OBRA DE SANTA ENGRÁCIA

Reeleição?

Eleito como vice na chapa do defenestrado Wilson Witzel, bolsonarista e ligado a extrema direita católica, o governador Cláudio Castro tem uma tarefa quase impossível pela frente: a reeleição. Deve enfrentar gente de peso como Marcelo Freixo, Rodrigo Neves ou mesmo o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.

Pendurado!

É na candidatura de Cláudio Castro, que está pendurado o deputado e secretário de ciência e tecnologia, Sérgio L. Azevedo. Vai enfrentar o esvaziamento da onda bolsonarista e vários companheiros da extrema direita, que também vão disputar um assento na Assembleia Legislativa (ALERJ).

Sem sorte

O deputado Sérgio L. Azevedo não tem tido sorte na relação com Cabo Frio. Ainda no governo de Adriano Moreno teve o episódio dos respiradores sucateados, de grande repercussão. Foi um vexame e certamente arrancou do devoto bolsonarista muitos votos na eleição para prefeito.

Obra de Santa Engrácia

Na administração de José Bonifácio, que o derrotou botando 11 mil votos de frente à “sorte” continuou atrapalhando o secretário/deputado, o fiel de Cláudio Castro. Aconteceu à inexpressiva inauguração parcial do IML e pra fechar com chave de ouro a novela da inauguração do Hospital Unilagos, que parece obra da Igreja de Santa Engrácia, aquela que nunca termina.

Os velhos conhecidos

São muitas as incógnitas para as próximas eleições proporcionais, aqui em Cabo Frio e Região dos Lagos. Alguns candidatos como Alair Corrêa e Janio Mendes são bastante conhecidos do eleitorado: há muito tempo estão na vida política. O ex-prefeito diz que é candidato a deputado federal, mas ainda não se definiu e Janio quer voltar a sentar no plenário da ALERJ como deputado.

Alair: jornada difícil!!!

A princípio, caso o velho morubixaba confirme sua candidatura a câmara federal vai enfrentar o delegado da Polícia Federal, Maurício Laterça, que busca a reeleição. Laterça teve o discreto, mas decisivo apoio de Marquinhos Mendes apesar da candidatura de Carlos Victor (Vivique), que tentava pela segunda vez a cadeira de deputado federal.

O tabelião-surfista

A eleição não promete ser fácil para ninguém, mas no campo progressista o nome de Flávio Rosa aparece como dos prováveis candidatos a deputado federal pelo PSB. O tabelião-surfista, como é chamado pelos amigos, foi secretário de turismo e esportes do governo de José Bonifácio e saiu com boa imagem junto à população.

Novidade!

Flávio Rosa (Tiziu) tem grande penetração no meio esportivo, junto à juventude e entre as tradicionais famílias cabofrienses. Caso o deputado Alessandro Molon seja escalado como o puxador da legenda socialista (deve levar para a câmara em Brasília ao menos três candidatos com ele) pode ser a grande novidade na eleição.

UM JEITO PARTICULAR 

José Correia Baptista 

A minha experiência de policial havia-me deixado com o coração duro. Não era mais aquele jovem visionário, em que para mim todos eram iguais e os bons sentimentos estavam entranhados na humanidade: existindo as condições favoráveis, todos revelariam sua bela face. Nessa época, um simples corte com sangue em uma pessoa me deixava literalmente enfraquecido. Só de pensar no sofrimento humano, minha pressão parecia baixar.

A vida dá muitas voltas. Segui a carreira policial. Passei a me acostumar com a expressão da morte. Tão diferente, tão particular, mas tão autocomplacente. Cada vítima incorpora o seu fim como um presságio. A morte é o mais íntimo reencontro com o destino de cada um. Tanto a morte violenta como a natural. O morto – é só observar bem – sempre teve aquele rosto. Quer dizer, aquele jeito final congelado, o instantâneo fixado, apareceu em muitos momentos em vida. O morto é ele mesmo. Por isso, depois que nos acostumamos a conviver com a cotidianidade da morte, a nossa pressão fica inalterada.

Mas ao ver o meu amigo de infância, Mauro Toffano, com uma faca encravada no pescoço, a insegurança da juventude reapareceu. Em meu estado – que não transpareceu para ninguém, acredito – nem encarei o Mauro. O meu atenuante, depois de me restabelecer da cena do crime, era que se tratava de um amigo, cujo destino nunca imaginara que tomaria aquele caminho.

