CABO FRIO NA VIDA DE JOSÉ LINS DO REGO

José Correia Baptista

Os passos do escritor José Lins do Rego (1901-1957) em Cabo Frio no final dos anos 1930 para 1940 merecem ser um dia reconstituídos. Não só para sabermos mais sobre os caminhos do escritor paraibano por Cabo Frio, mas para conhecermos detalhes sobre os gestos, as opiniões, as vivências de José Lins que nos ajudariam também a pensar melhor nossa cidade. No final da década de 1930, José Lins, exercendo cargo de fiscal do imposto do consumo – expediente que lhe dava todo o tempo para fazer o que mais gostava, escrever -, chegou a morar em Cabo Frio. Carlos Massa, que o havia conhecido nessa época, me disse que José Lins do Rego nunca fiscalizou ninguém e o que gostava mesmo de fazer era jogar sinuca no bar do centro de Cabo Frio.

O poeta Cardoso da Fonseca também me deu alguns depoimentos sobre José Lins do Rego. Em um deles, José Lins teria lido o nosso Waldemir Terra Cardoso (que morreu em 1936 de tuberculose com apenas 24 anos de idade) e deixado a opinião de que o considerava um poeta notável.

O que sabemos das impressões de José Lins do Rego sobre sua passagem por Cabo Frio estão no romance “Água-Mãe” (meu livro é a 6a. edição da Livraria José Olympio Editora, 1970), lançado em 1941, e em dois artigos intitulados Cabo Frio I e II reunidos no livro “Gordos e Magros” (minha edição é da Casa do Estudante do Brasil, 1942). No romance, essa característica tão singular de José Lins do Rego, o lado sombrio e pessimista da vida. Ou, como julgou Otto Maria Carpeaux, o lado profundamente triste. A obra de José Lins do Rego é “uma epopeia da tristeza, da tristeza da sua terra e da sua gente, da tristeza do Brasil.” Portanto, concluía Carpeaux: José Lins do Rego é brasileiríssimo.

“Água-Mãe” é a história de três famílias: a do cabo Candinho – de onde sai o jogador Joca, numa carreira meteórica e trágica -, a da salineira dona Mocinha, que vê os filhos tomarem o rumo da perdição em contato com a rica família Mafra, do Rio de Janeiro, que faz renascer a Casa Azul, amaldiçoada e temida pelos pescadores (lembra “Fogo Morto”: “E o Santa Fé foi ficando assim o engenho sinistro da várzea”). A Casa Azul, presença que anula a paisagem, a água-mãe que dormia nos quadros das salinas, a natureza, com as terras abandonadas, água podre, céu azul, beijo da brisa macia nas árvores, carícia boa da lagoa nas pedras e o mistério cobrindo tudo isso de desgraça, de maus fados (palavras de José Lins do Rego em uma passagem do livro), tomam a forma humana no retrato final do livro, no desespero de dona Candinha pela morte do filho Luiz, no desespero da família Mafra com a morte de Marta, morte inexplicável na Lagoa de Araruama. Paulo daria a notícia para sua mãe. A natureza retorna estampada no rosto do desespero da morte. “Parecia a água-mãe, descendo para a lagoa”. É como José Lins do Rego termina o romance. A natureza e o homem num destino comum.

No romance, José Lins do Rego se refere a Mário Salles (lembrado por Antonio Terra em seu livro “Crônicas”), caracterizado como prefeito da cidade, opina sobre a índole do povo e pontos históricos, como o Convento e o Forte. Nos dois artigos sobre Cabo Frio no livro “Gordos e Magros” fica claro que o que mais chama a atenção dele é a paisagem transformada pela ação do homem: o canal Palmer que corta a Lagoa, os quadros das salinas, enfim, “o homem em Cabo Frio deu à paisagem uma contribuição mais sua”. A vida é fácil. Se a pesca no mar está difícil, tem a tranqüilidade da lagoa. É fácil a vida do pescador. Cal, peixe, sal, “aqui tudo é dado por Deus de mão beijada”. O povo, calmo e manso. “A cadeia de Cabo Frio vive vazia”, como em todas as cidades do interior do Brasil, afirma José Lins do Rego. Mas o outro escritor paraibano que por aqui viveu no início do século XX, Pedro Guedes Alcoforado (1892-1964), viu um outro Cabo Frio em seu romance “Culpa dos paes” (c.1929): uma sociedade fechada e sufocante.

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e Letras pela UFF e ex-secretário de Cultura de Cabo Frio (2009/2012).

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