IGNÁCIO

Marcos Antônio de Paula.

Dias atrás, este blog publicou um conto do Inácio de Loyola Brandão.

Ouvi falar do escritor por conta de “Não Verás País Nenhum”. quando ainda era secundarista. (Faz tempo).

Fiquei interessado e fui procurar o livro. Esqueçam a Amazon, internet e afins. Outra época. Se não encontrasse na livraria, só restava Niterói ou Rio.

Não consegui encontrar aquele livro, mas dei sorte num sebo (Cabo Frio tinha mais de um!) e voltei pra casa com “Dentes ao Sol”, meio desapontado, porque nunca tinha lido nada do autor e a boa referência que me deram era do outro, não desse. – Vai ter que servir, pensei.

Aconteceu que, por uns três meses, virei um mala, porque não tinha outro assunto que não fosse “Dentes ao Sol”. Estava fisgado pela mitologia do “seu” Ignácio.

Naquela época a sazonalidade do turismo cabo-friense era muito mais radical que hoje. De uma hora para outra a cidade, antes em polvorosa com burburinho dos turistas, transformava-se numa cidade fantasma, com direito a tufos de capim seco rolando por ruas completamente vazias, o vento de agosto uivando alto e casas e prédios quase sem vida. Renascia somente na alta temporada seguinte.

Era quase impossível a um leitor mais sugestionável não se achar na Araraquara surreal descrita pela autor. (O Livro se passa em Araraquara, SP, com uma narrativa fantástica muito própria do autor ).

Penso (acho que não apenas eu) que o impacto da leitura de um livro muda de acordo com a época em que é lido. Poderia reler (talvez o faça) o danado. Cabo Frio mudou, acabou-se a realidade-espelho, já não me impressiono tanto.

Li em seguida mais dois livros do autor, Bebel que a cidade comeu e Zero. Todos excelentes. Não Verás país nenhum ficou primeiro na indisponibilidade, depois no esquecimento.

Voltaram a falar muito do livro agora em 2019. Eu, feliz proprietário de um kindle, não tive dificuldades para achar um exemplar. (Tenho muitos elogios à tecnologia dos E-Readers, embora mantenha uma saudável desconfiança desse modelo de negócio das grandes distribuidoras de e-books.)

É desconcertante a atualidade do nosso “Não Verás…”, que parece escrito para a conjuntura que vivemos. Quem o ler desavisadamente, achará que foi escrito ontem.

Não sou dado a saudosismos. Este tempo de pandemia é que acaba por inflar um pouco mais a veia nostálgica.

Sem deixar de reconhecer o artista genial e atemporal, abraço aquele outro que me fez relembrar minha cidade que não existe mais.

Nem mesmo pintada com tintas de realismo fantástico.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

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