DRAMAS DA URBS

Dramas de uma cidade grande enraizados em uma localidade, que caminha rapidamente para se tornar uma cidade de porte médio: essa é a realidade de Cabo Frio.

Não há necessidade de enumerar, mas Cabo Frio chamada “Capital da Região dos Lagos” acumula quase todas as mazelas de uma grande ‘urbs’ e nenhuma das vantagens que ela proporciona.

Como remodelar Cabo Frio e torná-la mais justa, equilibrada e com patamares mais altos de qualidade de vida? Como realizar essa transição numa época de crise econômico-financeira profunda e em plena pandemia?

Quais são as políticas públicas prioritárias a serem implementadas? Quais prometem resultados mais rápidos e as que exigem maturação para que seus efeitos possam se espargir por toda a sociedade?

Como escolher as prioridades? Quais os fóruns a serem consultados onde os debates devem fluir? Apenas os formais ou a situação exige o engajamento de outros atores, setores e referências?

São perguntas que buscam respostas para o 3º decênio do século XXI.

O futuro de Cabo Frio depende dos caminhos a serem traçados agora.

AGORA NÃO?

Agora não?

O presidente da câmara, Luis Geraldo tem dito aos amigos, que cansou e precisa de um descanso na presidência. Considerado o grande articulador político do legislativo municipal, Luis Geraldo deve assumir mais uma vez a presidência nos dois últimos anos do mandato (2023/24).

As relações políticas

Segundo as paredes murmurantes da câmara Luis Geraldo seria o melhor nome para manter uma relação tranqüila do novo prefeito José Bonifácio com o legislativo. O vereador tem livre trânsito no legislativo e poderia ser o líder do governo. Está no 5º mandato, tem relações profundas com amplos setores da sociedade cabofriense, especialmente os mais tradicionais.

A articulação política do governo

A pergunta que muita gente faz é a seguinte: quem vai ocupar a coordenação política na prefeitura de José Bonifácio? Aquiles Barreto, Janio Mendes, Jefferson Vidal, Luis Geraldo, Miguel Alencar , Rafael Peçanha? Pode não ser nenhum deles e a articulação política ficar centralizada no próprio prefeito. Não é bom, mas pode ser a saída.

Polarização

Vários nomes têm surgido na área de educação e existem grupos formados nas redes sociais, apoiando esse ou aquele candidato (a). A polarização não é um bom negócio, porque o prefeito pode optar por um nome sem comprometimento com grupos políticos.

Educação: nome no bolso do paletó.

A disputa não é saudável, embora perfeitamente democrática, porque a realidade do município, em amplos setores, é tão tenebrosa, que exige a união de todos. Há quem diga que o prefeito vai “tirar um nome do bolso do paletó”, de sua escolha pessoal e não de grupos específicos.

Saúde & Educação

O prefeito eleito tem dito em todos os lugares que vai que dois setores são fundamentais no seu governo dos quais ele não abre mão: educação e saúde. Quem conhece o prefeito diz que os secretários (as) dessas pastas serão pessoas de sua absoluta confiança de quem ele poderá cobrar diariamente.

Cultura: Fernando, Meri e Milton

O governo Adriano Moreno começou, na área da cultura, com Fernando Chagas, que ficou apenas um mês e migrou para Minas Gerais. A subsecretária Meri Damaceno assumiu o cargo e mais tarde foi exonerada pelo prefeito numa articulação política que acabou por recolocar no cargo o cineasta Milton Alencar Júnior.

Ocupa Charitas

A manobra política nunca foi explicada, ao menos publicamente, pelo prefeito Adriano Moreno. Gerou a resistência de boa parte da área de cultura, explicitada pelo “Ocupa Charitas”. Os artistas que ocupavam o prédio do Charitas foram desalojados por ordem judicial.

Os “cardeais” influenciam

Para quem gosta de análise política é importante ficar de olho em alguns ‘cardeais’ do grupo do prefeito eleito. Pessoalmente, poderão até não ocupar qualquer cargo no governo, mas terão grande influência na nomeação de secretarias importantes e também no 2º escalão.

E a Comsercaf?

O que o novo governo vai fazer com a Comsercaf? A autarquia é poderosa, pode resolver muita coisa, mas também gera muitos problemas. Basta ver na prefeitura de Marquinhos Mendes a intervenção da Polícia Federal e os seus desdobramentos políticos, no mínimo, pouco interessantes para o município.

