AUSTERIDADE, A PALAVRA DA MODA, EM 2021.

Não precisa ter bola de cristal ou mesmo ser um mago experimentadíssimo para prever que o ano de 2021 vai ser bastante complicado, de muitas restrições para a população de Cabo Frio.

Não é preciso ser Mister M ou Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco) da telenovela “O Astro” ou mesmo o ilusionista David Copperfield para revelar que em 2021 a prefeitura será obrigatoriamente de exemplar austeridade se quiser enfrentar e vencer a crise.

A pandemia surfa a segunda onda, sem que as autoridades públicas de saúde federais, estaduais e municipais tenham conseguido vencê-la ou mesmo controlá-la: o número de infectados e de mortos só cresce.

O novo prefeito assume o município com os royalties definhando, precária situação fiscal, no mínimo dois meses de salários dos servidores em atraso, folha de pagamentos inchada e em meio a uma pandemia.

Não é pouco!

Aqueles que imaginam o poder público municipal envolvido em grandes gastos com eventos ou obras suntuosas ou similares poderão ser obrigados a tirar os “cavalinhos da chuva”, caso contrário os pobres animais ficarão encharcados.

Os novos tempos serão de muito trabalho.  

CÂMARA PODE NÃO TER CONSENSO

Câmara: pode não ter consenso

A eleição do presidente da câmara de Cabo Frio para a próxima legislatura não será tão simples quanto parecia: pode se complicar e não ter consenso, gerando uma disputa acirrada. Até o momento o nome mais citado é o do vereador Miguel Alencar, que foi secretário de governo da dupla Adriano Moreno/Cati.

Batendo recorde?

O atual presidente da câmara, vereador Luis Geraldo, garante que não tem pretensão de tentar renovar seu mandato na presidência. Reeleito com expressiva votação, o 2º mais votado com 2038 votos, o vereador do Republicanos está no 5º mandato e parece ter fôlego pra mais e bater, em definitivo, o recorde de Acyr Rocha.

Estratégia

O fim de semana define a estratégia do prefeito eleito e seu grupo para a relação que vai ser estabelecida com a câmara e também com outras forças políticas da cidade: mesmo aquelas que não estão representadas no legislativo, mas são atuantes no meio sindical e nos bairros.

Secretaria de Educação 1

Vários nomes aparecem cotados para a secretaria de educação, entre eles o da professora Joana D’Arc, que foi subsecretária de educação, com Laura Barreto. Outros nomes comentados são os de Márcia Tardelli e Rafael Peçanha, este tem até torcida nas redes sociais.

Secretaria de Educação 2

Segundo as paredes murmurantes do Palácio Tiradentes, sede da prefeitura, a professora Laura Barreto, que foi secretária no governo de Marquinhos Mendes, não quer mais pegar o “abacaxi”. É uma secretaria extremamente complicada, cheia de nuances políticas, embates ideológicos, embora com grande prestígio e orçamento.

Ansiedade!

Recado para aqueles que estão roendo as unhas até o sabugo, pensando na formação do secretariado: no fim de semana sucessivas reuniões definiram os principais cargos do primeiro escalão. O Blog desaconselha, em meio a essa dura crise pandêmica, fazer qualquer prestação de médio e longo prazo.

Absurdo jurídico

O impedimento do registro de José Bonifácio pelo TRE é considerado um dos maiores absurdos jurídicos, que se tem notícia. Todos os advogados consultados tem reforçado essa opinião e que o prefeito eleito deve reverter com facilidade o resultado no TSE: o tempo recorde como secretário de saúde de Arraial do Cabo (45 dias) teve um preço alto.

Pedalando com Zé!

O prefeito eleito deveria fazer homenagem especial à equipe que formulou a propaganda eleitoral gratuita. Apesar de pequeno tropeço inicial, tornou a campanha leve, gostosa, sem perder a seriedade que o momento exigia. O “Pedalando com Zé” foi muito interessante.

