LULA, O QUE É ISSO COMPANHEIRO?

Cláudio Leitão

A entrevista dada por Lula esta semana ao importante jornal espanhol “EL PAÍS” foi boa, entretanto,revelou aquelas velhas vacilações do petista em assuntos políticoscomplexos, como conceitos sobre a democracia. Apesar da sua enorme experiência política, convenhamos, ele nunca foi um virtuose em sociologia e ciência política.

É óbvio que Lula não oferece nenhum risco a democracia brasileira, mas para criticar e estabelecer contrapontos corretos a sanha autoritária de Bolsonaro, precisa ser firme na defesa conceitual de todos os aspectos democráticos, mesmo que seja dessa democracia burguesa em que vivemos com todos os seus vícios e defeitos. Das suas respostas, duas foram bastante claudicantes. Na que compara Ângela Merkel da Alemanha com Daniel Ortega da Nicarágua e a outra na eterna discussão sobre o modelo cubano.

Na primeira, é importante frisar que o modelo alemão é parlamentarista, o que provoca muitas vezes, por decisão democrática do parlamento, a manutenção do chanceler no poder por vários mandatos. Isso se repete em vários outros países parlamentaristas. Já no caso de Ortega, o modelo é presidencialista e nada justifica a perseguição e a prisão de líderes oposicionistas para facilitar sua eleição. Ortega mudou demais, virou um típico ditador latino-americano e deixou muito lá para atrás aquele que foi um dia uma liderança revolucionária sandinista.

Logo, responder o questionamento da jornalista sobre a atitude ditatorial de Ortega dizendo que ela era errada, mas comparando com o tempo de permanência no poder da chanceler alemã, foi uma grande bobagem e “uma bola fora”.Havia vários outros pontos de abordagens possíveis. Ortega, hoje, não é defensável e não pode ser aliado em nada, pois não está mais no nosso campo.

Na segunda, em relação a questão cubana, quando confrontado com os últimos protestos e a falta de maior liberdade democrática na ilha caribenha, Lula não enfrentou a questão e tergiversou apelando para o criminoso bloqueio econômico que já dura 60 anos. É claro que o bloqueio é condenável e deve ser muito criticado, mas não podemos fugir do debate sobre a necessidade de flexibilização do regime cubano. É um desafio que Lula e toda a esquerda brasileira precisam enfrentar. Tanto o bloqueio quanto a falta de maior espaço democrático em Cuba são criticáveis. Uma razão não exclui a outra.

A revolução cubana foi vitoriosa e trouxe méritos e desenvolvimento para seu povo. Terminou com a ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, subordinada aos EUA, abrindo novos horizontes na América Latina para um modelo socialista que visava melhorar a qualidade de vida do povo e uma melhor repartição da riqueza produzida. Entretanto, penso que a “mão firme” do primeiro momento da revolução, nesta nova realidade e contemporaneidade, precisa ser flexibilizada sem prejuízo ao modelo.

As novas lideranças cubanas precisam mostrar que cabe liberdade democrática num modelo socialista. Os caminhos precisam ser achados com a ampla participação do povo cubano. Os cubanos, respeitando os critérios de autodeterminação dos povos, precisam achar seus caminhos de consenso.

Não vamos aqui querer “tapar o sol com a peneira” e dizer que existe democracia plena em Cuba. Não existe. Existem eleições para representantes do povo numa estrutura parecida com uma assembleia ou parlamento popular, mas acredito que é necessário um avanço maior em outras áreas. Será que não vamos conseguir compartilhar socialismo com um processo de maior liberdade democrática?

O discurso de defesa intransigente da democracia, repito, mesmo que seja essa burguesa que temos com todos os seus senões, no Brasil ou fora do país em entrevistas para grandes órgãos de comunicação internacionais, não pode ter dúvidas ou vacilações. Questionamentos como este que Lula se deparou vão se repetir e é preciso coragem para enfrentá-los com a verdade dos fatos e não com escapes oportunistas, sob pena de sermos incoerentes na crítica ao modelo fascista e antidemocrático de Bolsonaro.

Este texto não tem a pretensão de fazer uma crítica oposicionista a Lula, reconheço que é ele que tem as melhores condições de derrotar Bolsonaro, mas entendo também que político nenhum merece nosso apoio de forma acrítica e messiânica. Ele na situação que está, na liderança folgada das pesquisas eleitorais, precisa ter mais cuidado e elaborar melhor suas manifestações políticas. Todo mundo está de olho nele. Lula é uma “velha raposa da política” e não pode dar “esse mole” para os adversários. Como se diz no jargão popular “não pode dar milho aos pombos” !!

Democracia não é o paraíso, mas ela consegue garantir que a gente não chegue no inferno.

Leandro Karnal

Claudio Leitão é economista e professor de história.

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