Mamoeiros

Os mamoeiros são valentes e curiosos. Da terra seca tiram sua força, extraem o alimento químico que precisam para crescer. Eu tento demovê-los da ingrata empreitada. Faço de tudo para criar, do lado de cá do muro, um ambiente excêntrico, algo que satisfaça os abelhudos verdejantes: ligo rádio a pilha, me aventuro pela perigosa arte da pirotecnia, leio em voz alta os capítulos do “Vinte mil léguas submarinas”. O mamoeiro até inclina uma de suas folhas helicópteras, porém permanece direcionando a maior parte de suas forças para o lado de lá do muro. A rua é mais atraente e movimentada.

Percebo que o que acontece na vida privada não interessa aos mamoeiros. Eles querem ver como ocorre a coisa pública. Se eu fosse um homem rancoroso, ligaria a televisão no quintal todos os dias durante o telejornal. E para alcançar meu objetivo com sucesso deveria gritar logo depois das palavras ditas pelo âncora de terno azul: “Tá vendo? Tá vendo? É isso que você vai encontrar lá fora!”

Não! Definitivamente não posso fazer isso. Afinal, nós criamos os mamoeiros para o mundo. Esse lugar onde habita uma gente sem coração, que arranca os mamõezinhos ainda verdes, sob a desculpa de fazer “doce de mamão verde”.

De minha parte sou desses que jamais moraria em uma casa que não tenha um mamoeiro no quintal. Tampouco comeria doce de mamão verde.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 25 de fevereiro de 2021.

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