O meu conceito de bom policial se solidificou depois de esclarecer o assassinato. Ninguém sabia a verdadeira história que me conduziria imediatamente ao autor do crime. Sílvia, a mulher de Mauro, era a assassina. Eu e Sílvia chegamos a morar juntos quando fazíamos a faculdade de História. Aquele golpe no pescoço de Mauro, com a faca enterrada obliquamente, era a inclinação exata de como Sílvia cortava o pão todas as manhãs. Apenas eu e Mauro sabíamos que havia um instinto assassino em Sílvia. Que se manifestava inconscientemente todos os dias no café da manhã. E em único dia à noite, quando meu velho amigo Mauro recebeu o golpe caseiro.

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

A CAMPANHA ESTÁ NA RUA

A campanha

Oficiosamente a campanha está na rua, embora a Justiça Eleitoral não tenha dado a partida. Passou da hora dos candidatos a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal estabelecerem debates e diálogos para esclarecer a população o que representam suas candidaturas.

O bolsonarismo

Tudo leva a crer que o número de candidatos de extrema direita será grande, buscando os nichos do bolsonarismo instalados em Cabo Frio, até no governo municipal (incrível). Dificilmente terão resultados semelhantes a 2018: a onda bolsonarista arrefeceu bastante.

Tentativa de reeleição

A reeleição a qualquer custo deve ser o lema da atuação de Sérgio L. Azevedo. Derrotado por 11 mil votos na eleição para prefeito, em 2020, o deputado sabe que se não conseguir a reeleição sua carreira política estará encerrada. A vitória pode lhe trazer fôlego para 2024.

Candidatura?

O ex-prefeito Alair Corrêa anuncia possível candidatura à câmara federal. Dificilmente leva a candidatura até o fim. Sabe que suas condições político-eleitorais são, no mínimo, complicadas. Deve mais uma vez negociar politicamente seu apoio a algum candidato de fora do município.

Fragilidade

As “paredes murmurantes” do Palácio Tiradentes e da Câmara Municipal concordam que o ex-prefeito Alair Corrêa deve preservar seu passado político. A sua participação direta na eleição pode mostrar uma fragilidade eleitoral para o qual ele não está preparado.

Jardim

O piscinão está sendo transformado em um grande jardim, de manutenção bem mais barata e sem desperdício de água, em época de aquecimento global. A Praia da Barra (Praia do Forte) só tem a ganhar.

Os “proprietários”

Os “proprietários” das areias da Praia do Forte estão assanhados e precisam ser enquadrados, obedecendo às regras estabelecidas pelo poder público. A fiscalização da Justiça do Trabalho deveria se fazer presente na área.

Falta capitalizar

Há quem diga que o governo de José Bonifácio não soube capitalizar uma grande vitória para a cidade: a criação do Hotel do SESC. O ganho em termos de empregos, economia, cultura e esporte é sem precedentes. Entretanto …..

Sistema S

Quem conhece a importância do ‘Sistema S’ para o município sabe como esse trabalho vai render frutos não só para Cabo Frio, mas também para toda a Região dos Lagos. É preciso ampliar o debate político sobre o tema.

Os Desafios Para o Desenvolvimento da Pesca Marítima no Brasil

Eduardo Pimenta (*)

A produção mundial de pescado por captura cresceu significativamente a partir da década de cinquenta, saltando de menos de 20 milhões de toneladas para cerca de 90 milhões de toneladas na década de noventa, estabilizando-se nesse patamar. A razão dessa estagnação é o fato de que mais da metade (52%) dos estoques pesqueiros mundiais já se encontrarem sob exploração plena, enquanto 28% já estavam ou sobre explorados (19%), ou já exauridos (8%), ou em recuperação, após terem colapsado (1%), havendo apenas cerca de 20% com alguma possibilidade ainda de ampliação da sua produção. Estima-se que a produção mundial dificilmente ultrapassará a marca das 100 milhões de toneladas/ano.