Praça Porto Rocha

Além da “aguada de cimento”, na calçada do Charitas, o novo governo bem que pode acenar com a mudança na Praça Porto Rocha. Reformada no final do governo de Marquinhos Mendes, a praça é reprovada pela maioria absoluta da população cabofriense, que a considera um cemitério a céu aberto. E tem mais: de tão feia, ninguém assume o projeto da praça, seguindo aquele velho ditado popular: “filho feio não tem pai”.

Adriano acertou

Reprovado pela população com uma votação medíocre de apenas 1231 votos, Adriano Moreno acertou, sem dúvida, em uma secretaria: o meio ambiente, cujo secretário o biólogo Mário Flávio Moreira, com recursos mínimos ou até inexistentes, fez um excelente trabalho.

NUM MONUMENTO À ASPIRINA

João Cabral de Melo Neto

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

*

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

ANSIEDADE

Existe muita ansiedade quanto à definição rápida do secretariado do prefeito eleito José Bonifácio.

É grande a expectativa por mudanças no perfil político de Cabo Frio, que tragam transformações substanciais, que impeçam a contínua decadência da cidade.

Não dá para se conformar com o município, que, vai de forma acelerada se transformando em balneário da zona metropolitana do Rio de Janeiro e sua periferia.

Os moradores de Cabo Frio sentem no dia-a-dia o aumento da violência, a destruição sistemática dos equipamentos urbanos e a superlotação das unidades de saúde.

Ao mesmo tempo estão incomodados quanto à degradação ambiental e do imenso patrimônio histórico e cultural, que poucas regiões do país possuem.

Em sua ansiedade pela montagem e divulgação do secretariado a população demonstra sua imensa preocupação quanto ao futuro da cidade.

 Afinal, qual a modalidade de políticas públicas o governo vai desenvolver?

ÓLEO DE PEROBA

Óleo de peroba

Muitos dos derrotados em 15 de novembro estão colocando os seus nomes à disposição da população e obviamente do prefeito eleito. Sempre enfatizando que o intuito é servir ao povo e não a si mesmo. O discurso, de tão manjado e antigo, é cheio de traças, mas a cara de pau resiste a qualquer óleo de peroba.

O Inoxidável

A minguada votação de pouco mais de 800 votos na eleição para prefeito parece não ter desanimado o radialista Dirlei Pereira. O político foi de tudo um pouco, vereador e secretário de saúde e de governo de Alair Corrêa. Hoje, clama pela moralidade pública e abre espaço para a turma que sem votos apela para teorias da conspiração e fraudes na justiça eleitoral.

Disputa ou Consenso?

As redes sociais transmitem a idéia que se trava luta encarniçada pela presidência da câmara. Às vezes acontece, mas é raro. Normalmente a eleição do presidente do legislativo acontece por consenso para não prejudicar a articulação política dentro da casa. Afinal, todos se acomodam nas confortáveis poltronas do Plenário Oswaldo Rodrigues.

Magdala & Tamoios

Pelas declarações do prefeito eleito de Cabo Frio, a vice Magdala Furtado será amplamente prestigiada. Magdala não terá um cargo meramente decorativo, mas papel essencial na nova administração. José Bonifácio tem reafirmado o desejo de dar a Tamoios a importância que o 2º Distrito nunca teve na política cabofriense.

O discreto Marquinhos Mendes

Marquinhos Mendes manteve bastante discreto após o 15 de novembro. O ex-prefeito foi o 3º colocado após processo político tumultuado, quando antes de confirmar a candidatura deu seu apoio ao vereador Aquiles Barreto. Pesou para a derrota a demora no lançamento da candidatura e o temor que não pudesse tomar posse.

Secretariado

A formação do secretariado não será subordinada a pressão das redes sociais ou de grupos econômicos que sempre rondam o Palácio Tiradentes nesses períodos que antecedem a posse dos prefeitos. A idéia hegemônica é prestigiar os grupos que deram apoio na fase de formatação da arquitetura do projeto político-eleitoral do hoje prefeito eleito.

Estrelas cadentes?

Aquiles Barreto e Rafael Peçanha, ambos jovens políticos, aparecem como “novas figuras” da política cabofriense. Resta saber e só o tempo vai dizer se permanecerão no firmamento ou apenas serão estrelas cadentes. O novo governo poderá contribuir para uma resposta duradoura.

