outras milhares de crianças, jovens e idosos que não puderam votar mas abraçaram a candidatura vencedora, está refazendo a lição de casa. Diante de uma crise sem precedentes, que degolou a cabeça dos três últimos prefeitos, a cidade deu um passo para trás e resgatou a sua mais honrada liderança política em atividade, que durante 22 anos foi convenientemente mantida fora do poder, sob uma sórdida campanha de mentiras e difamações, para que o desperdício dos royalties de petróleo pudesse ocorrer sem o contraponto da seriedade e da responsabilidade com o dinheiro público.

Aparentemente redimida, a opinião pública fez a sua parte, aprovando a campanha mais bonita e propositiva, que foi a de José Bonifácio, com a esperança de um governo que quebre velhos vícios políticos e tire o município do atoleiro. O novo prefeito, aliás, que tem planos realistas e inovadores para a crise domunicípio, não para de se articular e tomar ciência das dimensões do desafio que assumirá a partir de primeiro de janeiro.

O recado das urnas foi claro: chega de trapalhadas e desvios de dinheiro público. A realidade do atraso, em decorrência da falta de investimentos no período mais rico, em que o município recebeu cerca de 19 bilhões de reais em royalties, bateu à porta de todos, indistintamente. Do grande empreendedor ao trabalhador comum, a pobreza da cidade atingiu em cheio, enfraquecendo negócios e diminuindo a oferta de trabalho. Somente uma ínfima parcela da população, formada por empresários e políticos agarrados aos cofres públicos tentaram estender o modelo de sangria, mas foram derrotados. Ainda assim, insistem na judicialização, reafirmando o caráter de maus perdedores e torcedores do caos.

José Bonifácio, que venceu grandes batalhas até aqui, segue enfrentando a guerra com coragem e dignidade, cuidando dos seus soldados e oficiais de patente, e, como bom estrategista, oferecendo tréguas e o respeito de sempre aos adversários, conquistando mais aliados para a grande batalha dessa guerra, que é devolver a paz e a reconstrução dos escombros em todo o território atingido.

E a cota de corresponsabilidade de todos tem de ser assumida. Temos de continuar o dever de casa. Refletir sobre o que aconteceu até aqui e que resultou na decadência de uma cidade rica que esbanjou dinheiro com a farra dos royalties. Olhar para as escolhas anteriores e a atual do eleitor, e torcer para que as propostas sejam concretizadas na união de esforços do novo governo e da nova câmara, contando com a conscientização da sociedade civil e de toda a classe política. Entender a necessidade de não mais reproduzir a cultura política que lançou o município num ciclo de falência.

Porque não somos inocentes, vimos o que aconteceu. Sabemos onde o calo aperta, o que nos exige cuidados, sapatos melhores e um caminhar diferente. Participar mais, saber como e a quem cobrar (governo e câmara), são contribuições fundamentais de cidadãos conscientes. Temos que ir além do discurso e tornar isso uma prática permanente, sem desistir e achar que política é só para os políticos. Isso tudo me faz pensar nos versos finais da bela canção Sol de Primavera, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos: “A lição sabemos de cor / Só nos resta aprender.”

*Jornalista e Produtor de Conteúdo

E agora, José?

Silvana Lima

A retórica poética contida no texto de Drummond nunca nos falou tão de perto. E agora, José?  Finda a campanha, prefeito eleito,a tão sofrida cidade de Cabo Frio, açoitada pelos desmandos políticos de décadas, enfim respira aliviada suspirando sonhos de menina-moça. – E agora? – ela se pergunta. – E agora? – todos e todas nos perguntamos.

Fazedora cultural desta cidade há cerca de 40 anos, acordei no dia 16 de novembro com a janela aberta pro sol e pra esperança. Seria, por acaso, proibido esperançar? – pensei comigo. Há muito que fazer, há muito que perceber, há muito que alcançar, apreender, atingir. E, sobretudo, há muito que ouvir. Impedidos de quaisquer participações em nível de discurso, troca e práxis, os movimentos culturais desta cidade ao mesmo tempo que cresceram em qualidade, quantidade e diversidade, também amarguraram um ostracismo gigantesco e tentaram de todas as formas cavar suas participações nas gestões que se instalam na cidade. O silencio dos que assumiram a pasta da cultura avançou durante décadas e se fez uma prática tão perniciosa à cidade que, em 2018, quando a historiadora MeriDamaceno e sua equipe assumiram a pasta por oito meses e abriram conversas com os artistas através de suas câmaras setoriais, os movimentos culturais vislumbraram uma possiblidade de participação e construíram juntos indicativos para a área. Mas durou pouco. Oito meses. E havia tanta ânsia e tanta carência para o diálogo que em oito meses apenas a gestão construiu conversa com aproximadamente mil artistas em cerca de cemreuniões públicas com os 11 segmentos da sociedade civil Conversa franca e honesta. Com respeito e deferência.