Cerca de 90% da produção mundial advêm de menos de 3% da área total dos oceanos, devido à diferença entre a profundidade média, em torno de 3.800 m, e a profundidade da zona eufótica, na qual a intensidade de luz é suficiente para permitir o crescimento e a reprodução do fitoplâncton, geralmente inferior a 200 m. Do ponto de vista produtivo, os oceanos assemelham-se a desertos, na realidade existem alguns poucos oásis de elevada produtividade. Sendo a disponibilidade de luz e nutrientes as condicionantes determinantes para a ocorrência e intensidade dos fenômenos de produção primária, base da cadeia alimentar marinha. O fator que condiciona a elevada produção pesqueira a privilegiadas regiões é a ocorrência do fenômeno físicos da ressurgência, que promove o soerguimento de águas profundas, disponibilizando nutriente são seres fotosintetizantes presentes na zona eufótica. Diante da constatação de que os recursos pesqueiros já se encontram próximos dos seus limites máximos de sustentabilidade, é importante assegurar o equilíbrio entre os níveis de exploração compatíveis com o rendimento máximo sustentável dos estoques naturais.

Já o consumo mundial de produtos pesqueiros per capita vem crescendo e hoje gira em torno de 17 kg/ano, no Brasil o consumo médio per capita gira em tomo de 8,0 kg/ano. Mundialmente a pesca constitui uma atividade econômica com grande relevância social e cultural. A população mundial empregada na atividade pesqueira situa-se próxima a 36 milhões, sendo que, desse número, 15 milhões praticam a pesca como atividade exclusiva, 13 milhões como atividade complementar e 8 milhões de forma ocasional. O comércio internacional de produtos pesqueiros supera a marca anual de US$ 50 bilhões, com os países em desenvolvimento apresentando um saldo positivo em torno de US$ 17 bilhões, constituindo-se como importante atividade geradora de emprego e renda.

No Brasil, a produção por captura cresceu entre 1960 e 1985 impulsionada pelo Decreto-Lei 221, que estabeleceu uma série de incentivos fiscais para o setor. Saltando de menos de 250 mil t/ ano para mais de 750 mil t/ano, declinando em seguida, para menos de 450.000 t, no início da década de 90. Desde então tem se estabilizado, com uma discreta tendência de crescimento. Muitos são os desafios para o desenvolvimento da pesca marítima no Brasil, além da reduzida produtividade do mar brasileiro determinado pelas características oceanográficas, somam-se fatores relacionados ao sobre dimensionamento dos meios de produção, a baixa abundância relativamente dos recursos pesqueiros marinhos, a degradação ambiental dos ambientes costeiros, o esforço de pesca concentrado sobre um pequeno grupo de espécies, a utilização de métodos predatórios de captura, o desconhecimento de alguns recursos pesqueiros explorados, a deficiência de dados estatísticos de produção e a falta de conscientização do setor produtivo acerca dos limites naturais da exploração sustentável.

O aprimoramento dos instrumentos de gestão a fiscalização e a recuperação dos ecossistemas costeiros são desafios impostos ao crescimento da pesca costeira nacional realizada sobre a plataforma continental. Já os desafios para o desenvolvimento da pesca oceânica, além da plataforma continental, onde existem recursos demersais de alto valor comercial, habitantes de águas frias que apresentam baixo potencial de reprodução e alta longevidade, características que reduzem o seu potencial de exploração, requerendo rigoroso monitoramento e ordenamento de sua pesca, com intuito de assegurar a sua sustentabilidade e evitar sobre exploração. Ainda sobre a zona francamente oceânica, onde ainda ocorre à pesca de espécies pelágicas altamente migratórias, representadas por atuns e afins, há possibilidades viáveis de ampliação da produção nacional. Os atuns e espécies afins são capturados por diversos países, condicionando o ordenamento das pescarias a organismos internacionais de gestão, cabendo a Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico\ICCAT, uma organização intergovernamental,a responsabilidade pelo gerenciamento e conservação dessas espécies no Oceano Atlântico e mares adjacentes.

Mesmo possuindo 8.500 km de costa e uma área de Zona Econômica Exclusiva em torno de 4 milhões de km2, a participação brasileira na captura de atuns e afins no Oceano Atlântico é limitada, respondendo por apenas 7% (35.000 t) do peso total desembarcado anualmente, igual a 500.000 t. Se for considerado o valor de comercialização, contudo, esse percentual cai ainda mais, já que mais da metade (57%) da produção nacional é composta pelo bonito-de- barriga-listrada, uma das espécies de atum mais costeiras de menor valor comercial. Quando comparados com os recursos pesqueiros costeiros, os recursos oceânicos apresentam uma série de vantagens representadas pela proximidade da costa, alto valor comercial de exportação, produção de baixo custo, ampla distribuição e biomassa elevada.