“O Brasil se formou com o mito da natureza inesgotável’, afirma José Augusto Pádua

Professor da UFRJ diz que país ainda vê a Amazônia como os colonizadores viam a Mata Atlântica.

José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio (UFRJ) e coordenador do Laboratório de História e Natureza, vê os dados recentes de alta no desmatamento da Amazônia e conta que se sente muito frustrado. Não só pela perda da vegetação, mas pela sensação de que o país volta 50 anos no tempo. Para ele há grupos que enxergam a Amazônia como os colonizadores viam a Mata Atlântica, só que 500 anos depois. Autor do livro Um sopro de destruição, pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888), Pádua aborda como o país historicamente lidou com suas florestas – e quais foram os erros e acertos. Veja abaixo sua entrevista.

Na derrubada de quase toda a Mata Atlântica, o país alternou ciclos agrícolas, industriais e expansão das cidades. A partir dos anos 1970, começa a ocupação da Amazônia, que perdeu 20% da área original. Como os momentos se relacionam?

Quando se torna propriamente país, em 1822, o Brasil começa com território muito grande, mas população relativamente pequena. Tínhamos 1,3 milhão de quilômetros quadrados de Mata Atlântica, uns 4 milhões de quilômetros quadrados de Amazônia e, entre as duas, diferentes tipo de savana (especialmente 2 milhões de quilômetros quadrados de Cerrado). A população era de 4,5 milhões. A sociedade brasileira se formou com a sensação de natureza ilimitada, mito da natureza inesgotável. Para a população fragmentada em manchas regionais, olhando grandes massas florestais, pareciam oceanos verdes sem fim.

O que os 12% remanescentes da Mata Atlântica hoje dizem sobre esse pensamento?

Uma ilusão. A Mata Atlântica, onde se concentravam atividades socioeconômicas, em alguns séculos, principalmente no 20, foi quase toda destruída. Grandes áreas de vegetaçãonativa cobriam o território.Tudo se fazia desflorestando. A energia vinha da lenha, as construções usavam madeira. Mesmo assim, população e economia eram tão pequenas, que noinício do século 20, estima-se até então perda de 5% a 10% da Mata Atlântica. Ao longo do século 20, a população pula para 170 milhões. Acontece industrialização, se abrem ferrovias, depois rodovias. Se usa muita madeira para gerar energia, aumentar cidades. No século 20 ocorre a grande destruição da Mata Atlântica, detonada nas décadas de 1930, 40, 50, 60. E continuou em 1970, 80.

Foi nessa época que o foco mudou para a Amazônia?

Só que é quando começa a haver mudança global na visão sobre florestas tropicais. De ameaçadoras, passam a ser vistas como ameaçadas.

A destruição da Mata Atlântica não serviu de lição?

Nas décadas de 1930, 40, 50, 60, praticamente não havia organizações ambientalistas, tinha meia dúzia de cientistas mais preocupados. Na imprensa, eventualmente saía algo, maspouco. Nos governos, não havia órgãos ambientais. Mas quando se chega na Amazônia, o mundo começava a mudar e a preocupação ambiental passa a crescer. As Nações Unidas fazem a primeira conferência ambiental em 1972. E imagens de devastação das florestas, queimadas, poluição, começam a circular com rapidez. A Mata Atlântica já estava nos últimos remanescentes. Na Amazônia, a nova mentalidade sobre importância ecológica, econômica e social da floresta em pé começa a se manifestar no momento em que está no início da exploração mais intensa. Já tem reação de cientistas, ambientalistas, populações locais.

Mas mesmo isso não foi capaz de evitar que fosse desmatada.

