O NAMORO!

Tsunami

A pandemia se transformou em um tsunami, que não está perdoando ninguém, particularmente os mais pobres, com menos chances de ser proteger. O que acontece em Manaus, onde está faltando até oxigênio, pode se espalhar por todo o país fruto da incompetência genocida de Bolsonaro e sua turma.

Aulas só com a vacina

Existe um debate acirrado sobre voltar ou não as aulas presenciais em Cabo Frio: o debate é liderado pelos proprietários de escolas privadas. É preciso análise profunda e complexa para decidir pela volta às aulas. A vida é o maior bem, portanto não há ganho maior que preservá-la. Volta às aulas só com vacina.

O “namoro”

A câmara e o governo José Bonifácio estão vivendo o tal “namoro”, típico do início do governo. Há quem diga que é fruto do trabalho do secretário de governo Aquiles Barreto (PT), que foi presidente do legislativo, no período que antecedeu Luis Geraldo (Republicanos) e que tem ótima relação com o atual presidente Miguel Alencar (Democratas).

Sucessão 1

Como José Bonifácio (PDT) garantiu que não é candidato a reeleição é natural que alguns nomes comecem a aparecer como possíveis candidatos a sucessão. Alguns vão dizer que é muito cedo para levantar esse tema. Ora, quem diz isso é porque não conhece a política local: 2022 e 2024 são datas na cabeça de todos.

Sucessão 2

Dentro do governo existem nomes que podem aparecer como interessantes sob o ponto de vista eleitoral. Secretários como Aquiles Barreto, Flávio Rosa, Jefferson Vidal e Rafael Peçanha (Cidadania). No legislativo, o presidente da câmara Miguel Alencar (Democratas) e na oposição o único nome visível no horizonte é o do secretário de ciência e tecnologia do estado, Sérgio L. Azevedo (Republicanos).

Chance de melhorar a imagem

A criação de um centro tecnológico em Tamoios seria um grande avanço da civilizada reunião entre José Bonifácio e Sérgio L. Azevedo. Se não der em nada e for fruto de manobra publicitária o deputado bolsonarista terá perdido a segunda chance de melhorar a imagem junto da população.

Sucatinha

Na primeira, trouxe a encomenda errada do trágico prefeito do Rio, Marcelo Crivella (hoje em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica). Foram aqueles ventiladores estragados, devolvidos pelo prefeito Adriano Moreno (Democratas), que deram origem ao apelido de “sucatinha”.

A TERCEIRA MARGEM DO RIO

Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

(*) Guimarães Rosa (1908-1967)

TRUMP NÃO TOMARÁ CIANURETO

Boaventura de Sousa Santos

Alienado como Hitler sob cerco do Exército Vermelho, presidente não está, porém, perdido. Crê que seu futuro apenas começou, e nisso tem razão. Mas quem dará as cartas não é sua vontade – e sim três fatores, que merecem ser examinados a fundo, escreve Boaventura de Sousa Santos, doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale, professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa, em artigo publicado por Outras Palavras, 11-01-2021.

Eis o artigo.

Trump não é Hitler, os EUA não são a Alemanha nazista, nenhum exército invasor está a caminho da Casa Branca. Apesar de tudo isto, não é possível evitar uma comparação entre Trump nestes últimos dias e os últimos dias de HitlerHitler no seu bunker, Trump na Casa Branca. Os dois, tendo perdido o sentido da realidade, dão ordens que ninguém cumpre e, quando desobedecidos, declaram traições, e estas vão chegando até aos mais próximos e incondicionais: Himmler, no caso de HitlerMike Pence, no caso de Trump. Tal como Hitler se recusou a acreditar que o Exército Vermelho soviético estava a dez quilômetros do bunker, Trump recusa-se a reconhecer que perdeu as eleições. Terminam aqui as comparações. Ao contrário de HitlerTrump não vê chegado o seu fim político e muito menos recolherá ao seu quarto para, juntamente com a mulher, Melania Trump, ingerir cianureto, e ter os seus corpos incinerados, conforme testamento, no exterior do bunker, ou seja, nos jardins da Casa Branca. Por que não o faz?

No final da guerra, Hitler sentia-se isolado e profundamente desiludido com os alemães por não terem sabido estar à altura dos altos destinos que lhes reservara. Como diria Goebbels, também no bunker: “O povo alemão escolheu o seu destino e agora as suas pequenas gargantas estão sendo cortadas”. Ao contrário, Trump tem uma base social de milhões de norte-americanos e, entre os mais fiéis, grupos de supremacistas brancos armados e dispostos a seguir o líder, mesmo que a ordem seja invadir e vandalizar a sede do Congresso. E, longe de ser pessimista a respeito deles, Trump considera os seus seguidores os melhores norte-americanos e grandes patriotas, aqueles que farão a “America great again”. Hitler sabia que tinha chegado ao fim e que o seu fim político seria também o seu fim físico. Trump, longe disso, acredita que a sua luta verdadeiramente só agora começa, porque só agora será convincentemente uma luta contra o sistema.