 (*) Biólogo, M.Sc. em Engenharia de Produção, Coordenador De Pesquisa e Extensão da Universidade Veiga de Almeida, pesquisador The International Commission for the Conservation of Atlantic Tunas, consultor estratégico do Projeto Albatroz, Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica Lagos São João e membro da Academia Cabofriense de Letras.

A estrutura da bolha de sabão

Lygia Fagundes Telles

Era o que ele estudava. “A estrutura, quer dizer, a estrutura” – ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. “A estrutura da bolha de sabão, compreende?” Não o compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito.

Então eu jogava longe canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolhas de sabão. Mas e a estrutura? “A estrutura” – ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado, cuidadinho, ô! a paciência. A paixão.

No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem sangue.

Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenado à ruptura.

Ainda fechei a janela para retê-la, mas com sua superfície que refletia tudo ela avançou cega contra o vidro. Milhares de olhos e não enxergava. Deixou um círculo de espuma.

Foi simplesmente isso, pensei quando ele tomou a mulher pelo braço e perguntou: “Vocês já se conheciam?” Sabia muito bem que nunca tínhamos nos visto mas gostava dessas frases acolchoando situações, pessoas.

Estávamos num bar e seus olhos de egípcia se retraíam apertados. A fumaça, pensei. Aumentavam e diminuíam até que se reduziram a dois riscos de lápis-lazúli e assim ficaram. A boca polpuda também se apertou, mesquinha. Tem boca à-toa, pensei.

Artificiosamente sensual, à-toa. Mas como é que um homem como ele, um físico que estudava a estrutura das bolhas, podia amar uma mulher assim? Mistérios, eu disse e ele sorriu, nos divertíamos em dizer fragmentos de idéias, peças soltas de um jogo que jogávamos meio ao acaso, sem encaixe.

Convidaram-me e sentei, os joelhos de ambos encostados nos meus, a mesa pequena enfeixando copos e hálitos. Me refugiei nos cubos de gelo amontoados no fundo do copo, ele podia estudar a estrutura do gelo, não era mais fácil? Mas ela queria fazer perguntas.

Uma antiga amizade? Uma antiga amizade.

Ah. Fomos colegas? Não, nos conhecemos numa praia, onde? Por aí, numa praia. Ah. Aos poucos o ciúme foi tomando forma e transbordando espesso como um licor azul-verde, do tom da pintura dos seus olhos.

Escorreu pelas nossas roupas, empapou a toalha da mesa, pingou gota a gota. Usava um perfume adocicado. Veio a dor de cabeça: “Estou com dor de cabeça”, repetiu não sei quantas vezes. Uma dor fulgurante que começava na nuca e se irradiava até a testa, na altura das sobrancelhas.

Empurrou o copo de uísque. “Fulgurante.” Empurrou para trás a cadeira e antes que empurrasse a mesa ele pediu a conta.

Noutra ocasião a gente poderia se ver, de acordo? Sim, noutra ocasião, é lógico.

Na rua, ele pensou em me beijar de leve, como sempre, mas ficou desamparado e eu o tranqüilizei, está bem, querido, está tudo bem, já entendi. Tomo um táxi, vá depressa, vá.

Quando me voltei, dobravam a esquina. Que palavras estariam dizendo enquanto dobravam a esquina? Fingi me interessar pela valise de plástico de xadrez vermelho, estava diante de uma vitrina de valises. Me vi pálida no vidro. Mas como era possível.

Choro em casa, resolvi. Em casa telefonei a um amigo, fomos jantar e ele concluiu que o meu cientista estava felicíssimo. Felicíssimo, repeti quando no dia seguinte cedo ele telefonou para explicar. Cortei a explicação com o felicíssimo e lá do outro lado da linha senti-o rir como uma bolha de sabão seria capaz de rir. A única coisa inquietante era aquele ciúme. Mudei logo de assunto com o licoroso pressentimento de que ela ouvia na extensão, oh, o teatro. A poesia. Então ela desligou.

O segundo encontro foi numa exposição de pintura. No começo aquela cordialidade. A boca pródiga. Ele me puxou para ver um quadro de que tinha gostado muito. Não ficamos distantes dela nem cinco minutos. Quando voltamos, os olhos já estavam reduzidos aos dois riscos. Passou a mão na nuca. Furtivamente acariciou a testa. Despedi-me antes da dor fulgurante. Vai virar sinusite, pensei.