Podemos diferenciar – desde a Mata Atlântica até a Amazônia –, atores econômicos e sociais imediatistas, que veem a floresta só como ganho de curto de prazo, e os que veem a floresta seja em na importância sistêmica, como patrimônio – em termos de beleza, importância científica –, seja de forma utilitária, mas muito mais ampla. Fundamental para a saúde climática, o futuro da biotecnologia, de setores sofisticados da economia. Ao contrário da Mata Atlântica, em que o desmatamento foi junto com o crescimento de economia e sociedade, na Amazônia não foi espontâneo. Foi um projeto geopolítico de ocupação. Na década de 1970, cerca de 13% da população morava lá, com pouca ocupação “moderna”. O regime militar vê um grande vazio social. Não havia necessidade econômica imediata da Amazônia para o Brasil. O importante era levar atividades econômicas e gente, independentemente da qualidade social e ambiental. A perspectiva era repetir na Amazônia o mesmo da Mata Atlântica. Mas já havia consciência crítica internacional e nacional, na ciência e na opinião pública. Havia um projeto geopolítico, mas que descambou no descontrole. Imaginaram que seria possível ocupação organizada, mas depois que solta o demônio do desmatamento, a coisa vai por si. Conflitos imensos entre população local e atores que vinham de fora. Serra Pelada é a imagem do caos. As lutas de povos da floresta, indígenas, seringueiros, foram importantes. Todo o impacto, por exemplo, pelo assassinato do (líder seringueiro) Chico Mendes.

A pressão externa tem sido forte em reação à alta de desmate e queimadas. Isso ocorreu em outros momentos. Quanto acha que isso pesou no passado para mudar ações governamentais?

A pressão externa foi importante, mas a ciência, a opinião pública e o ambientalismo nacionais também tiveram peso importante. E começaram a surgir novas possibilidades tecnológicas, com satélites. O programa Nossa Natureza, criado pelo (ex-presidente José) Sarney, está diretamente ligado ao contexto que levou ao assassinato de Chico Mendes. E o mais importante do programa foi lançar o Prodes (sistema que aponta o desmatamento oficial da Amazônia) em 1988, que transformou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ligado ao Ministério da Ciência) no mais importante centro de detecção de desmatamento do planeta. É doloroso ver atritos do atual governo com apreciosidade tecnológica que temos nas mãos.

Mas antes mesmo do governo atual, o desmate já tinha voltado a subir a partir de 2013, como o ministro (do Meio Ambiente) Ricardo Salles sempre lembra.

É uma meia verdade. Depois de baixar dos 5 mil quilômetros quadrados em 2014, o desmatamento flutuava próximo de 7 mil. Mas não houve desmantelamento da política de contenção. Não pulou para 10 mil quilômetros quadrados, como no ano passado com (Jair) Bolsonaro. Só que os atores locais da devastação estãocomeçando a se chocar com uma economia mais poderosa, os grandes fundos de investimento e grandes empresas, o setor mais moderno da economia, do próprio agronegócio, que vê no descontrole uma roubada. O imediatismo não leva a nada. O que o garimpo produz em termos de real progresso para a região?

Ao receber críticas externas, sobretudo da Europa, o governo costuma dizer que eles destruíram tudo no passado e não teriam direito de nos cobrar agora. Faz sentido historicamente?

É importante entender especificidades de cada momento e a geografia de cada lugar. Não é todo país que tem como ponto de partida um território tão florestado. E o que ocorreu em vários países da Europa e nos EUA foi semelhante ao que ocorreu na MataAtlântica. Não é que o Brasil preservou todas as florestas. Preservou a Amazônia, ou pelo menos ela ainda é muito grande, porque população e economia estavam concentradas na Mata Atlântica. Grandes potências destruíam florestas na Ásia, África América Central. Brasil, e mesmo Portugal, estavam concentrados na Mata Atlântica. A Amazônia, de difícil acesso, ficou nesse limbo de devastação. Há vários países com mais cobertura florestal no território. Suécia tem 69% do território coberto, assim como o Japão. O Brasil tem cerca de 56%, mas isso por causa da Amazônia. Mesmo a Alemanha tem 32%, a França, 29%, os EUA, 33%. Países que fizeram revoluções industriais e desflorestaram muito, depois recuperaram, reflorestaram, reconheceram a importância das florestas. A ideia de que destruíram lá atrás é verdade, assim como destruímos, mas muitos trabalham para restaurar e cuidar de suas florestas.

O canto escuro da parede

Por força da nova arrumação da sala, fui jogado de volta para frente da janela. No entanto, no primeiro dia, me senti amuado. Eu já estava acostumado com o canto escuro da parede. Nele dormiam meus monstros preferidos. Ali estava acostumado a ver a chuva pelo ouvido. A me fingir de morto quando, no meio do parágrafo, alguém chamasse no portão. Já me sentia em casa no canto escuro da parede.

Mas agora estou cá frente à janela. E a rua não para de levar as pessoas e os automóveis. Logo hoje o vento está lupino e as persianas tremem de medo feito ovelhas desgarradas.