Enquanto muitos milhões de norte-americanos querem pensar que o conflito chegou ao fim, Trump e os seus seguidores desejam mostrar que agora é que vai começar – e continuará até que a América lhes seja devolvida. Joe Biden está, pois, equivocado quando, ao ver a vandalização do Congresso, afirma que isto não é os EUA. É, sim, porque os EUA são um país que não só nasceu de um ato violento (a chacina dos índios), como foi por via da violência que todo o seu progresso ocorreu, traduzido em vitórias de que o mundo tantas vezes se orgulhou, da própria união dos Estados “Unidos” (620.000 mortos na guerra civil) até à luminosa conquista dos direitos cívicos políticos por parte da população negra (inúmeros linchamentos, assassinatos de líderes, sendo Martin Luther King. Jr. o mais destacado entre eles), como ainda é o país onde muitos dos melhores líderes políticos eleitos foram assassinados, de Abraham Lincoln a John Kennedy. E essa violência tanto dominou a vida interna como toda a sua política imperial, sobretudo depois da II Guerra Mundial. Que o digam os latino-americanos, o Vietnã, os Balcãs, o Iraque, a Líbia, os palestinos, etc.

Joe Biden também está equivocado quando diz que o pesadelo chegou ao fim e que agora se vai retomar o caminho da normalidade democrática. Pelo contrário, Trump tem razão ao pensar que tudo está a começar agora. O problema é que ele, ao contrário do que pensa, não controla o que vai começar e, por isso, os próximos anos tanto lhe podem ser favoráveis, reconduzindo-o à Casa Branca, como podem ditar o seu fim, um triste fim. Enquanto sistema político e social, os EUA estão num momento de bifurcação, um momento, próprio dos sistemas muito afastados dos pontos de equilíbrio, em que quaisquer pequenas mudanças podem produzir desproporcionadas consequências. É, pois, mais difícil ainda do que o usual prever o que se vai passar. Identifico três fatores que podem causar mudanças num ou noutro sentido: desigualdade e fragmentação, primado do direito, Stacey Abrams.

Desigualdade e fragmentação

Desde a década de 1980, a desigualdade social tem vindo a aumentar, tanto que os EUA são hoje o país mais desigual do mundo. A metade mais pobre da população tem hoje apenas 12% do rendimento nacional, enquanto o 1% mais rico tem 20% desse rendimento. Nos últimos quarenta anos o neoliberalismo ditou o empobrecimento dos trabalhadores norte-americanos e destruiu as classes médias. Num país sem serviço público de saúde e sem outras políticas sociais dignas do nome, uma em cada cinco crianças passa fome. Em 2017, um em cada dez jovens com idade entre os 18 e os 24 anos (3.5 milhões de pessoas) tinha passado nos últimos doze meses por um período sem lugar onde morar (homelessness). Endoutrinados pela ideologia do “milagre americano” das oportunidades e vivendo num sistema político fechado que não permite imaginar alternativas ao status quo, a política do ressentimento que a extrema-direita é exímia em explorar fez com que os norte-americanos vitimizados pelo sistema considerassem que a origem dos seus males estava noutros grupos ainda mais vitimizados que eles: negroslatinos ou imigrantes em geral.

Com a desigualdade social aumentou a discriminação étnico-racial. Os corpos racializados são considerados inferiores por natureza; se nos causam mal, não há que discutir com eles. Há que neutralizá- los, depositando-os em prisões ou matando-os. Os EUA têm a taxa de encarceramento mais alta do mundo (698 presos por 100.000 habitantes). Com menos de 5% da população mundial, os EUA têm 25% de população prisional. A probabilidade de jovens negros serem condenados a penas de prisão é cinco vezes superior à de jovens brancos. Nestas condições, é de surpreender que o apelo ao anti-sistema seja atrativo? Note-se que há mais de 300 milícias armadas de extrema-direita espalhadas por todo o país, um número que cresceu depois da eleição de Obama. Se nada for feito nos próximos quatro anos para alterar esta situação, Trump continuará a alimentar, e com boas razões, a sua obsessão de voltar à Casa Branca.