No governo bolsonarista

O governo bolsonarista de Cláudio Castro ganhou novo secretário de ciência e tecnologia, o deputado Sérgio L. Azevedo. O deputado parece não ter gostado da ALERJ, primeiro tentou ser prefeito de Cabo Frio, mas depois da dura derrota, 11 mil votos, optou por fazer parte do governo do estado.

A derrota do bolsonarismo

O bolsonarismo foi amplamente derrotado nas eleições municipais, mas o deputado continua apostando no que resta de popularidade ao presidente da república. Mesmo com toda a fidelidade do deputado o apoio de Bolsonaro a sua candidatura foi pífio, provocando indignação nos coordenadores da campanha.

Vovô Bibiu recomenda calma

Alguns bolsonaristas mais exaltados continuam trabalhando as “teorias da conspiração” apesar dos seus candidatos terem sido fragorosamente derrotados nas urnas. Em sua última carta psicografada Vovô Bibiu, o “Homem do Obelisco” recomendou calma: os adeptos da TFP, entretanto, não sossegam.

A LIÇÃO SABEMOS DE COR

Octavio Perelló *

Cabo Frio, através dos mais de 44 mil eleitores que deram o seu veredito nas urnas e de outras milhares de crianças, jovens e idosos que não puderam votar mas abraçaram a candidatura vencedora, está refazendo a lição de casa. Diante de uma crise sem precedentes, que degolou a cabeça dos três últimos prefeitos, a cidade deu um passo para trás e resgatou a sua mais honrada liderança política em atividade, que durante 22 anos foi convenientemente mantida fora do poder, sob uma sórdida campanha de mentiras e difamações, para que o desperdício dos royalties de petróleo pudesse ocorrer sem o contraponto da seriedade e da responsabilidade com o dinheiro público.

Aparentemente redimida, a opinião pública fez a sua parte, aprovando a campanha mais bonita e propositiva, que foi a de José Bonifácio, com a esperança de um governo que quebre velhos vícios políticos e tire o município do atoleiro. O novo prefeito, aliás, que tem planos realistas e inovadores para a crise domunicípio, não para de se articular e tomar ciência das dimensões do desafio que assumirá a partir de primeiro de janeiro.

O recado das urnas foi claro: chega de trapalhadas e desvios de dinheiro público. A realidade do atraso, em decorrência da falta de investimentos no período mais rico, em que o município recebeu cerca de 19 bilhões de reais em royalties, bateu à porta de todos, indistintamente. Do grande empreendedor ao trabalhador comum, a pobreza da cidade atingiu em cheio, enfraquecendo negócios e diminuindo a oferta de trabalho. Somente uma ínfima parcela da população, formada por empresários e políticos agarrados aos cofres públicos tentaram estender o modelo de sangria, mas foram derrotados. Ainda assim, insistem na judicialização, reafirmando o caráter de maus perdedores e torcedores do caos.

José Bonifácio, que venceu grandes batalhas até aqui, segue enfrentando a guerra com coragem e dignidade, cuidando dos seus soldados e oficiais de patente, e, como bom estrategista, oferecendo tréguas e o respeito de sempre aos adversários, conquistando mais aliados para a grande batalha dessa guerra, que é devolver a paz e a reconstrução dos escombros em todo o território atingido.

E a cota de corresponsabilidade de todos tem de ser assumida. Temos de continuar o dever de casa. Refletir sobre o que aconteceu até aqui e que resultou na decadência de uma cidade rica que esbanjou dinheiro com a farra dos royalties. Olhar para as escolhas anteriores e a atual do eleitor, e torcer para que as propostas sejam concretizadas na união de esforços do novo governo e da nova câmara, contando com a conscientização da sociedade civil e de toda a classe política. Entender a necessidade de não mais reproduzir a cultura política que lançou o município num ciclo de falência.

Porque não somos inocentes, vimos o que aconteceu. Sabemos onde o calo aperta, o que nos exige cuidados, sapatos melhores e um caminhar diferente. Participar mais, saber como e a quem cobrar (governo e câmara), são contribuições fundamentais de cidadãos conscientes. Temos que ir além do discurso e tornar isso uma prática permanente, sem desistir e achar que política é só para os políticos. Isso tudo me faz pensar nos versos finais da bela canção Sol de Primavera, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos: “A lição sabemos de cor / Só nos resta aprender.”

