TRAINEIRA EM MAR REVOLTO

Em crise permanente nos mandatos dos três últimos prefeitos a cidade elegeu um velho conhecido, que dirigiu Cabo Frio por duas vezes, totalizando dez anos de exercício como prefeito.

Por uma conjunção de fatores como a pandemia, a retração da arrecadação fiscal e a redução drástica do valor dos royalties do petróleo, os eleitores optaram pelo único nome que consideraram qualificado para enfrentamento da crise.

A alternativa era o candidato de extrema direita, que escolheu colar no bolsonarismo, amplamente vitorioso no município nas eleições de 2018.

A opção se revelou um fracasso. O resultado eleitoral mostrou que a população estava interessada em eleger alguém capaz de encaminhar a resolução dos graves problemas municipais e não debater questões políticas e ideológicas em nível nacional.

A profunda crise, que se arrasta há anos acabou por ser o motor de uma grande aliança, que derrotou a extrema direita e chega ao poder amanhã, em 1º de janeiro.

O Blog deseja sorte, afinal direta ou indiretamente, estamos todos nessa traineira, que navega em mar revolto.

CAUSOU ESPANTO

Causou espanto

Ver o “Canal da Praia”, que foca na chamada “Orla do Malibu”, entre a Avenida Nilo Peçanha e a 13 de Novembro assustou: a orla ocupada por milhares de cabeças, sem qualquer distanciamento social e provavelmente sem máscara. A cidade não tem infra-estrutura de saúde para atender os seus, imagine essa imensa quantidade de turistas.

Ciclovia: Búzios/Jardim Esperança

Entre tantas demandas represadas a construção de uma ciclovia entre Búzios e o Jardim Esperança é uma necessidade premente: são muitos os trabalhadores que transitam de bicicleta entre Búzios e o bairro cabofriense do Jardim Esperança. A ciclovia, bem sinalizada daria segurança e salvaria muitas vidas.

Aporrinhando Adriano

A Família Bento insiste em aporrinhar o juízo do quase ex-prefeito Adriano Moreno (Democratas). Incrível é que participou do governo ao que parece, na subsecretária de promoção social do governo, que finda amanhã, 31. Os Bento hoje habitam o PTB do ínclito mensaleiro Roberto Jefferson. Pensar que o ex-prefeito Alair Corrêa poderia estar com a razão ao definir o patriarca Silas.

O MONSTRENGO

O Monstrengo 1

Os cabofrienses esperam que o prefeito José Bonifácio e sua equipe redesenhem a histórica Praça Porto Rocha, tornando-a bucólica, com mais árvores e piso que não seja o paraíso dos ortopedistas, que piora ainda mais em dias de chuva. Um ambiente agradável, que permita ao menos as pessoas sentar a sombra.

O Monstrengo 2

A obra pode ser feita aos poucos, pela própria prefeitura (secretaria de obras e serviços públicos) ou Comsercaf. Não precisa custar milhões como a última reforma feita no governo Marquinhos Mendes, que pariu esse monstrengo detestado pelos cabofrienses.

A ÉPOCA DO PROFESSOR DO LAR

 José Correia Baptista

No ano de 1929, as “Officinas Graphicas do O Arauto”, de propriedade do jornalista e escritor paraibano Pedro Guedes Alcoforado – cujo endereço ficava na Rua Major Bellegard número 46 -, publicavam o livro “O Professor do Lar” de Samuel Sanchez. Com 96 páginas, impresso em papel jornal, “O Professor do Lar” trazia “receitas industriaes, culinarias, pharmaceuticas, veterinárias, chimicas e outras muitas informações de imprescindível necessidade para os lares”. Um livro importante, não por suas intenções literárias, mas por nos dar um perfil das necessidades da vida cotidiana de Cabo Frio nessa época. A maioria das 151 receitas envolve a manipulação de ácido azótico, clorídico, carbonato de potássio, óxido de zinco, ácido lactico, enxofre pulverizado, ácido bórico, ácido nítrico, sulfato de zinco, sulfato de ferro, nitrato de prata, borato de sódio, etc.

Pelo livro, somos levados a acreditar que os conhecimentos do dia a dia do leitor cabo-friense de 1929 permitiam-lhe pegar “O Professor do Lar” e em sua própria casa misturar 10 gramas de borato de sódio, com 10 gramas de amido, 5 gramas de ácido salicílico, 5 gramas de sulfato de alumínio, 6 gramas de naptol e 30 gotas de essência de rosa, e, pronto, obter o remédio “Para evitar o suor dos pés e das mãos”.