Primado do direito

Os EUA transformaram-se nos campeões mundiais da rule of lawe da law and order. Durante muito tempo, em nenhum país se conhecia o nome dos juízes do Supremo Tribunal, exceto nos EUA. Os tribunais norte-americanos exerciam com razoável independência o papel de zelar pelo cumprimento da Constituição. Até que certos sectores das classes dominantes entenderam que os tribunais podiam ser postos mais ativamente ao serviço dos seus interesses. Para isso, decidiram investir muito dinheiro na formação de magistrados e na eleição ou nomeação de juízes para os tribunais superiores. Esta mobilização política da justiça teve uma dimensão internacional quando, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, a CIA e o Departamento de Justiça passaram a investir fortemente na formação de magistrados e na mudança da lei processual (delação premiada) dos países sob a sua influência.

Assim surgiu a lawfare, guerra jurídica, de que a Operação Lava-Jato no Brasil é um exemplo paradigmático. Trump cometeu vários crimes federais e estaduais, entre eles, obstrução da justiçalavagem de dinheirofinanciamento ilegal de campanha eleitoral e crimes eleitorais (o mais recente dos quais foi a tentativa de alterar fraudulentamente os resultados das eleições na Geórgia em Janeiro de 2021). Funcionará o sistema penal como nos habituou no passado? Se assim for, Trump será condenado e muito provavelmente preso. Se isso acontecer, o seu fim político estará próximo. Caso contrário, Trump trabalhará a sua base, dentro ou fora do partido republicano, para regressar com estrondo em 2025.

Stacey Abrams

Esta ex-congressista negra é a grande responsável pela recente eleição dos dois senadores democratas no estado da Geórgia, uma vitória decisiva para dar a maioria do Senado aos democratas e permitir assim que Biden não seja objeto de obstrução política permanente. Qual é o segredo desta mulher? Ao longo de dez anos procurou articular politicamente todas as minorias pobres da Geórgia – negraslatinas e asiáticas – um estado onde 57.8% da população é branca, um estado tido por racista e surpremacista, onde tradicionalmente ganham os conservadores. Durante anos, Abrams criou organizações para promover o registo eleitoral das minorias pobres alienadas pelo fatalismo de ver ganhar sempre os mesmos opressores. Orientou o trabalho de base para incentivar a união entre os diferentes grupos sociais empobrecidos, tantas vezes separados pelos preconceitos étnico-raciais que alimentam o poder das classes dominantes.

Ao fim de dez anos, e depois de uma carreira notável que podia ter atingido o auge com a nomeação para vice-presidente de Biden – no que foi preterida em favor de Kamala Harris, mais conservadora e próxima dos interesses das grandes empresas de informação e de comunicação de Silicon Valley – Abrams consegue uma vitória que pode liquidar a ambição de Trump de regressar ao poder. No mesmo dia em que os vândalos partiam vidros e saqueavam o Capitólio, festejava-se na Geórgia este feito notável, uma demonstração pujante de que o trabalho político que pode garantir a sobrevivência das democracias liberais nestes tempos difíceis não pode estar limitado a votar de quatro em quatro anos, e nem sequer ao trabalho nas comissões parlamentares por parte dos eleitos. Exige trabalho de base nos locais inóspitos e muitas vezes perigosos onde vivem as populações empobrecidas, ofendidas e humilhadas que, quase sempre com boas razões, perderam o interesse e a esperança na democracia. O trabalho de Stacey Abrams, multiplicado pelos movimentos Black Lives MatterBlack Voters Matter e tanto e tantos outros, muitos deles inspirados por Bernie Sanders e a “nossa revolução” por ele animada, podem vir a devolver à democracia norte-americana a dignidade e a vitalidade que Trump pôs em risco. Se assim for, a melhor lição que os norte-americanos podem aprender é que o mito do “excepcionalismo americano” é isso mesmo, um mito.

Os EUA são um país tão vulnerável como qualquer outro a aventuras autoritárias. A sua democracia é tão frágil quanto frágeis forem os mecanismos que podem impedir autocratas, antidemocratas de serem eleitos democraticamente. A diferença entre eles e os ditadores é que, enquanto estes últimos começam por destruir a democracia para chegar ao poder, os primeiros usam a democracia para ser eleitos, mas depois recusam-se a governar democraticamente e abandonar democraticamente o poder. Da perspectiva da cidadania, a diferença não é muito grande.

DESAFOGO FINANCEIRO

A câmara aprovou por unanimidade a criação do Fundo Municipal de Liquidação de Restos a Pagar (FMLRP). O projeto foi enviado pelo prefeito José Bonifácio tem como objetivo a redução e controle da dívida pública, com a liquidação de restos a pagar municipais de ações próprias, condenações judiciais já inscritas em precatórios, ou da não transferência de recursos voluntários do Estado.

