O fumante

Pelas calçadas os transeuntes todos se viravam procurando de onde vinha a fumaça daquele cigarro. Era difícil descobrir já que o vento irrequieto apagava todos os rastros do trago. Olhavam uns para as mãos dos outros e nada havia de aceso entre os dedos daqueles que transitavam pelas calçadas que desembocavam na praça.

E na praça o pipoqueio columbófilo que olhava os pombos comerem os restos do milho com tanta satisfação quanto após uma abundante venda, se levantou do seu banquinho de plástico marrom. Virou e desvirou a cabeça de leste a oeste e também não encontrou o tabagista.

Tanta gente passando, porque nesse mundo o movimento só se cabe em três lacunas (e que me desculpe Aristóteles por simplificar demasiadamente a sua teoria): ainda não se foi, se está indo, ou já se chegou. No caso desses que estavam passando pelas calçadas e praça, não havia bisbilhoteiro profissional para descobrir, munido de seus talentos de saber da vida alheia, quem estava fumando o tal cigarro que em todos penetrava pelas narinas adentro, até a carne esponjosa dos alvéolos.

E não que eu seja o bisbilhoteiro mor dessa cidade em baixa temporada, entretanto vou contar a vocês quem era o fumante. Claro que vinha muito disfarçado. Seu melindre era a bicicleta pedalada sem pressa. As duas mãos chumbadas aos punhos do guidão. As costas afundadas, parecendo cansadas. E o cigarro lá, entre os dedos, sem quase ir a boca.

O fumante, portanto, era o ciclista. Porque há gente nessa terra que pedala e fuma. E assim se disfarça e mantém o círculo vicioso.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 25 de novembro de 2021

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