Bom e importante salvaguardar a gestão de José Facury que inaugurou entre 2013 e 2015 a política de editais (um dos pilares que citarei mais adiante), iniciada na gestão de José Correia e executada por Facury,  ganho importantíssimo que trocou a política de “balcão” pela política da transparência, causando uma efervescência cultural na cidade que ficou cerca de dois anos recebendo atividades artísticas oriundas do PROEDI.

Falo sobre participação popular porque falei antes em esperançar, rico neologismo criado por Paulo Freire para designarautonomia e liberdade. Falo sobre escuta porque defendo para a gestão cultural desta cidade quatro pilares com os quais entendo que se construa uma gestão séria, compromissada, transparente e democrática. E um dos pilares entendo que seja exatamente a participação. Um dos grandes estímulos à ampliação da participação popular foi a instituição da Lei de Acesso à Informação (LAI), que exige dos órgãos e atores do poder público maior publicidade dos seus atos. Desde que a transparência pública ganhou força com esta lei, a relação entre a sociedade e seus representantes deveria se tornar mais próxima.Porém, apesar de nos vermos mais engajados e com necessidade de pensar e elaborar a cidade artística e culturalmente junto com a gestão, reivindicandotransparência nas ações e contribuindo de forma eficaz na construção das políticas públicas locais através da relação entre os diversos atores sociais e o município, infelizmente os gestores se fecham em seus gabinetes impedindo a participação. Impera quase sempre o silêncio, nem mesmo havendo diálogo com os conselhos, instituídos democraticamente para análises, consultas e deliberações de ações públicas culturais.

Outro pilar não menos importante que a participação popular é o resgate da memória e das tradiçõesdesta cidade tão rica e tão cheia de histórias que é Cabo Frio. Não apenas as histórias vividas pelas famílias tradicionais da elite cabofriense, mas também e igualmente, o resgate das tradições dos cidadãos e cidadãs que viviam fora do centro  a exemplo do belíssimo trabalho realizado por Amena Mayal, Marcio Wernec, Anita e ZarinhoMureb, Carlota Lopes, Liana Turrini entre outros e outras, enfim, toda uma geração que ainda hoje é referência pelo legado deixado tanto com a cultura popular quanto com a cultura do ecossistema, refletindo a emergência de uma nova relação identitáriados munícipes e das munícipes com sua tradição e memória.

A memória é o principal mecanismo para garantir a construção da história de uma sociedade, importante portanto que ela seja estudada, revisitada, catalogada, preservada e esteja no centro das discussões das gestões. É através da memória que o homem constrói a sua identidade e estabelece os parâmetros que irão conduzir os caminhos futuros.Defender como pilar para a cultura um trabalho sério e participativo de pesquisa, catalogação e preservação da memória, única garantia de que os acontecimentos passados sejam objetos de informação para a sociedade futura de forma coerente e verdadeira, parece óbvio. Mas não é, exatamente porque não se faz em nível de gestão pública e sim apenas por bravos artistas que resistem.

Outros dois pilares que sustentariam uma gestão pública comprometida com o acesso e a transparência de suas ações seria, no meu entendimento, a descentralização não só de ações culturais, mas também e principalmente, de espaços fora do centro da cidade para que o cidadão comum participe da formulação de políticas, projetos culturais e gestão de equipamentospara seu bairro e sua comunidade. Existe Cabo Frio além da ponte, uma Cabo Frio que cresceu e está construindo uma identidade própria e que precisa se ver no processo de construção. Precisa de representatividade. Precisamos de mulheres na gestão sim. Mas precisamos antes de mulheres pretas e mulheres periféricas para não cairmos no engessamento tão recorrente do olhar branco do centro da cidade. O debate teórico e a práxis precisam ser democratizados e chegar na periferia da cidade onde tantas e diversas manifestações artísticas se desenvolvem, onde é maior que o grande centro e não recebe o tratamento devido. Com essa política, podem ser revitalizadas diversas atividades locais; podem ser valorizadas as expressões culturais das periferias das cidades; também pode ser promovido o acesso de toda a população à informação e à criação cultural, além de estimular a produção local.