O Fundo será constituído por 30 % da dívida ativa proveniente de impostos de competência municipal; 30% do repasse obrigatório da dívida ativa de impostos estaduais; dotações orçamentárias do município e recursos adicionais que a lei estabelecer no transcorrer de cada exercício; saldos apurados no exercício anterior; dentre outras.

UM DIA INTEIRO PARA TODOS NÓS

Sei que são oito e meia da manhã porque a mulher sobe a rua voltando para casa com o seu cachorro. Não é a mesma mulher, tampouco o mesmo cachorro já que ninguém sobe a mesma rua duas vezes. É outra. Mas como saber o que nela se transformou no misterioso intervalo de um dia inteiro?

Um dia inteiro! Esse é o maior intervalo de tempo que podemos sentir na pele. Do nascer ao morrer; da graça à desgraça; do prazer ao sofrer; de uma ideia a uma ação; de um sol a uma lua. Muito se cabe no movimento de um dia que atravessa as coisas.

Um dia é pouco apenas para quem não consegue ou não quer enxergar as mudanças. Ou, e esse é o caso mais extremo, talvez patológico, para quem se nega a mudar.

Não que a virada de ano tenha lançado um mágico pó de pirlimpimpim sobre o mundo. E sim porque hoje é um dia novo. Ora, também com problemas novos a espera de soluções novas.

Cada dia é a nossa oportunidade. Sem dúvida o mundo todo não será consertado num girar de chave de fenda. Em meio ao caos é preciso escolher um canto e começar. E se não houver canto, que se escolha um ponto. O importante é começar e seguir sem se deter diante dos saudosistas que dirão “Antes era melhor”.

Agora, o cachorro da mulher late desvairado para o gato que se arrepia e sobe na árvore. Está excitado e não obedece as ordens da sua dona. Outros cachorros latem na vizinhança. Vem gente ver o que acontece. Começa uma conversa com distanciamento. As pessoas se conhecem. Uns reclamam do gato. Outros dão palpite.

E muita coisa acontece no misterioso intervalo de um dia inteiro.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 14 de janeiro de 2021

AS ESTRELAS

A Equipe

O ex-vereador e atual secretário adjunto de ciência e tecnologia Rafael Peçanha está formando uma equipe de primeira qualidade. Esta semana foram incorporados ao grupo o editor da revista cultural ‘Nossa Tribo’, José Correia Baptista e o professor Guilherme Guaral.

Influência política

Aquiles Barreto, Jefferson Vidal e o ex-deputado Janio Mendes têm sido apontados como os três nomes de grande influência no governo José Bonifácio. São políticos com visão de mundo tradicional, embora os discursos do prefeito têm buscado um tom mais progressista no campo dos temas transversais.

Os temas transversais

Os temas transversais tendem a crescer nos próximos anos, embora enfrentem a reação da extrema direita bolsonarista, expressa nas bancadas da bíblia e da bala. Em Cabo Frio, o prefeito desde a apresentação do secretariado, vem dando demonstrações, que as questões étnicas e de gênero serão preocupações do seu governo.

A Formatação

Por outro lado nomes como o do tabelião surfista Flávio Rosa (Tiziu) e do professor Rafael Peçanha abraçam visões mais contemporâneas. Os quatro, Aquiles, Janio, Flávio e Rafael, refletem a formatação política e ideológica do governo municipal. Como isso vai se desenvolver? A resposta terá que ser encontrada na liderança do prefeito.

As Estrelas

O prefeito José Bonifácio espalha pelo governo suas “estrelas” locais e regionais, dando-lhes espaço político e administrativo. O resultado da participação dessas lideranças vai se refletir nas eleições de 2022 e 2024 e do apoio que esperam ter das estruturas do poder.

A Abertura

A série de ações do governo municipal tem tido boa repercussão no meio da população, particularmente a abertura dos portões do Correão. A prefeitura atendeu antiga reivindicação dos moradores de São Cristovão, permitindo o livre acesso de três ruas do bairro a Avenida Joaquim Nogueira.

Esclarecimentos

Muita confusão na mídia a respeito dos salários dos servidores públicos, que ainda não foram colocados em dia pela prefeitura. Está na hora de José Bonifácio abrir uma coletiva de imprensa, prestando esclarecimentos à população, caso contrário vai ampliar um desgaste desnecessário.

O Namoro

O namoro entre os governantes e a população antes do desenvolvimento das redes sociais durava em torno de seis meses. Hoje a informação e a desinformação andam muito rápido, quase a “velocidade da luz”. A prefeitura terá que se adaptar a essa realidade para não perder a boa relação com a sociedade.

