O “Era uma vez” de cada dia.

Leandra Ferreira Bento (*)

Para desperdiçar o tempo, assistimos a narrativa de um país que faz jus ao País de Alice. Mas atentem… As personagens dos contos de fadas não são ambivalentes – boas ou ruins – ao mesmo tempo como somos na realidade. A polarização domina essas personagens.

E no “Era uma vez” tupiniquim, não existe racismo, não existe fome, pois temos muitos “pés de manga”. A floresta tem autocombustão. Não existe grilagem de terras, e a reforma agrária é um sucesso. A inflação ou hiperinflação é coisa de comunista com “invencionices”. Não houve golpes, não matam negros por serem negros. A vacina chinesa é uma tentativa de extermínio da humanidade capitalista e o covid-19 é uma gripezinha. Tudo em nome do “Senhor”.

A marginalização dos negros é factóide. Mas …” Pelé, obrigado”. E assim coloca-se cada um no seu quadrado.

Enquanto o negacionismo fica na esfera econômica e científica, o povo brasileiro vai lutando pelo pão de cada dia, pois isso, os maricas, fracos, sabem fazer com alegria, tenacidade e resiliência. Embora esses maricas paguem impostos sobre impostos, como qualquer homem, mulher, ser, não maricas. E com seu trabalho ajude a manter esse país. Mas quando ele, o negacionismo, passa a ser social, político, econômico, histórico e científico, é descontrutivo de toda a evolução humana.

É indecência com a história de tantos que lutaram e lutam contra esse racismo estrutural contra o negro, pobre e favelado e ou suburbano. Contra as mazelas da pobreza extrema e um mundo desordenado pela desigualdade.

O brasileiro é mestre na alegria. Possui uma beleza ímpar. A gente ouve. Suas “mulatas”, sua música, seu gingado… Mas essas falas, seu interior provocam cicatrizes que não se curam tão facilmente. O padrão de beleza subjuga até hoje, a “mulata” sambista… Fruto de desejo de muitos, ainda se chocam quando aquela passista, que representa seu morro, sua comunidade é uma mulher administradora, médica, fisioterapeuta. E aí, se potencializa a excludente realidade em ser mulher, negra, mas possuir diploma. E ela samba.

Conhecer sua história. Aquela trancada nos castelos, nas cavernas, nas florestas impenetráveis, dos livros proibidos é necessário. Aquela que esse povo negro que sustenta esse país, depois de quatrocentos anos escravizado, quer contar e gritar. Fazer entender o porquê vivemos hoje, fora das senzalas mais presos nas favelas e sem oportunidades igualitárias. Não…não é mimimi… É o brado dessa gente gigante que cansou, simplesmente cansou, de estar nas páginas dos jornais cheios de sangue.

Aqui, somos negros, favelados e pobres. “ Música de preto, baile de favela, cheiro de pobre.”

(*) Leandra Ferreira Bento é Professora.

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Um comentário em “O “Era uma vez” de cada dia.”

  1. Perfeito! Esse é o Brasil real, das Marias, dos Silvas e do povo que realmente coloca a “mão na massa” e sofre para defender a sua sobrevivência!

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