Um gambá na máquina de lavar roupas

Eis que às duas horas da tarde, sob o mormaço que anunciava a chuva, me deparei com um gambá dentro da máquina de lavar roupas. Estava lá deitado no fundo branco daquele buraco plástico. E não tinha bebido nada como eu, ridiculamente, supus.

O bicho dormia. Estava exausto. Balancei a máquina com cuidado. Dei algumas leves batidas em sua lateral como alguém que bate à porta de um conhecido, mas o gambá sequer se mexeu. Não queria ser incomodado. Eu precisava demonstrar que aquele local não poderia ser transformado em dormitório. Porém não tinha qualquer intenção de ser violento.

Virei a máquina até que ficasse deitada no chão. Agora bastava o gambá sair andando. Não precisaria pular, enrolar o rabo, fazer pirueta, tampouco se arriscar sobre alguma corda bamba. Não houve jeito, mesmo depois de acordar ele se negou a sair.

Já vi invasão de terra improdutiva, de prédios abandonados, entretanto de máquinas de lavar usadas quase que diariamente, era a primeira vez. Enfim, depois de muita negociação o gambá se arrepiou inteiro e deixou o local indignado, como se eu fosse um PM truculento a mando do governador.

Tentei parafrasear Guimarães Rosa e dizer que “Viver é muito complicado”, contudo não quis me ouvir. Percebi que era um jovem gambá. Talvez tivesse sido expulso da toca pelo pai na noite passada. Infelizmente eu não podia resolver o problema dele. Desse modo, fui um péssimo anfitrião.

Isso é vida de gambá! Basta o rabo e o pelo crescer e o convidam a se retirar para que aprenda a viver.

O jovem gambá saiu às carreiras, me olhando com cara de poucos amigos. Eu lamento que a chuva tenha chegado logo agora que o forcei a por o pé na estrada. Mas, dentro da máquina de lavar, mal sabe ele, é pior, pois chove quase todo dia.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 19 de novembro de 2020

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