JOÃO

Ana Tavares de Mello

Todos os dias eu o vejo com suas roupas andrajosas e ensebadas, com chinelos velhos nos pés, as unhas enormes e sujas, cabelos desgrenhados e barba crescida, o andar curvado e vagaroso, quase arrastado, uma figura inconfundível, conhecida de todos os moradores do bairro. Invariavelmente ele perambula pelas ruas, solitário, e pede café e água com sua voz rouca, quase indecifrável.

Às vezes ele passa cantando trechos de alguma canção, quase alegre e dá gargalhadas que se repetem a cada vez que  canta, num ciclo contínuo.

Noutros dias ele xinga os que passam por ele, xinga os moradores da rua gritando seus nomes e olhando enviesado, parecendo raivoso e zangado, mas não agride ninguém, nunca. João é o seu nome e ele me chama de Ana, a loira. Estudamos juntos na 5ª série, no antigo colégio 31 de Março, hoje, Renato Azevedo. João casou e teve dois filhos. João enlouqueceu.

Ele anda entre nós, sabemos o seu nome, onde mora, conhecemos a sua história, mas João é invisível. Ele não toma banho, não lava as mãos, não usa máscara de proteção, mas não adoece. Ele atravessa as ruas sem se preocupar e por vezes os carros são obrigados a parar e esperar que ele passe indiferente.

Ele anda nas madrugadas com um cobertor nas costas e os pés descalços, em dias de chuva ou de calor, ninguém se importa, João é inócuo, é uma fantasia, uma piada, uma coisa a ser evitada, vista e logo esquecida.

João é uma verdade que não quer ser revelada, é a minha, a nossa humanidade fragilizada. Ele é um homem que enlouqueceu.

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2 comentários em “JOÃO”

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