*Jornalista e Produtor de Conteúdo

E agora, José?

Silvana Lima

A retórica poética contida no texto de Drummond nunca nos falou tão de perto. E agora, José?  Finda a campanha, prefeito eleito,a tão sofrida cidade de Cabo Frio, açoitada pelos desmandos políticos de décadas, enfim respira aliviada suspirando sonhos de menina-moça. – E agora? – ela se pergunta. – E agora? – todos e todas nos perguntamos.

Fazedora cultural desta cidade há cerca de 40 anos, acordei no dia 16 de novembro com a janela aberta pro sol e pra esperança. Seria, por acaso, proibido esperançar? – pensei comigo. Há muito que fazer, há muito que perceber, há muito que alcançar, apreender, atingir. E, sobretudo, há muito que ouvir. Impedidos de quaisquer participações em nível de discurso, troca e práxis, os movimentos culturais desta cidade ao mesmo tempo que cresceram em qualidade, quantidade e diversidade, também amarguraram um ostracismo gigantesco e tentaram de todas as formas cavar suas participações nas gestões que se instalam na cidade. O silencio dos que assumiram a pasta da cultura avançou durante décadas e se fez uma prática tão perniciosa à cidade que, em 2018, quando a historiadora MeriDamaceno e sua equipe assumiram a pasta por oito meses e abriram conversas com os artistas através de suas câmaras setoriais, os movimentos culturais vislumbraram uma possiblidade de participação e construíram juntos indicativos para a área. Mas durou pouco. Oito meses. E havia tanta ânsia e tanta carência para o diálogo que em oito meses apenas a gestão construiu conversa com aproximadamente mil artistas em cerca de cemreuniões públicas com os 11 segmentos da sociedade civil Conversa franca e honesta. Com respeito e deferência.

Bom e importante salvaguardar a gestão de José Facury que inaugurou entre 2013 e 2015 a política de editais (um dos pilares que citarei mais adiante), iniciada na gestão de José Correia e executada por Facury,  ganho importantíssimo que trocou a política de “balcão” pela política da transparência, causando uma efervescência cultural na cidade que ficou cerca de dois anos recebendo atividades artísticas oriundas do PROEDI.

Falo sobre participação popular porque falei antes em esperançar, rico neologismo criado por Paulo Freire para designarautonomia e liberdade. Falo sobre escuta porque defendo para a gestão cultural desta cidade quatro pilares com os quais entendo que se construa uma gestão séria, compromissada, transparente e democrática. E um dos pilares entendo que seja exatamente a participação. Um dos grandes estímulos à ampliação da participação popular foi a instituição da Lei de Acesso à Informação (LAI), que exige dos órgãos e atores do poder público maior publicidade dos seus atos. Desde que a transparência pública ganhou força com esta lei, a relação entre a sociedade e seus representantes deveria se tornar mais próxima.Porém, apesar de nos vermos mais engajados e com necessidade de pensar e elaborar a cidade artística e culturalmente junto com a gestão, reivindicandotransparência nas ações e contribuindo de forma eficaz na construção das políticas públicas locais através da relação entre os diversos atores sociais e o município, infelizmente os gestores se fecham em seus gabinetes impedindo a participação. Impera quase sempre o silêncio, nem mesmo havendo diálogo com os conselhos, instituídos democraticamente para análises, consultas e deliberações de ações públicas culturais.

Outro pilar não menos importante que a participação popular é o resgate da memória e das tradiçõesdesta cidade tão rica e tão cheia de histórias que é Cabo Frio. Não apenas as histórias vividas pelas famílias tradicionais da elite cabofriense, mas também e igualmente, o resgate das tradições dos cidadãos e cidadãs que viviam fora do centro  a exemplo do belíssimo trabalho realizado por Amena Mayal, Marcio Wernec, Anita e ZarinhoMureb, Carlota Lopes, Liana Turrini entre outros e outras, enfim, toda uma geração que ainda hoje é referência pelo legado deixado tanto com a cultura popular quanto com a cultura do ecossistema, refletindo a emergência de uma nova relação identitáriados munícipes e das munícipes com sua tradição e memória.