Nas primeiras décadas do século XX, o verde predominava no centro de Cabo Frio. As firmas comerciais dividiam o espaço urbano com as casas residenciais, que possuíam quintais onde criavam animais domésticos. Para exemplificar, vamos ler uma nota curiosa saída no semanário cabo-friense “O Itajuru” de 23 de junho de 1901, sob o título “Peru Fugidio”. O sr. Adolpho Beranger publicava no jornal um aviso em que dizia ter aparecido em sua casa um peru. O sr. Adolpho queria entregá-lo mas nas seguintes condições: que seu dono declarasse a cor, a data do desaparecimento do peru e que pagasse a despesa do aviso publicado em “O Itajuru”. No jornal seguinte, de 30 de junho, o sr. Adolpho Beranger republicava o aviso, mas acrescentava que, como não havia aparecido o dono do peru, ele o entregara ao festeiro do Espírito Santo, “como dádiva de anonymo, para ser posto em leilão”.

Em “O Professor do Lar”, lançado vinte e oito anos depois do acontecimento publicado em “O Itajuru”, é curioso notar que os animais são temas de preocupação do livro, notadamente os cavalos pela importância que possuíam na época como meio de transporte. Eles merecem uma atenção especial de Samuel Sanchez que apresenta receitas para curar tosse, para eliminar os carrapatos, o modo de lhes dar purgantes, como tonificar os cavalos aguados (um processo inflamatório que atinge a região do casco), o que fazer para curar suas cólicas e como tratar das pisaduras (assadura ou ferida que pode dar no lombo do animal por uma cela de má qualidade ou com alguma sujeira). Há também manipulações contra percevejos, moscas e ratos. A conservação de alimentos é outro assunto importante no livro. A desinfecção de quartos de doentes também merece a atenção do autor, que leva em conta a incidência da tuberculose.

Estes e outros temas então rotineiros da vida cotidiana é que motivaram Samuel Sanchez a escrever “O Professor do Lar” a fim de socorrer os cabo-frienses. Um livro que tanto nos ajuda a compreender um tempo, como ainda pode nos oferecer muitos ensinamentos.

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF. Foi secretário de Cultura de Cabo Frio. (2009/2012).

A LINGUAGEM!

A Linguagem

A revisão do Plano Diretor será a prioridade para Dhanyelle Garcia, futura secretária de planejamento da prefeitura de Cabo Frio. Novata, a secretária esqueceu que nem todo mundo é engenheiro, arquiteto ou urbanista, usando uma linguagem pouco acessível. Como está ocupando um cargo público tem que falar uma linguagem, que ao menos boa parte da população entenda.

Linguagem popular

Taí uma tarefa urgente da nova secretaria de comunicação social, pilotada pelo jovem Marcos Azevedo: fazer uma reunião com todo o 1º e 2º escalão e também no 3º, pode ser por etapas, e orientá-los no sentido de falar uma língua adequada ao entendimento da chamada opinião pública. Ajudaria muito o futuro prefeito.

A delegação popular

Afinal, mesmo que de forma indireta, porque são de nomeação do prefeito, é essa figura magnânima e muito esquecida chamada “povo”, que os colocou nos cargos bem remunerados que ocupam. Não estão na iniciativa privada, mas em órgão público por delegação popular.

Filho feio não tem pai

A “nova” Praça Porto Rocha reformada no estertor de um dos governos de Marquinhos Mendes foi transformada em praça cheia de lápides e pouquíssimas árvores. Piso escorregadio e bancos que servem pra deitar, nunca pra sentar. Verdadeiro cemitério a céu aberto. Segundo o velho ditado popular: “filho feio não tem pai”. Ninguém, até hoje, assumiu a autoria do projeto.

A Cartola!

Um conhecido observador da política cabofriense espantado com a abrangência do secretariado e do 1º escalão escolhido pelo prefeito eleito disse: “A cartola de José Bonifácio é muito funda”. O mesmo reverberam as paredes murmurantes do histórico prédio da câmara e do trepidante Palácio Tiradentes.

Algodão entre cristais

O ex-deputado Janio Mendes é conhecido por sua grande capacidade de negociação política. Apesar de não pertencer formalmente ao governo de José Bonifácio é uma das figuras mais importantes do atual quadro político de Cabo Frio. Vai atuar como uma espécie de desbravador de contatos, o que já está fazendo. Quem sabe um “algodão entre cristais”.

Legado desastroso

O que fazer com o legado desastroso do governo de Adriano Moreno/Antônio Carlos Vieira (Cati)? Taí uma indagação, que deve estar moendo os miolos da nova administração: como pagar? Como colocar as contas em ordem? Afinal, a prefeitura não é igual à iniciativa privada em quem você pode dizer “não fui eu que fiz” ou “a dívida não é minha” e assim por diante.