A sinusite do ciúme, bom nome para um quadro ou ensaio. “Ele está doente, sabia? Aquele cara que estuda bolhas, não é seu amigo?”

Em redor, a massa fervilhante de gente, música. Calor. Quem é que está doente? eu perguntei. Sabia perfeitamente que se tratava dele mas precisei perguntar de novo, é preciso perguntar uma, duas vezes para ouvir a mesma resposta, que aquele cara, aquele que estuda essa frescura da bolha, não era meu amigo?

Pois estava muito doente, quem contou foi a própria mulher, bonita, sem dúvida, mas um tanto grosseira, fora casada com o primo de um amigo, um industrial meio fascista que veio para cá com passaporte falso, até a Interpol já estava avisada, durante a guerra se associou com um tipo que se dizia conde italiano mas não passava de um contrabandista.

Estendi a mão e agarrei seu braço porque a ramificação da conversa se alastrava pelas veredas, mal podia vislumbrar o desdobramento da raiz varando por entre pernas, sapatos, croquetes pisados, palitos, fugia pela escada na descida vertiginosa até a porta da rua, espera! eu disse. Espera. Mas que é que ele tem? Esse meu amigo.

A bandeja de uísque oscilou perigosamente acima do nível das nossas cabeças. Os copos tilintaram na inclinação para a direita, para a esquerda, deslizando num só bloco na dança de um convés na tempestade.

O que tinha? O homem bebeu metade do copo antes de responder: não sabia os detalhes e nem se interessara em saber, afinal, a única coisa gozada era um cara estudar a estrutura da bolha, mas que idéia! Tirei-lhe o copo e bebi devagar o resto do uísque com o cubo de gelo colado ao meu lábio, queimando. Não ele, meu Deus. Não ele, eu repeti. Embora grave, custosamente minha voz varou todas as camadas do meu peito até tocar no fundo onde as pontas todas acabam por dar, que nome tinha? Esse fundo, perguntei e fiquei sorrindo para o homem e seu espanto. Expliquei-lhe que era o jogo que eu costumava jogar com ele, com esse meu amigo, o físico. O informante riu. “Juro que nunca pensei que fosse encontrar no mundo um cara que estudasse um troço desses”, resmungou ele voltando-se rápido para apanhar mais dois copos na bandeja, ô! tão longe ia a bandeja e tudo o mais, fazia quanto tempo? “Me diga uma coisa, vocês não viveram juntos?” – lembrou-se o homem de perguntar. Peguei no ar o copo borrifando na tormenta. Estava nua na praia. Mais ou menos, respondi. Mais ou menos eu disse ao motorista que perguntou se eu sabia onde ficava essa rua. Tinha pensado em pedir notícias por telefone mas a extensão me travou.

E agora ela abria a porta, bem-humorada. Contente de me ver? A mim?! Elogiou minha bolsa. Meu penteado despenteado. Nenhum sinal da sinusite. Mas daqui a pouco vai começar. Fulgurante. “Foi mesmo um grande susto” – ela disse. “Mas passou, ele está ótimo ou quase – acrescentou levantando a voz.

Do quarto ele poderia nos ouvir se quisesse. Não perguntei nada. A casa. Aparentemente, não mudara, mas reparando melhor, tinha menos livros. Mais cheiros. Flores de perfume ativo no vaso, óleos perfumados nos móveis. E seu próprio perfume. Objetos frívolos – os múltiplos – substituindo em profusão os únicos, aqueles que ficavam obscuros nas antigas prateleiras da estante.

Examinei-a enquanto me mostrava um tapete que tecera nos dias em que ele ficou no hospital. E a fulgurante? Os olhos continuavam bem abertos, a boca descontraída. Ainda não. “Você poderia ter se levantado, hein, meu amor? Mas anda muito mimado”, disse ela quando entramos no quarto.

E começou a contar muito animada a história de um ladrão que entrara pelo porão da casa ao lado, “a casa da mãezinha”, acrescentou afagando os pés dele debaixo da manta de lã. Acordaram no meio da noite com o ladrão aos berros pedindo socorro com a mão na ratoeira, tinha ratos no porão e na véspera a mãezinha armara uma enorme ratoeira para pegar o rei de todos, lembra, amor?