A memória é o principal mecanismo para garantir a construção da história de uma sociedade, importante portanto que ela seja estudada, revisitada, catalogada, preservada e esteja no centro das discussões das gestões. É através da memória que o homem constrói a sua identidade e estabelece os parâmetros que irão conduzir os caminhos futuros.Defender como pilar para a cultura um trabalho sério e participativo de pesquisa, catalogação e preservação da memória, única garantia de que os acontecimentos passados sejam objetos de informação para a sociedade futura de forma coerente e verdadeira, parece óbvio. Mas não é, exatamente porque não se faz em nível de gestão pública e sim apenas por bravos artistas que resistem.

Outros dois pilares que sustentariam uma gestão pública comprometida com o acesso e a transparência de suas ações seria, no meu entendimento, a descentralização não só de ações culturais, mas também e principalmente, de espaços fora do centro da cidade para que o cidadão comum participe da formulação de políticas, projetos culturais e gestão de equipamentospara seu bairro e sua comunidade. Existe Cabo Frio além da ponte, uma Cabo Frio que cresceu e está construindo uma identidade própria e que precisa se ver no processo de construção. Precisa de representatividade. Precisamos de mulheres na gestão sim. Mas precisamos antes de mulheres pretas e mulheres periféricas para não cairmos no engessamento tão recorrente do olhar branco do centro da cidade. O debate teórico e a práxis precisam ser democratizados e chegar na periferia da cidade onde tantas e diversas manifestações artísticas se desenvolvem, onde é maior que o grande centro e não recebe o tratamento devido. Com essa política, podem ser revitalizadas diversas atividades locais; podem ser valorizadas as expressões culturais das periferias das cidades; também pode ser promovido o acesso de toda a população à informação e à criação cultural, além de estimular a produção local.

Por fim, o quarto pilar está intrinsecamente ligado à participação e descentralização que é a política de editais. Os editais e as chamadas públicas são os meios mais transparentes para evitar o clientelismo que envolve, na maioria das vezes, concessões e privilégios e é uma prática perniciosa numa gestão onde a maioria se prejudica e a minoria é beneficiada.

Mas há as urgências.

E agora, José?

Urge que se recupere os equipamentos culturais desta cidade, começando talvez pelo mais doente: o Teatro Municipal Inah de Azevedo Mureb, que anda às minguas;  urge que se reveja e se cumpra minimamente o Plano Municipal da Cultura (que é decenal);urge que se destine, a pedido do PMC, 2% para a cultura;  urge que se enxergue as manifestações artísticas de grupos, de coletivos,de quilombolas, de pretos e pretas, de periferias, de lgbtqi+,de mulheres, de circo, de artistas de rua, de pessoas com necessidades especiais. Urge que se faça mapeamento de patrimônio material e imaterial da cidade, que se catalogue fotografias e filmes da região;Urge que se revitalize os cursos de formação artística a exemplo do que se oferecia no Teatro Municipal; urge que se abra diálogo sobre preservação e memória, sobre identidade, sobre representatividade, sobre democracia. Urge, urge, urge.

Diante de tantas urgências, fruto de gestões que foram passando e negando as questões através de seus silêncios e omissões, volto ao início deste texto onde defendo a participação popular como ponto x de uma gestão que deseja realizar junto com a sociedade as medidas necessárias para que as coisas, no seu tempo, possam caminhar. Uma gestão que, junto com artistas, conselhos e sociedade em geral, defina prioridades e avenceem direção ao que a sociedade deseja.

Seria uma medida sábia para os que chegam, creio eu.

Voltando a Paulo Freire, “… esperançar é se levantar, ir atrás, construir, levar adiante, juntar-se com outros pra fazer de outro modo.

E agora, José?

Bora esperançar?

Silvana Lima

Professora, atriz do grupo creche na coxia. escritora, encenadora, diretora do Teatro Quintal