O canto escuro, do qual fui retirado, está esvaído. Perdeu toda gordura de sua sombra grossa. Agora ele não passa de um filete esfumaçado. Está frágil e magro feito um faquir. A aranha que lhe animava as horas está agora refugiada em outro canto. E as formigas que se arriscavam sobre os farelos do biscoito que eu deixava cair partiram rápidas e ingratas. Envolvidas pela labuta sequer acenaram um adeus.

Não posso fazer mais nada pelo canto escuro da parede, além de uma crônica vespertina de vida curta, pois uma semana depois da publicação ela morre.

Mas agradeço publicamente ao canto escuro da parede pelas tantas semanas que passamos juntos. Não chegarei ao ponto de dizer que nos amamos, entretanto ali também tivemos nossa poesia. Afinal de contas, essa vida não é feita apenas por janelas claras abertas para um mundo pacífico.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 26 de novembro de 2020

O ENFRENTAMENTO DA CRISE

Cabo Frio viveu longos anos de mesmice político-administrativa dos “Sheiks do Petróleo”. Os recursos bilionários dos royalties foram desperdiçados sem que fosse criado um fundo soberano para enfrentar os períodos, digamos, menos acolhedores.

A crise que ninguém acreditava veio forte. A Bacia de Campos e seus campos maduros em processo de esgotamento não jorram tantos royalties para os municípios. Os investimentos para recuperá-los exigem que o barril do petróleo alcance uma cotação bem superior a atual.

A pandemia agravou a crise fiscal pré-existente e a desindustrialização. O PIB recuou em níveis catastróficos e a oferta de petróleo excede a capacidade de consumo de economias debilitadas.

Como recuperar Cabo Frio diante de uma conjuntura tão grave e adversa, com demandas represadas durante anos? Como atender, dentro desse quadro tão difícil, as expectativas criadas com a eleição?

O prefeito eleito tem falado em cortar despesas e dar mais atenção à arrecadação própria, descuidada desde os tempos em que os royalties do petróleo entravam massivamente.

Aumentar a arrecadação em tempos de crise vai ser um belo exercício de competência política e financeira.

E muita paciência, credibilidade e criatividade.

DISPUTA NA EDUCAÇÃO

Disputa na educação

O governo ainda não começou, mas os grupos começam a se organizar na área da educação pública. Cobram compromissos, ações e até trabalham politicamente para indicar quem deve ser o secretário (a). Tudo leva a crer que a disputa dentro da militância do sindicato dos profissionais da educação é grande e tende a se aprofundar.

Cólicas!

Enquanto isso o prefeito eleito continua visitando bairros e comunidades, segundo ele “agradecendo os votos”, mas aproveitando para ouvir as reivindicações da população. Até o momento só deu algumas pistas sobre a formação do secretariado. Tem gente em cólicas!

Praça Porto Rocha

Entre tantas tarefas do novo prefeito está evidentemente à reforma da tradicional Praça Porto Rocha, no centro de Cabo Frio. Atualmente, após a “reforma” realizada nos estertores do governo Marquinhos Mendes, está se assemelhando ao Cemitério Santa Izabel: não faltam lápides.

Parcerias público-privadas

Como a crise é grande está na hora da prefeitura fazer parcerias público-privadas para recuperar o patrimônio público. Os equipamentos urbanos, essenciais para o município, estão em grande parte depredados e degradados, por anos de descaso: as empresas podem ajudar e muito.

Interlocução com a Câmara

Quais serão os principais interlocutores do novo prefeito na câmara? Como a cidade vive uma crise profunda é preciso que essa articulação política seja muito bem feita para dar velocidade às transformações que Cabo Frio precisa. O governo precisa construir uma maioria sólida.

Pulverização de votos e legendas

O grande número de candidatos e partidos pulverizou a votação: Republicanos: 3; DC, Avante, PL, Democratas; PTB, Solidariedade, PP e MDB: 1. O PDT elegeu o prefeito José Bonifácio, mas fez uma bancada discreta: apenas dois vereadores: reelegeu Oséas de Tamoios e elegeu David Souza: ambos são empresários e de linha política moderada.

Sem voto!

A eleição trouxe a perspectiva de uma mudança substancial na vida política da cidade e tem gente que fica assombrada com essa possibilidade e quer a manutenção do ‘status quo’ de qualquer jeito. O ex-vereador e ex-secretário Dirlei Pereira divulga e o advogado Cláudio Mansur entra com ação na justiça.