Por fim, o quarto pilar está intrinsecamente ligado à participação e descentralização que é a política de editais. Os editais e as chamadas públicas são os meios mais transparentes para evitar o clientelismo que envolve, na maioria das vezes, concessões e privilégios e é uma prática perniciosa numa gestão onde a maioria se prejudica e a minoria é beneficiada.

Mas há as urgências.

E agora, José?

Urge que se recupere os equipamentos culturais desta cidade, começando talvez pelo mais doente: o Teatro Municipal Inah de Azevedo Mureb, que anda às minguas;  urge que se reveja e se cumpra minimamente o Plano Municipal da Cultura (que é decenal);urge que se destine, a pedido do PMC, 2% para a cultura;  urge que se enxergue as manifestações artísticas de grupos, de coletivos,de quilombolas, de pretos e pretas, de periferias, de lgbtqi+,de mulheres, de circo, de artistas de rua, de pessoas com necessidades especiais. Urge que se faça mapeamento de patrimônio material e imaterial da cidade, que se catalogue fotografias e filmes da região;Urge que se revitalize os cursos de formação artística a exemplo do que se oferecia no Teatro Municipal; urge que se abra diálogo sobre preservação e memória, sobre identidade, sobre representatividade, sobre democracia. Urge, urge, urge.

Diante de tantas urgências, fruto de gestões que foram passando e negando as questões através de seus silêncios e omissões, volto ao início deste texto onde defendo a participação popular como ponto x de uma gestão que deseja realizar junto com a sociedade as medidas necessárias para que as coisas, no seu tempo, possam caminhar. Uma gestão que, junto com artistas, conselhos e sociedade em geral, defina prioridades e avenceem direção ao que a sociedade deseja.

Seria uma medida sábia para os que chegam, creio eu.

Voltando a Paulo Freire, “… esperançar é se levantar, ir atrás, construir, levar adiante, juntar-se com outros pra fazer de outro modo.

E agora, José?

Bora esperançar?

Silvana Lima

Professora, atriz do grupo creche na coxia. escritora, encenadora, diretora do Teatro Quintal

DRAMAS DA URBS

Dramas de uma cidade grande enraizados em uma localidade, que caminha rapidamente para se tornar uma cidade de porte médio: essa é a realidade de Cabo Frio.

Não há necessidade de enumerar, mas Cabo Frio chamada “Capital da Região dos Lagos” acumula quase todas as mazelas de uma grande ‘urbs’ e nenhuma das vantagens que ela proporciona.

Como remodelar Cabo Frio e torná-la mais justa, equilibrada e com patamares mais altos de qualidade de vida? Como realizar essa transição numa época de crise econômico-financeira profunda e em plena pandemia?

Quais são as políticas públicas prioritárias a serem implementadas? Quais prometem resultados mais rápidos e as que exigem maturação para que seus efeitos possam se espargir por toda a sociedade?

Como escolher as prioridades? Quais os fóruns a serem consultados onde os debates devem fluir? Apenas os formais ou a situação exige o engajamento de outros atores, setores e referências?

São perguntas que buscam respostas para o 3º decênio do século XXI.

O futuro de Cabo Frio depende dos caminhos a serem traçados agora.

AGORA NÃO?

Agora não?

O presidente da câmara, Luis Geraldo tem dito aos amigos, que cansou e precisa de um descanso na presidência. Considerado o grande articulador político do legislativo municipal, Luis Geraldo deve assumir mais uma vez a presidência nos dois últimos anos do mandato (2023/24).

As relações políticas

Segundo as paredes murmurantes da câmara Luis Geraldo seria o melhor nome para manter uma relação tranqüila do novo prefeito José Bonifácio com o legislativo. O vereador tem livre trânsito no legislativo e poderia ser o líder do governo. Está no 5º mandato, tem relações profundas com amplos setores da sociedade cabofriense, especialmente os mais tradicionais.