Ampla aliança

O prefeito eleito fez uma aliança tão extensa, que resta pouca coisa da oposição em Cabo Frio. Se essa ampla maioria se expressar sob a forma de apoio irrestrito e sólido ao dia-a-dia do governo, José Bonifácio vai ter margem de manobra suficiente para enfrentar o primeiro ano, que deve ser bastante complicado: pandemia + crise econômico-financeira.

Emagrecimento eleitoral 1

O resultado das urnas, em 15 de novembro, não foi nada bom para os chamados partidos de esquerda, em Cabo Frio. Juntos, a recém nascida UP (Unidade Popular) e o PSOL, lançaram candidatos próprios e não conseguiram atingir 1% dos eleitores. O PSOL, em 2012 teve 5.300 votos e oito anos depois, em 2020 conseguiu atingir apenas 562.

Emagrecimento eleitoral 2

É preciso uma análise profunda e democrática do que ocorreu durante esse processo para explicar esse “emagrecimento” eleitoral. Afinal, em 2012, 2016 e 2020 o PSOL apresentou nos dois primeiros pleitos, Cláudio Leitão e em 2020, o professor Roberto Valentim da Costa Póvoas, o professor Betinho. Ambos queridos e respeitados. O que aconteceu? O discurso envelheceu? A estratégia foi incorreta? São questões a serem debatidas e respondidas.

QUANDO CHEGAR

Ana Cristina César

Quando eu morrer,

Anjos meus,

Fazei-me desaparecer, sumir, evaporar

Desta terra louca

Permiti que eu seja mais um desaparecido

Da lista de mortos de algum campo de batalha

Para que eu não fique exposto

Em algum necrotério branco

Para que não me cortem o ventre

Com propósitos autopsianos

Para que não jaza num caixão frio

Coberto de flores mornas

Para que não sinta mais os afagos

Desta gente tão longe

Para que não ouça reboando eternos

Os ecos de teu soluço

Para que perca-se no éter

O lixo desta memória

Para que apaguem-se bruscos

As marcas do meu sofrer

Para que a morte só seja

Um descanso calmo e doce

Um calmo e doce descanso.

QUARTETOS

Desdenho os teus passos

Retórica triste:

Sorrio na alma

De ti nada existe

Eu morro e remorro

Na vida que passa

Eu ouço teus passos

Compasso infernal

Nasci para a vida

De morte vivi

mas tudo se acasa

silêncio. Morri

DESEMPREGO & SANEAMENTO DAS FINANÇAS

Saneamento das finanças

O desemprego elevado em Cabo Frio tem sido a fonte de grande pressão, que o prefeito eleito e sua equipe vêm sofrendo e enfrentando. Em época de crise profunda o setor público tem sido o maior empregador: em Cabo Frio é quase uma regra. Como sanear as finanças públicas?

A Família Bento

Bater em quem está caído e saindo do poder é fácil e bastante cômodo para quem quer aparecer e crescer politicamente. O vereador eleito Vanderson Bento, do PTB de Roberto Jefferson, entrou com ação popular contra o prefeito Adriano Moreno em função da licença, que foi concedida a ele e a esposa.

Sobrevivendo

A Família Bento, apesar de certos percalços na justiça bastante conhecidos pelo meio político e sociedade em geral, não desiste. A eleição de Vanderson representa um meio da família, que em áureos tempos, imaginou sentar na principal cadeira do Palácio Tiradentes, sobreviver na vida pública cabofriense.

O Fracasso da Dupla

Boa parte do fracasso do governo de Adriano Moreno se deve a sua incapacidade política de gerir o sistema público municipal. Ao lado do seu “1º Ministro”, Antônio Carlos Vieira, conhecido por Cati, companheiro da “República do Edifício das Professoras”, perdeu toda a sua base política e eleitoral e terminou seu governo melancolicamente.

O esvaziamento político 1

Como todo poderoso, Antônio Carlos Vieira, o Cati, sentou na cadeira da secretaria de fazenda e trabalhou para esvaziar politicamente a secretaria de governo e as lideranças, que levaram Adriano Moreno a cadeira de prefeito.

O esvaziamento político 2

Depois de certo tempo, premido pelo insucesso, foi substituído pelo professor Clésio Guimarães e blindado como assessor especial de gabinete do prefeito, seu aliado político. O resultado da empreitada pode ser avaliado pelas notícias trazidas pelas urnas, em 15 de novembro.

Justificada revolta

As repetidas cenas da justificada revolta dos trabalhadores da saúde, sem salários e sem o respeito do governo, são um imenso desafio do novo prefeito de Cabo Frio. Assumir 1º de janeiro, em pleno recrudescimento da pandemia, na chamada 2ª onda, uma prefeitura em crise, não será fácil.