Os inconformados!

Os inconformados com o pequeno número de votos que tiveram na eleição fizeram algum barulho. Na tentativa de levantar o fogo, o inesquecível Dirlei Pereira, que teve 836 votos como candidato a prefeito, fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais. Entre os que usaram a palavra Naldin Molejinho (PMN), com 43 votos e Roberto Rosa (PTB) com 47. Todos dizem defender a democracia. Saravá!

Força política residual

O ex-prefeito Alair Corrêa, que quando interessa se diz socialista, inclusive tentou se filiar ao PC do B, apoiou o candidato bolsonarista, o deputado Sérgio L. Azevedo, do Republicanos. Com exceção de Vinícius Corrêa, reeleito pelo PP, com 1181 votos, cuja votação não parece ligada ao ex-prefeito, o “velho morubixaba” aparece cada vez mais como uma força política residual, no município.

Cabos eleitorais

A eleição para vereador é a mais complicada e difícil dentro do processo democrático brasileiro. O número excessivo de “candidatos” se deve, em grande parte, a necessidade de cabos eleitorais engordarem a legenda daqueles que são realmente candidatos.

Quando o voto é escasso

Quando o voto é muito escasso, os cabos eleitorais, vestidos de candidatos, perdem prestígio junto ao seu político predileto, digamos assim: vão para o beleléu os contratos, portarias ou outras vantagens, dos quais eles vivem. Revela à luz do sol a magreza do seu prestígio junto aos eleitores. Explica muito chororô por aí.

ANOTAÇÕES SOBRE A INVENÇÃO DO ESPÍRITO MODERNO 

José Correia Baptista 

1 – Milan Kundera em “A arte do romance” (Nova Fronteira, 1986) recorre a uma bela imagem sobre o nascimento do romance, criação europeia nos tempos modernos. Depois de Deus ter deixado a direção do universo, mas com sua ordem de valores, com a separação do bem e do mal, com um sentido para cada coisa, “Dom Quixote saiu de sua casa e não teve mais condições de reconhecer o mundo”. Sem o Juiz, o mundo surge numa temível ambiguidade, a Verdade em centenas de verdades relativas. “Assim, o mundo dos Tempos Modernos nasceu e, com ele, o romance, sua imagem e modelo.” O romance, cuja única moral é o conhecimento (que é descobrir o que somente o romance pode descobrir), tem esta a sua única razão de ser.

A importância de Cervantes para a literatura mundial é a de dar aos personagens a consciência de sua situação e essa consciência é crítica, como ensina Octavio Paz em “O arco e a lira” (Nova Fronteira, 1982). “O humor torna ambíguo tudo que ele [D. Quixote] toca: é um juízo implícito sobre a realidade e seus valores, uma espécie de suspensão provisória, que os faz oscilar entre o ser e o não ser.” E a desarmonia entre Dom Quixote e seu mundo não se resolve a não ser pelo triunfo do humor, que é a ironia, como aponta Octavio Paz: “A ironia e o humor são a grande invenção do espírito moderno.”

2 – No livro “Na companhia de Shakespeare” (Imago Editora, 1992), Daniel Sibony, no capítulo “A letra inseparável”, defende que todo o “Hamlet” é a peça de representação, o teatro no teatro, com alguma coisa de irrepresentável, “e nem tanto por sua riqueza que como em toda a encenação obriga a fazer ‘cortes’, secções … mas porque já que a representação desmancha a morte, Shakespeare em Hamlet desmancha a representação.”

Mais explicitamente a cena de teatro dentro do teatro, o metateatro, se realiza em “Hamlet” quando, na peça, Hamlet chama alguns atores para representar diante o rei – seu tio Cláudio – e a rainha – sua mãe Gertrudes – o crime que eles haviam cometido contra seu pai por envenenamento. O rei então percebe que Hamlet sabia a verdade. É a peça dentro da peça, quando se rompe a fronteira entre o que é real com a representação do real.