A articulação política do governo

A pergunta que muita gente faz é a seguinte: quem vai ocupar a coordenação política na prefeitura de José Bonifácio? Aquiles Barreto, Janio Mendes, Jefferson Vidal, Luis Geraldo, Miguel Alencar , Rafael Peçanha? Pode não ser nenhum deles e a articulação política ficar centralizada no próprio prefeito. Não é bom, mas pode ser a saída.

Polarização

Vários nomes têm surgido na área de educação e existem grupos formados nas redes sociais, apoiando esse ou aquele candidato (a). A polarização não é um bom negócio, porque o prefeito pode optar por um nome sem comprometimento com grupos políticos.

Educação: nome no bolso do paletó.

A disputa não é saudável, embora perfeitamente democrática, porque a realidade do município, em amplos setores, é tão tenebrosa, que exige a união de todos. Há quem diga que o prefeito vai “tirar um nome do bolso do paletó”, de sua escolha pessoal e não de grupos específicos.

Saúde & Educação

O prefeito eleito tem dito em todos os lugares que vai que dois setores são fundamentais no seu governo dos quais ele não abre mão: educação e saúde. Quem conhece o prefeito diz que os secretários (as) dessas pastas serão pessoas de sua absoluta confiança de quem ele poderá cobrar diariamente.

Cultura: Fernando, Meri e Milton

O governo Adriano Moreno começou, na área da cultura, com Fernando Chagas, que ficou apenas um mês e migrou para Minas Gerais. A subsecretária Meri Damaceno assumiu o cargo e mais tarde foi exonerada pelo prefeito numa articulação política que acabou por recolocar no cargo o cineasta Milton Alencar Júnior.

Ocupa Charitas

A manobra política nunca foi explicada, ao menos publicamente, pelo prefeito Adriano Moreno. Gerou a resistência de boa parte da área de cultura, explicitada pelo “Ocupa Charitas”. Os artistas que ocupavam o prédio do Charitas foram desalojados por ordem judicial.

Os “cardeais” influenciam

Para quem gosta de análise política é importante ficar de olho em alguns ‘cardeais’ do grupo do prefeito eleito. Pessoalmente, poderão até não ocupar qualquer cargo no governo, mas terão grande influência na nomeação de secretarias importantes e também no 2º escalão.

E a Comsercaf?

O que o novo governo vai fazer com a Comsercaf? A autarquia é poderosa, pode resolver muita coisa, mas também gera muitos problemas. Basta ver na prefeitura de Marquinhos Mendes a intervenção da Polícia Federal e os seus desdobramentos políticos, no mínimo, pouco interessantes para o município.

“O Brasil se formou com o mito da natureza inesgotável’, afirma José Augusto Pádua

Professor da UFRJ diz que país ainda vê a Amazônia como os colonizadores viam a Mata Atlântica.

José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio (UFRJ) e coordenador do Laboratório de História e Natureza, vê os dados recentes de alta no desmatamento da Amazônia e conta que se sente muito frustrado. Não só pela perda da vegetação, mas pela sensação de que o país volta 50 anos no tempo. Para ele há grupos que enxergam a Amazônia como os colonizadores viam a Mata Atlântica, só que 500 anos depois. Autor do livro Um sopro de destruição, pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888), Pádua aborda como o país historicamente lidou com suas florestas – e quais foram os erros e acertos. Veja abaixo sua entrevista.

Na derrubada de quase toda a Mata Atlântica, o país alternou ciclos agrícolas, industriais e expansão das cidades. A partir dos anos 1970, começa a ocupação da Amazônia, que perdeu 20% da área original. Como os momentos se relacionam?

Quando se torna propriamente país, em 1822, o Brasil começa com território muito grande, mas população relativamente pequena. Tínhamos 1,3 milhão de quilômetros quadrados de Mata Atlântica, uns 4 milhões de quilômetros quadrados de Amazônia e, entre as duas, diferentes tipo de savana (especialmente 2 milhões de quilômetros quadrados de Cerrado). A população era de 4,5 milhões. A sociedade brasileira se formou com a sensação de natureza ilimitada, mito da natureza inesgotável. Para a população fragmentada em manchas regionais, olhando grandes massas florestais, pareciam oceanos verdes sem fim.

O que os 12% remanescentes da Mata Atlântica hoje dizem sobre esse pensamento?

