Queda de braço

Ricardo do Carmo (*)

Uma veia insensata estufa e salta na testa de um; no outro, a tensão é tanta que músculos improváveis afloram no pescoço. A disputa é tão equilibrada que os dois braços interagem violentos, mas a inclinação é pouca. O desafiante faz cara feia, trinca os dentes e seu rosto subitamente é tomado por um vermelho-claro; já o seu opositor demonstra uma placidez que não condiz com o esforço pungente, morre por dentro, porém a fisionomia permanece inalterada à força da vaidade.

Uma parede humana começa a se formar e, para enxergá-los, só na ponta dos pés, só olhando por cima. Vendo os dois, cotovelos apoiados, mãos dadas, pulsos cruzados, forças desmedidas e que se medem, a plateia imagina a razão do ódio.

— É RIXA ANTIGA — abrevia um anônimo.

E o homem à direita de quem olha da entrada do bar consegue uma inclinação pequena que pode fazer a diferença, uns dez graus apenas, mas logo o outro, que é dado a caretas, sentindo necessidade de sonorizar sua raiva, começa balbuciar um palavrão, abafado, sobrecarregando de ódio cada letra, com tal ênfase, que o seu oponente cede e o equilíbrio se restabelece. Mesmo xingado e vendo o braço voltar ao eixo neutro, o oponente do rosto colosso mantém a pose. Movido então por uma raiva terminal, o do lado esquerdo se supera na máscara, parecendo querer vencer não mais pela força do braço, mas pelo espalhafato da careta. E, por mais que o outro insista na farsa e faça com que não transpareça na face qualquer mostra de fraqueza ou sinal de iminente derrota, a inclinação de seu braço, lenta, quase imperceptível, vai crescendo e aumenta, alcançando o ponto-limite em que ou o jogador empurra de volta o braço do adversário, ou a alavanca se torna irrefreável, e aí a pressão é tanta que termina impossível empurrá-la contra. É a hora em que desce do pulso uma tremedeira, emitindo os últimos sinais de resistência.

Acontece o nocaute. O homem do rosto imutável cede totalmente: dobrando o antebraço e deixando declinar, a reboque, o braço inteiro.

O vencedor ri, com a boca semipresa, ainda sem conseguir relaxar inteiramente os músculos do rosto. A seguir, deixa a cadeira e fala em direção aos populares:

— É na purrinha, no cuspe à distância, na queda de braço… em tudo eu ganho desse babaca! — e, olhando para o rival: — Será que tem alguma coisa que eu perca pra tu?

O perdedor tira um revólver da cinta, dá três tiros no outro, e responde:

— Tem, sim, no dedo nervoso!

(*) Ricardo do Carmo é poeta, professor e documentarista.

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