3 – Quando o poeta cabo-friense Waldemir Terra Cardoso (1912-1936) dirige seu olhar para o pescador em seu livro “Zé-tarrafeiro e outros poemas” (1935), escolhendo como tema os trabalhadores à margem daquela sociedade cabo-friense reacionária, fechada e sufocante, ele vê o cotidiano do pescador cheio de beleza. Vê também que o projeto da realização da felicidade está situado naquela classe social, inaugurando o que entendo ser o Modernismo das letras cabo-frienses, pela nova forma de ver e de sentir. Waldemir e Pedro Guedes Alcoforado com seu romance “Culpa dos paes” (c. 1929) representam esse ponto mais alto de nossa literatura, como já abordei no texto “Quando a literatura cabo-friense inaugurou o Modernismo”, aqui no Blog do Totonho no dia 11 de junho. Mas Waldemir amplia sua ousadia: o templo cristão é mais do que o amor reverencial à autoridade eclesiástica porque o amor está aberto na casa de Deus, como escreve no poema “Oração sincera em duas vozes”. Neste soneto, o poeta vai à Igreja rezar por uma prece boa, implorar um favorzinho. Mas sua oração é interrompida por lhe chamar a atenção uma bela morena no templo sagrado. A partir daí parte do poema é a descrição da morena. Volta então à oração: “Eu quero bem pouco… Meu Santo, – perdão! -/ Não quero mais nada! (A morena acenou-me)/ Não sei onde estava na minha oração.” Esse espírito moderno (carregado de ironia e humor) se apresentou pioneiramente em Cabo Frio através da literatura. Antecipado por esses dois grandes escritores dos anos de 1920 e 1930, Waldemir Terra Cardoso e Pedro Guedes Alcoforado (minha edição de “Zé-tarrafeiro” é a de 1935 e me foi presenteada há 40 anos por Jediel Portugal; mas o acesso ao livro está facilitado por ter sido publicado seu fac-símile no “Anuário de Cabo Frio” de 2012).

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF e ex-secretário de Cultura de Cabo Frio (2009/2012).

Está à venda na plataforma da Amazon, na seção livros. Preço: R$ 11,01. Ao comprar, deve-se baixar o Kindle que está no site da Amazon e é grátis. O comprador deverá dar informações básicas, como email e celular na hora da compra.. O livro poderá ser lido tanto no celular como no Ipad ou no computador.

CARTA AO PREFEITO ELEITO

Ao futuro Prefeito de Cabo Frio, Sr.

José Bonifácio Novellino

(primeira carta)

Vejo com satisfação a sua eleição e como também pertenço ao grupo de “idosos”, fico bastante feliz com o reconhecimento da população sobre a experiência adquirida no decorrer dos anos de vida, pois só a vivência traz a sabedoria necessária, principalmente para lidar com tantos desafios que teremos de ultrapassar…

Também venho pedir um olhar especial para o Parque Municipal do Mico Leão Dourado em Tamoios, 2º Distrito da Cidade, tanto como Cidadã Consciente, como Conselheira do Parque, um trabalho que vem enfrentando vários obstáculos, fruto de uma desinformação total do seu significado, causando diversos crimes contra a fauna e a flora, onde a fiscalização tem atuado constantemente, mas pelo andar da carruagem, não tem a infraestrutura necessária e nem a devida compreensão da população local da importância deste projeto…

As invasões são constantes e o interesses nas terras já destruiu parte deste patrimônio, que é reconhecido até internacionalmente , com diversos projetos para a continuidade da espécie, também significando um verdadeiro “Tesouro Ecológico” , que pode ser semente de um desejado desenvolvimento sustentável e turístico do distrito, que urge de boas intervenções…

Estamos passando por diversas crises planetárias e o nosso olhar e as nossas decisões terão que se basear em outros paradigmas mais adaptados à época em que vivemos, com mudanças significativas com a maneira de tratar o nosso tão precioso Meio Ambiente, isso é o Futuro e não podemos perder o “Bonde da História”…

Olhar as coisas por um prisma mais abrangente é muito mais inteligente…

Tenho muito mais a falar e a solicitar, e esta é só a primeira carta, mas vamos por parte e por assunto…

Agradeço antecipadamente, pois tenho certeza de que seremos atendidos…

(*) Nádia Rouefski é Arquiteta , Urbanista , Artista , Ambientalista , com mais de 40 anos de experiência profissional , residente há 20 anos em Tamoios , com vários projetos executados e propostas de planejamento urbano para o local.

A COVID NÃO ESPERA!