Uma ilusão. A Mata Atlântica, onde se concentravam atividades socioeconômicas, em alguns séculos, principalmente no 20, foi quase toda destruída. Grandes áreas de vegetaçãonativa cobriam o território.Tudo se fazia desflorestando. A energia vinha da lenha, as construções usavam madeira. Mesmo assim, população e economia eram tão pequenas, que noinício do século 20, estima-se até então perda de 5% a 10% da Mata Atlântica. Ao longo do século 20, a população pula para 170 milhões. Acontece industrialização, se abrem ferrovias, depois rodovias. Se usa muita madeira para gerar energia, aumentar cidades. No século 20 ocorre a grande destruição da Mata Atlântica, detonada nas décadas de 1930, 40, 50, 60. E continuou em 1970, 80.

Foi nessa época que o foco mudou para a Amazônia?

Só que é quando começa a haver mudança global na visão sobre florestas tropicais. De ameaçadoras, passam a ser vistas como ameaçadas.

A destruição da Mata Atlântica não serviu de lição?

Nas décadas de 1930, 40, 50, 60, praticamente não havia organizações ambientalistas, tinha meia dúzia de cientistas mais preocupados. Na imprensa, eventualmente saía algo, maspouco. Nos governos, não havia órgãos ambientais. Mas quando se chega na Amazônia, o mundo começava a mudar e a preocupação ambiental passa a crescer. As Nações Unidas fazem a primeira conferência ambiental em 1972. E imagens de devastação das florestas, queimadas, poluição, começam a circular com rapidez. A Mata Atlântica já estava nos últimos remanescentes. Na Amazônia, a nova mentalidade sobre importância ecológica, econômica e social da floresta em pé começa a se manifestar no momento em que está no início da exploração mais intensa. Já tem reação de cientistas, ambientalistas, populações locais.

Mas mesmo isso não foi capaz de evitar que fosse desmatada.

Podemos diferenciar – desde a Mata Atlântica até a Amazônia –, atores econômicos e sociais imediatistas, que veem a floresta só como ganho de curto de prazo, e os que veem a floresta seja em na importância sistêmica, como patrimônio – em termos de beleza, importância científica –, seja de forma utilitária, mas muito mais ampla. Fundamental para a saúde climática, o futuro da biotecnologia, de setores sofisticados da economia. Ao contrário da Mata Atlântica, em que o desmatamento foi junto com o crescimento de economia e sociedade, na Amazônia não foi espontâneo. Foi um projeto geopolítico de ocupação. Na década de 1970, cerca de 13% da população morava lá, com pouca ocupação “moderna”. O regime militar vê um grande vazio social. Não havia necessidade econômica imediata da Amazônia para o Brasil. O importante era levar atividades econômicas e gente, independentemente da qualidade social e ambiental. A perspectiva era repetir na Amazônia o mesmo da Mata Atlântica. Mas já havia consciência crítica internacional e nacional, na ciência e na opinião pública. Havia um projeto geopolítico, mas que descambou no descontrole. Imaginaram que seria possível ocupação organizada, mas depois que solta o demônio do desmatamento, a coisa vai por si. Conflitos imensos entre população local e atores que vinham de fora. Serra Pelada é a imagem do caos. As lutas de povos da floresta, indígenas, seringueiros, foram importantes. Todo o impacto, por exemplo, pelo assassinato do (líder seringueiro) Chico Mendes.

A pressão externa tem sido forte em reação à alta de desmate e queimadas. Isso ocorreu em outros momentos. Quanto acha que isso pesou no passado para mudar ações governamentais?

A pressão externa foi importante, mas a ciência, a opinião pública e o ambientalismo nacionais também tiveram peso importante. E começaram a surgir novas possibilidades tecnológicas, com satélites. O programa Nossa Natureza, criado pelo (ex-presidente José) Sarney, está diretamente ligado ao contexto que levou ao assassinato de Chico Mendes. E o mais importante do programa foi lançar o Prodes (sistema que aponta o desmatamento oficial da Amazônia) em 1988, que transformou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ligado ao Ministério da Ciência) no mais importante centro de detecção de desmatamento do planeta. É doloroso ver atritos do atual governo com apreciosidade tecnológica que temos nas mãos.

