Um mapa eleitoral para 2022

Rafael Peçanha

A um ano das eleições, apesar da inconstância vivida pelo nosso país (que se reflete nas cidades), parece possível pensar um mapa de possibilidades acerca dos termos que irão reger o próximo pleito, sem a pretensão, obviamente, de realizar apostas exatas, mas com a humildade maiêutica de se levantar mais perguntas do que conclusões. 

Ao que tudo indica, teremos uma eleição presidencial na qual as paixões estarão à flor da pele, como talvez nunca antes. Esse cenário conduz a uma polarização e é conduzido também por ela, em um movimento classicamente dialético. Isso significa dizer que, caso os dois nomes que hoje lideram as pesquisas sejam de fato candidatos, muito provavelmente não haverá espaço para um terceiro nome ou via.

Isso ocorre porque Lula e Bolsonaro são, hoje, os dois políticos pessoalmente mais populares do país, embora, no caso deste último, o índice de popularidade esteja em queda vertiginosa. Tendo em vista que toda a carga emocional e ideológica será direcionada a essa disputa, a tendência é vermos, em oposto, eleições frias e pragmáticas para os demais cargos em disputa. 

Assim sendo, principalmente na eleição para deputados, o votante provavelmente contabilizará de que maneira os candidatos atenderam ou atendem suas expectativas pessoais – o que inclui tanto motivos clientelistas (oferta de cargos e benesses econômicas) quanto de agenda (satisfação pessoal por um bom mandato ou a defesa de uma bandeira). Isso, entretanto, desprovido da paixão de ir às ruas ou de debater nas redes sociais, ações que ficarão quase restritas à eleição majoritária nacional.

As recentes alterações na legislação eleitoral, por sua vez, têm como objetivo manter o status do Congresso Nacional, reforçando o poder dos grandes políticos e partidos, aniquilando silenciosamente médias e pequenas legendas ou lideranças.

O retorno das coligações, o surgimento das federações, a flexibilização da Lei da Ficha Limpa e a nova contagem das sobras eleitorais, somadas às regras já vigentes sobre Fundo Eleitoral e percentuais mínimos de votação, embora surjam com o discurso de conferir mais justiça ao pleito, nada mais querem do que manter no poder os grandes conglomerados políticos, especialmente, os ligados ao chamado Centrão.

Isso significa que haverá investimento maciço na montagem de nominatas para Deputado Federal, e, apesar das mudanças na legislação, provavelmente teremos o maior número de candidatos a este cargo na história da Região dos Lagos. 

A montagem das nominatas para a ALERJ, por sua vez, figura em segundo plano para os partidos. Porém, esse mesmo papel coadjuvante tende a beneficiar lideranças com articulação em diferentes cidades; que estejam em partidos grandes e fortes; e com trabalho pregresso a mostrar, reforçando a tendência de uma disputa fria, na qual a objetividade e o pragmatismo de uma boa campanha serão fundamentais. 

É claro que a diferenciação entre razão e emoção na eleição não é tão simples assim, sendo tema de ampla discussão. Para Anthony Downs, (Uma teoria Econômica da Democracia), há um eleitorado racional, que apela para atalhos de informação (shortcuts), sendo exemplos destes os itens de satisfação pessoal que acima elenquei. 

O grande debate, entretanto, está na emotividade do voto, e aí cabe recorrer ao campo da Psicologia Social. Para Herbert Simon, toda decisão é racional, sendo as emoções auxiliares, ao passo que para autores como Robert Zanjoc, ao contrário, há uma forte independência do direcionamento emotivo em relação à racionalidade.

Portanto, o que aqui defendo se aproxima de Zanjoc, autor que influenciou trabalhos na área da Ciência Política, como o de Lyn Ragsdale, cuja tese é exatamente a de que as avaliações presidenciais são mais conduzidas por aspectos emocionais do que outros pleitos. Ora, como há uma supervalorização desse sentimento, hoje, no Brasil, devido à polarização em curso, a consequência natural é a de que tudo tenda a ser mais maximizado nos extremos em 2022 do que nos outros anos, isto é, tanto a paixão pela eleição ao Planalto quanto a frieza da disputa legislativa. Não custa ressaltar que há ainda outro ingrediente: uma certa emotividade reprimida pelo fato desta mesma polarização ter sido evitada em 2018, por vias jurídicas eivadas de parcialidade, conforme evidenciam as decisões de última instância sobre a Operação Lava Jato.

“O que será o amanhã”? Se nem o poeta respondeu, que dirá este pobre mortal. Cabe pensar nessas possibilidades e observar o que veremos à frente, seguindo na luta, sempre, em defesa da democracia, contra toda forma de preconceito, autoritarismo, mentiras e pós-verdade.

(*) Rafael Peçanha é ex-vereador e atual Secretário-Adjunto de Ciência e Tecnologia de Cabo Frio, Historiador Especialista em Sociologia Urbana (UERJ), Mestre e Doutor em Antropologia (UFF), Pós-Doutorando em Filosofia (PUC-RJ).

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