A transição é o primeiro passo de um governo que ainda não se iniciou. É quando se apura informações e toma conhecimento do estágio atual que uma prefeitura se encontra. Em contrapartida, a transição de governo não é o último ato de um governo que esteja no final de mandato. Existem diversos aspectos administrativos, fiscais e ações que o governo terá a obrigação e a responsabilidade de tocar até o último instante.

Agora existe a “Transição Compartilhada”. Vem a ser aquela transição de governo onde o atual prefeito realiza ações em conjunto com o futuro governo de forma a não deixar um “hiato” na administração pública, prejudicando a cidade e a população.

Como exemplo, podemos citar a realização do processo seletivo visando à contratação dos chamados “apoios”, que o setor de fiscalização e postura necessita às vésperas do Verão.

Outro exemplo é permitir o acesso ao almoxarifado da saúde, de forma que a nova equipe avalie e se prepare em relação a medicamentos e afins no local e a demanda nos primeiros dias do ano. Isso envolve vidas.

Existem vários outros exemplos a dar de ações necessárias, onde verificamos que a cidade deveria ser vista acima de qualquer outra coisa. Esperamos, para o bem de Cabo Frio, que a transição seja séria e compartilhada.

TUDO EM DIA?

Tudo em dia?

Faltando 37 dias para acabar o seu trágico governo, o prefeito Adriano Moreno tem por obrigação pagar o restante dos salários de outubro e todos os salários de novembro, dezembro e 13°. A sociedade espera que o atual prefeito se esforce e não deixe muitos penduricalhos para o próximo.

Por onde anda?

Por onde anda o ex-secretário de fazenda e quase ex-assessor especial Antônio Carlos Vieira (Cati)? Divulgado como um gênio do mercado financeiro parece que não conseguiu se encontrar dentro da administração pública, embora tenha aprofundado seu perfil conservador arrastando o prefeito para o Democratas.

O caminho

Adriano Moreno foi eleito vereador pelo PP, como membro da bancada de apoio ao governo do prefeito Alair Corrêa. Posteriormente, migrou para a Rede Sustentabilidade e na medida em que seu governo ia adernando para a direita, bateu na porta do Democratas da Família Maia. Quais são suas opções agora?

Quais as opções?

Qual o destino político do prefeito Adriano Moreno? Vai abandonar em definitivo a vida pública e retornar, em tempo integral, a sua profissão de médico ortopedista? Vai tentar uma vaga na Assembleia Legislativa, em 2022 ou reiniciar do zero sua carreira política. São muitas opções que não podem ser decididas de cabeça quente.

“Bolsa de Apostas”

A “bolsa de apostas” nas ruas, cafés e bares de Cabo Frio esperam ao menos 2 meses de salários atrasados na prefeitura: os servidores terão um Natal pra lá de magro e complicado. O comércio, além da pandemia, terá que enfrentar a drástica redução do dinheiro circulando no município.

Casa abandonada

O clima nos setores da Prefeitura é de casa abandonada, pelo menos por parte de diversos comissionados. Como sempre serão os servidores estatutários que irão segurar as pontas até que o novo governo coloque as mãos nas rédeas e comece a conduzir a cidade.

Finalmente, começou a transição.

A transição começou. O marco foi à reunião entre Adriano Moreno e José Bonifácio, no Palácio Tiradentes, sede da prefeitura. A partir da formação da equipe de transição é que vai se ter a composição do secretariado. O prefeito eleito demonstra preocupação com os primeiros dias do governo, em plena alta temporada.

Fio do bigode

A Folha dos Lagos, agora semanário, mais uma vez marcou pontos com a entrevista feita com o prefeito eleito. Pelas respostas de José Bonifácio ele vai respeitar no “fio do bigode” os acordos políticos construídos durante o processo eleitoral e Tamoios terá grande importância na administração.

“Vigilantes”

Os “vigilantes” nas redes sociais prometem que irão acompanhar e cobrar dos vereadores. Essa eleição produziu centenas desses internautas que garantem que vão acompanhar os trabalhos da câmara. O tempo vai dizer se esse ardor de cidadania resistirá aos tediosos discursos dos componentes do legislativo.

Chega de siricuticos!

Começou a dissipar o chororô da turma dos sem votos, que andou em siricuticos pela cidade, tentando entender porque foi abandonada pelos eleitores. Quem sabe o eleitor cansou de promessas? Que tal renovar o repertório e mudar o jeito de fazer política? Que tal perceber que desse jeito não dá mais?