Mas antes mesmo do governo atual, o desmate já tinha voltado a subir a partir de 2013, como o ministro (do Meio Ambiente) Ricardo Salles sempre lembra.

É uma meia verdade. Depois de baixar dos 5 mil quilômetros quadrados em 2014, o desmatamento flutuava próximo de 7 mil. Mas não houve desmantelamento da política de contenção. Não pulou para 10 mil quilômetros quadrados, como no ano passado com (Jair) Bolsonaro. Só que os atores locais da devastação estãocomeçando a se chocar com uma economia mais poderosa, os grandes fundos de investimento e grandes empresas, o setor mais moderno da economia, do próprio agronegócio, que vê no descontrole uma roubada. O imediatismo não leva a nada. O que o garimpo produz em termos de real progresso para a região?

Ao receber críticas externas, sobretudo da Europa, o governo costuma dizer que eles destruíram tudo no passado e não teriam direito de nos cobrar agora. Faz sentido historicamente?

É importante entender especificidades de cada momento e a geografia de cada lugar. Não é todo país que tem como ponto de partida um território tão florestado. E o que ocorreu em vários países da Europa e nos EUA foi semelhante ao que ocorreu na MataAtlântica. Não é que o Brasil preservou todas as florestas. Preservou a Amazônia, ou pelo menos ela ainda é muito grande, porque população e economia estavam concentradas na Mata Atlântica. Grandes potências destruíam florestas na Ásia, África América Central. Brasil, e mesmo Portugal, estavam concentrados na Mata Atlântica. A Amazônia, de difícil acesso, ficou nesse limbo de devastação. Há vários países com mais cobertura florestal no território. Suécia tem 69% do território coberto, assim como o Japão. O Brasil tem cerca de 56%, mas isso por causa da Amazônia. Mesmo a Alemanha tem 32%, a França, 29%, os EUA, 33%. Países que fizeram revoluções industriais e desflorestaram muito, depois recuperaram, reflorestaram, reconheceram a importância das florestas. A ideia de que destruíram lá atrás é verdade, assim como destruímos, mas muitos trabalham para restaurar e cuidar de suas florestas.

O canto escuro da parede

Por força da nova arrumação da sala, fui jogado de volta para frente da janela. No entanto, no primeiro dia, me senti amuado. Eu já estava acostumado com o canto escuro da parede. Nele dormiam meus monstros preferidos. Ali estava acostumado a ver a chuva pelo ouvido. A me fingir de morto quando, no meio do parágrafo, alguém chamasse no portão. Já me sentia em casa no canto escuro da parede.

Mas agora estou cá frente à janela. E a rua não para de levar as pessoas e os automóveis. Logo hoje o vento está lupino e as persianas tremem de medo feito ovelhas desgarradas.

O canto escuro, do qual fui retirado, está esvaído. Perdeu toda gordura de sua sombra grossa. Agora ele não passa de um filete esfumaçado. Está frágil e magro feito um faquir. A aranha que lhe animava as horas está agora refugiada em outro canto. E as formigas que se arriscavam sobre os farelos do biscoito que eu deixava cair partiram rápidas e ingratas. Envolvidas pela labuta sequer acenaram um adeus.

Não posso fazer mais nada pelo canto escuro da parede, além de uma crônica vespertina de vida curta, pois uma semana depois da publicação ela morre.

Mas agradeço publicamente ao canto escuro da parede pelas tantas semanas que passamos juntos. Não chegarei ao ponto de dizer que nos amamos, entretanto ali também tivemos nossa poesia. Afinal de contas, essa vida não é feita apenas por janelas claras abertas para um mundo pacífico.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 26 de novembro de 2020

O ENFRENTAMENTO DA CRISE

Cabo Frio viveu longos anos de mesmice político-administrativa dos “Sheiks do Petróleo”. Os recursos bilionários dos royalties foram desperdiçados sem que fosse criado um fundo soberano para enfrentar os períodos, digamos, menos acolhedores.

A crise que ninguém acreditava veio forte. A Bacia de Campos e seus campos maduros em processo de esgotamento não jorram tantos royalties para os municípios. Os investimentos para recuperá-los exigem que o barril do petróleo alcance uma cotação bem superior a atual.

A pandemia agravou a crise fiscal pré-existente e a desindustrialização. O PIB recuou em níveis catastróficos e a oferta de petróleo excede a capacidade de consumo de economias debilitadas.