NOSSA GENTE

José Correia Baptista

1 – O que me atrai vivamente em Servidores illustres do Brasil” de Visconde de Taunay (minha edição é da Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1930) – escritor que admiro e que li muitos de seus livros – é o traço biográfico que Taunay faz de João Baptista Marques da Cruz (1843-1868), filho de São Pedro da Aldeia, de família que tem história política em Cabo Frio no século XIX (em meu livro “O primeiro romancista brasileiro recebe uma mensagem secreta para comunicar a D. Pedro II”, que acabo de lançar pela “Amazon/Record”, promovo um encontro entre Teixeira e Sousa e Joaquim Marques da Cruz, presidente da Câmara de Cabo Frio em 1847 – talvez pai, talvez tio de João Baptista -, que ajudaria nosso escritor a falar com D. Pedro II na saída da Igreja Matriz). Em “Servidores”, a apreciação de Taunay dedicada ao jovem Marques da Cruz é bem mais desenvolvida que aquela dedicada ao aldeense em suas “Memórias”. Taunay se refere a João Baptista Marques da Cruz – que tem adicionalmente a preciosidade de sua foto publicada no livro – como “meu precioso e inesquecível amigo, inseparável companheiro dos aureos tempos da mocidade e sempre, sempre, pranteado camarada!”

João Baptista Marques da Cruz morreu no dia 6 de julho de 1868 em Mato Grosso na Guerra do Paraguai como capitão de Artilharia com pouco mais de 25 anos de idade, “quando uma bala raza de 68 lhe tocou no hombro e, sem signal de maior estrago, o atirou morto a duas braças da banqueta em que se achava.” Taunay afirma que houve consternação em todo o Exército, lágrimas e desespero. Marques da Cruz tinha espírito calmo e investigador, distinguia-se em Matemática e interessava-se por Filosofia. Taunay diz que Marques da Cruz havia previsto que não demoraria muito neste mundo. Mas o mais importante neste capítulo de Servidores illustres” de Taunay é publicar trechos que anotou do que seria um grosso volume de um livro que Marques da Cruz preparava sob o título “Notas e pensamentos” e que se perdeu. Destaco este pensamento de Marques da Cruz: “Quanto é bom ter-se fé e crença! Confiar em Deus é simplificar a vida. Dispensa-se assim um mundo de dúvidas, perplexidades e mistérios eternos, impenetráveis, torturantes…” João Baptista Marques da Cruz é gente nossa.

2 – Volta e meia leio e releio o rabugento crítico literário Agripino Grieco (1888-1973). Ele mesmo admitia seu mau humor. No livro “Evolução da prosa brasileira” (minha edição é da Editora José Olympio, 1947), Agripino Grieco defende a tese de que a cidade das letras estava permanentemente ligada ao subúrbio das letras. Ele se interessava não só pelos grandes nomes mas também pelos – como ele afirmava -, os clássicos da banalidade nacional. Agripino Grieco gasta tinta, por exemplo, com Valentim Magalhães, autor no romance “Flor de sangue”, para registrar a mais célebre errata da história da literatura brasileira: “… à página 285, 4ª linha, em vez de – estourar os miolos – leia-se – cortar o pescoço.”

O crítico literário João Ribeiro (1860-1934) dizia que Agripino Grieco só não falava mal de Deus porque não O conhecia. E que Agripino Grieco só poupava aqueles que poderiam ajudá-lo a ir para o inferno. “É devoto e temente a Deus por precaução”, disse João Ribeiro, que mesmo em sua natureza admirativa (uma caracterização que João Ribeiro aceitava, mas que era uma resposta a um tipo de crítica de Grieco a ele), reprovava Agripino Grieco por defender que havia uma evolução na prosa brasileira. Para João Ribeiro – com quem concordo -, ao contrário de evolução, a nossa prosa caminha aos saltos e mutações.

O artigo de Agripino Grieco sobre João Ribeiro em seu livro “Carcassas gloriosas” (minha edição é da Livraria H. Antunes, s/d), é uma retratação e um reconhecimento a este grande brasileiro que foi João Ribeiro. Agripino Grieco constrói seu texto depois de acompanhar o sepultamento de João Ribeiro no São João Batista. Agripino Grieco constata que, entre tantos literatos mortos-vivos seguindo o féretro no cemitério de Botafogo, era João Ribeiro quem se mantinha vivo pelo frescor do pensamento. O mestre Agripino Grieco foi justo na avaliação da atualidade do pensamento e das intervenções dessa figuraça que foi o grande João Ribeiro.

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF. Foi secretário de Cultura de Cabo Frio. (2009/2012).