O amor estava de chambre verde, recostado na cama cheia de almofadas. As mãos branquíssimas descansando entrelaçadas na altura do peito. Ao lado, um livro aberto e cujo título deixei para ler depois e não fiquei sabendo. Ele mostrou interesse pelo caso do ladrão mas estava distante do ladrão, de mim e dela. De quando em quando me olhava interrogativo, sugerindo lembranças mas eu sabia que era por delicadeza, sempre foi delicadíssimo. Atento e desligado. Onde? Onde estaria com seu chambre largo demais? Era devido àquelas dobras todas que fiquei com a impressão de que emagrecera? Duas vezes empalideceu, ficou quase lívido.

Comecei a sentir falta de alguma coisa, era do cigarro? Acendi um e ainda a sensação aflitiva de que alguma coisa faltava, mas o que estava errado ali? Na hora da pílula lilás ela foi buscar o copo d’água e então ele me olhou lá do seu mundo de estruturas. Bolhas. Por um momento relaxei completamente: não sei onde está, mas sei que não está, eu disse e ele perguntou, “Jogar?” Rimos um para o outro.

“Engole, amor, engole” – pediu ela segurando-lhe a cabeça. E voltou-se para mim, “preciso ir aqui na casa da mamãezinha e minha empregada está fora, você não se importa em ficar mais um pouco? Não demoro muito, a casa é ao lado”, acrescentou. Ofereceu-me uísque, não queria mesmo? Se quisesse, estava tudo na copa, uísque, gelo, ficasse à vontade. O telefone tocando será que eu podia?… Saiu e fechou a porta. Fechou-nos.

Então descobri o que estava faltando, ô! Deus.

Agora eu sabia que ele ia morrer.

PRAIA DO FORTE, A GALINHA DOS OVOS DE OURO

A galinha dos ovos de ouro.

Proprietários de barracas e seus empregados, que ocupam boa parte da Praia do Forte protestaram em frente da prefeitura. Espera-se que o governo resista às pressões daqueles que se julgam donos da praia e que faturam alto com sua exploração. A Praia do Forte está por demais maltratada com os desmandos da turma que pensa apenas em destruir a galinha dos ovos de ouro.

Barraqueiros pensam que são proprietários da praia

Os donos das barracas se comportam como se fossem proprietários da praia e sempre choramingam, alegando prejuízos e problemas sociais. Ao contrário, são empresários bem sucedidos, que faturam alto explorando a mão de obra de muitos trabalhadores: viria a calhar a providencial presença da fiscalização da Justiça do Trabalho. Quem sabe encontraria muita coisa para se ocupar?

Praia do Forte: esfolada ambientalmente

Os barraqueiros esfolam ambientalmente a Praia do Forte e financeiramente os freqüentadores que sofrem diariamente toda sorte de desrespeito. Caso a prefeitura mais uma vez recue, a derrota será do meio ambiente, do turismo organizado e da população em geral, que qualquer dia desses terá que pagar para estender sua toalha na areia de uma praia que um dia foi pública.

MARICOTA

Marcos Antônio de Paula

Foi num dia desses que dona Rosita reuniu, finalmente, os filhos para uma singela homenagem ao falecido.

O sentimento de ausência não vai passar nunca, mas a vida precisa continuar. O velho não tolerava tristeza.

Tem muito para doar, roupas, sapatos. E algumas coisas que ele iria gostar que os filhos guardassem.

Herança? O que eu posso deixar é educação e caráter.

De fato, para alegria do velho professor, os filhos eram todos gente da melhor qualidade.

São coisas pequenas. O Mido Ocean Star ainda faz bela figura. Duas Parker 51 só têm valor sentimental, já não escrevem uma pobre linha. A Remington 22 está à espera de qualquer bom datilógrafo. O Pralana de pêlo de lebre está como novo e o Panamá vai causar disputa. O terno azul marinho de lã, ainda na caixa, talvez sirva para um dos meninos. O Zippo, tinindo, já tem novo dono… Abotoaduras… gravatas de seda… um victorinox, companheiro de viagem…

Da vida nada se leva, todos concordam. Mas do que se deixa, mais que os grandes espólios, são os pequenos objetos e posses íntimas que dizem muito do que fomos.

Abrindo caixas e gavetas a viúva relembra casos e reconstrói com os filhos um pouco da vida do velho professor, encerrando um tempo de luto e cultivando uma saudade que apenas os anos de convivência permitem dimensionar e entender.