Como recuperar Cabo Frio diante de uma conjuntura tão grave e adversa, com demandas represadas durante anos? Como atender, dentro desse quadro tão difícil, as expectativas criadas com a eleição?

O prefeito eleito tem falado em cortar despesas e dar mais atenção à arrecadação própria, descuidada desde os tempos em que os royalties do petróleo entravam massivamente.

Aumentar a arrecadação em tempos de crise vai ser um belo exercício de competência política e financeira.

E muita paciência, credibilidade e criatividade.

DISPUTA NA EDUCAÇÃO

Disputa na educação

O governo ainda não começou, mas os grupos começam a se organizar na área da educação pública. Cobram compromissos, ações e até trabalham politicamente para indicar quem deve ser o secretário (a). Tudo leva a crer que a disputa dentro da militância do sindicato dos profissionais da educação é grande e tende a se aprofundar.

Cólicas!

Enquanto isso o prefeito eleito continua visitando bairros e comunidades, segundo ele “agradecendo os votos”, mas aproveitando para ouvir as reivindicações da população. Até o momento só deu algumas pistas sobre a formação do secretariado. Tem gente em cólicas!

Praça Porto Rocha

Entre tantas tarefas do novo prefeito está evidentemente à reforma da tradicional Praça Porto Rocha, no centro de Cabo Frio. Atualmente, após a “reforma” realizada nos estertores do governo Marquinhos Mendes, está se assemelhando ao Cemitério Santa Izabel: não faltam lápides.

Parcerias público-privadas

Como a crise é grande está na hora da prefeitura fazer parcerias público-privadas para recuperar o patrimônio público. Os equipamentos urbanos, essenciais para o município, estão em grande parte depredados e degradados, por anos de descaso: as empresas podem ajudar e muito.

Interlocução com a Câmara

Quais serão os principais interlocutores do novo prefeito na câmara? Como a cidade vive uma crise profunda é preciso que essa articulação política seja muito bem feita para dar velocidade às transformações que Cabo Frio precisa. O governo precisa construir uma maioria sólida.

Pulverização de votos e legendas

O grande número de candidatos e partidos pulverizou a votação: Republicanos: 3; DC, Avante, PL, Democratas; PTB, Solidariedade, PP e MDB: 1. O PDT elegeu o prefeito José Bonifácio, mas fez uma bancada discreta: apenas dois vereadores: reelegeu Oséas de Tamoios e elegeu David Souza: ambos são empresários e de linha política moderada.

Sem voto!

A eleição trouxe a perspectiva de uma mudança substancial na vida política da cidade e tem gente que fica assombrada com essa possibilidade e quer a manutenção do ‘status quo’ de qualquer jeito. O ex-vereador e ex-secretário Dirlei Pereira divulga e o advogado Cláudio Mansur entra com ação na justiça.

Os inconformados!

Os inconformados com o pequeno número de votos que tiveram na eleição fizeram algum barulho. Na tentativa de levantar o fogo, o inesquecível Dirlei Pereira, que teve 836 votos como candidato a prefeito, fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais. Entre os que usaram a palavra Naldin Molejinho (PMN), com 43 votos e Roberto Rosa (PTB) com 47. Todos dizem defender a democracia. Saravá!

Força política residual

O ex-prefeito Alair Corrêa, que quando interessa se diz socialista, inclusive tentou se filiar ao PC do B, apoiou o candidato bolsonarista, o deputado Sérgio L. Azevedo, do Republicanos. Com exceção de Vinícius Corrêa, reeleito pelo PP, com 1181 votos, cuja votação não parece ligada ao ex-prefeito, o “velho morubixaba” aparece cada vez mais como uma força política residual, no município.

Cabos eleitorais

A eleição para vereador é a mais complicada e difícil dentro do processo democrático brasileiro. O número excessivo de “candidatos” se deve, em grande parte, a necessidade de cabos eleitorais engordarem a legenda daqueles que são realmente candidatos.

Quando o voto é escasso

Quando o voto é muito escasso, os cabos eleitorais, vestidos de candidatos, perdem prestígio junto ao seu político predileto, digamos assim: vão para o beleléu os contratos, portarias ou outras vantagens, dos quais eles vivem. Revela à luz do sol a magreza do seu prestígio junto aos eleitores. Explica muito chororô por aí.