Vaidoso como poucos, o velho nunca foi professor. De profissão, era advogado, desses engomadinhos, quase fora de moda. Nas horas vagas, sambista e mestre de bateria. Ganhou o apelido nos tempos de menino, na capoeira.

Foi capoeirista medíocre, por breve tempo, respondendo à insistência do pai, este sim, lutador reconhecido e respeitado no Rio.

Uma caixa causa certo estranhamento. Bem conservada, quase nova, uma garrucha Laport 320. Talvez pronta para uso, se alguém ali soubesse ao menos por onde começar.

Ora, o velho era um amante da paz. O terno clássico encerrava um ferrenho defensor de minorias, desamparados, causas ecológicas, desarmamento e direitos difusos em geral. Um pensador engajado que dava muito trabalho a seus contendores.

Muitas foram as amizades desgastadas e os relacionamentos profissionais abalados.

Dona Rosita se apressou na explicação. Pertenceu ao avô, que a ofereceu como presente. Morava naquela caixa desde que passou às mãos do professor.

Maricota. O avô de vocês a chamava assim. Se o Tenório tem a Lurdinha, dizia, por que não posso ter a Maricota? Se referia, em tom de brincadeira, ao deputado Tenório Cavalcanti e sua famosa Maschinenpistole 40 – MP40, submetralhadora que o irascível político levava à tiracolo.

Dos tempos da capoeira, o avô transformou a fama conquistada em dois mandatos de vereador.

O professor, respeitoso, guardou o presente. Poderia ser uma vitória, finalmente o pai ter desistido daquela bobagem. No íntimo, sentia-se envergonhado, sempre que imaginava o velho lutador na tribuna, de arma na cintura.

O objeto na caixa manchava a memória do velho edil. E afrontava o modo de vida e as convicções do professor, que, mesmo assim, jamais teve coragem de desfazer-se dele. Estava ali, guardado, testemunhando algo que jamais desejou para si.

Sobrou para os filhos, agora, dar destino a Maricota, não mais uma ferramenta de morte, sua vocação original.

Que parecia fazer ecoar a voz do falecido.

Se, em algum momento, eu achar razoável o uso de qualquer arma, terei perdido a contenda, pouco importa seu resultado, antes mesmo que ela tenha começado.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

SUJEITO-SUJEITO

A pretinha apresenta o livro de poemas Sujeito-Sujeito pra quem quiser adquirir.

Fabio Emecê (eu mesmo) apresenta o livro, o primeiro de vários que chegarão pela @cafofoseloeeditora.

Tá afim de adquirir?

Chama no particular ou entra no perfil da @cafofoseloeeditora

30 reais + 10 reais de frete. Se for de Cabo Frio, o Fabio Emecê entrega e aí você aproveita e pede dedicatória.

Só vamos!

CIRO GOMES EM CABO FRIO

Bonifácio & Ciro

A passagem de Ciro Gomes por Cabo Frio serviu para dar uma sacudida nos apoiadores de José Bonifácio (PDT). O número de pessoas reunidas na Praça Porto Rocha e depois na Associação Atlética Cabofriense foi bem expressivo. O prefeito estava de bom humor, depois da reunião com sua base parlamentar. Bom sinal?

Política & Comunicação 1

O governo precisa se comunicar melhor com sua base parlamentar e com a população. O governo leia-se José Bonifácio e alguns dos novos “cardeais” precisa integrar a comunicação social ao debate político interno. No mundo contemporâneo a definição das ações e estratégias para a implementação de políticas públicas em qualquer campo tem que passar pela comunicação.

Política & Comunicação 2

A comunicação social é instrumento político governamental e não deve ficar limitada a publicação das realizações formais da prefeitura. Ao participar do debate político interno a comunicação recebe, mas também interfere nesse debate, realimentando e enriquecendo a discussão. Assim ela consegue de forma conjunta estabelecer as estratégias, que lhe permitirão mostrar o governo e enfrentar o discurso oposicionista em qualquer mídia.

Aliança X Governo

O governo está tendo que trocar o pneu com o automóvel andando. Boa parte das dificuldades políticas são oriundas da engenharia bolada pelo “gênio da lâmpada” para as eleições de 2020. O dia-a-dia do governo não suporta os frutos de uma aliança extensa e desengonçada, que não guarda qualquer coerência ou afinidade política e ideológica.

Manifestações

O prefeito tem enfrentado algumas manifestações, mas tem convivido democraticamente com elas, apesar de bater boca, sem a menor necessidade. Algumas refletem a insatisfação de determinados setores da população, outras são claramente provocadas por grupelhos de extrema direita, com o objetivo de confusão e criar caso.

TURISMO DE MASSA: SIM OU NÃO?

Cláudio Leitão (*)

Chegou a primavera e daqui a pouco vamos entrar no verão. A opção feita pelos últimos prefeitos, principalmente Alair e Marquinhos, por um “turismo de massa” passa por um esgotamento na infraestrutura da cidade que não acompanhou a evolução no número de visitantes e já há algum tempo é questionada por grande parte da população em função dos transtornos que causam.

A pasta do Turismo nestes governos, ao longo de mais de duas décadas, raramente foi ocupada por um técnico ou um especialista na área. Nunca houve um projeto integrado e nem uma avaliação sobre as “perdas e ganhos” para a cidade deste modelo e seus impactos na vida do morador. Coloco abaixo algumas questões que na minha modesta opinião precisam ser avaliadas por um estudo técnico de viabilidade.

Por exemplo, a renda gerada e apropriada pelos comerciantes, hoteleiros e demais segmentos empresariais não são públicos e sim privadas, assim sendo, este ganho empresarial se transforma em impostos para o município? Quanto? Gera quantos empregos de carteira assinada? Os gastos públicos na limpeza da cidade, em pessoal e maquinário mobilizados para tais tarefas, além de maiores investimentos na saúde devido ao aumento da demanda, compensam o retorno em impostos e em imagem para a cidade?  São questionamentos sem respostas. Não há nenhuma avaliação ao final da temporada.

Mais da metade da população vive na informalidade, logo, esta opção pelo turismo massificado permite gerar emprego sem qualificação e de baixa remuneração para estas pessoas. É uma artimanha política pragmática que gera votos e aceitação, mas não tem um caráter duradouro. Não há um controle efetivo do número de trabalhadores autônomos. Existem escolhas por critérios políticos e não de necessidades reais para as pessoas exercerem o direito ao trabalho. Nunca houve um projeto integrado de qualificação profissional para melhorar a empregabilidade e a renda destas pessoas.

No verão todo este quadro de desorganização fica ainda mais evidente. Será que a população está feliz com tal quadro? O turista com este perfil pode até estar, mas a população não está e a mídia e as redes sociais constantemente revelam toda esta insatisfação. Alair no passado chegou a pedir ao morador para andar a pé e deixar os carros só para os visitantes, como se o verão fosse apenas para eles. O governo é eleito para governar prioritariamente para a população da cidade e ela nunca é consultada nas decisões políticas.  Participação popular na administração pública não é e nunca foi o forte “destes caras”.

Ao longo dos anos os valores gastos com shows milionários são a prova cabal desta irresponsabilidade. Foram milhões de reais gastos sem nenhuma transparência numa cidade que sempre atravessou sérios problemas na saúde, educação, transporte, saneamento e habitação popular. São escolhas feitas sob encomenda para gerar este perfil turístico e fazer a manutenção daquela velha política “pão e circo” que seduz uma parcela significativa da população, que não percebe que o benefício fugaz de uma renda extra neste período não compensa as agruras que vai passar o ano todo nestas áreas de políticas públicas essenciais citadas.

Por que não valorizar mais os artistas locais? Por que não descentralizar mais os locais para shows, abrindo possibilidades de uma variação maior de ritmos e estilos?
Por que não implantar um projeto semelhantes às lonas culturais que demandam uma estrutura bem menor e mais barata e nem por isso menos divertida?Porque não temos um calendário turístico e o aproveitamento integral de todas as potencialidades de nossas belezas naturais na criação de novas modalidades turísticas?

É preciso construir um projeto de turismo que possa diversificar as opções e também o perfil dos turistas. Abrir possibilidades a todos. Não estou sugerindo uma política segregacionista e impeditiva do turismo mais massificado, mas é preciso buscar uma conciliação também com os interesses e as necessidades dos moradores. Falta interesse público, criatividade e ação. O problema é que “eles” têm uma necessidade enorme de se mostrarem “grandes realizadores” com o ego suplantando os interesses públicos e coletivos.

(*) Claudio Leitão é economista e professor de história.