Um aviso

A vizinha veio muito gentilmente essa manhã. Pôs seu rosto redondo sobre o muro e me chamou. Naquele momento eu varria a lateral da casa para o dia entrar e finalmente me acordar. A mulher teve o cuidado de manter para trás do corpo a mão que segurava o cigarro aceso. Talvez viesse convidar para uma xícara de café. Vi em seu rosto um movimento lento e imaginei alguém que fizesse biscoitos recheados com goiabada. Quem sabe não tivesse também o dom de preparar uma divina geléia de pitanga!

Em seus olhos ainda dormiam um restinho de noite. Então pensei que tivesse acordado muito cedo. Colhido mangas e goiabas, feito um suco tropical e exótico: manga com goiaba e gotas de limão!

Como o calor já nos umedecia a raiz dos cabelos, sugeri a minha sede que a vizinha, generosamente, vinha oferecer um copo de suco gelado. Haveria em sua geladeira uma enorme jarra de vidro com flores entalhadas em seu corpo bojudo. Dela se poderia retirar muitos copos de suco de manga com goiaba e gotas de limão.

Era a maravilhosa política da boa vizinhança! Quem sabe ela também não vinha me solicitar auxílio para retirar de um comprido tabuleiro os pães recheados que ainda estalavam de quentes.

Eu não fumo, mas cheguei a pensar que após tão fausto banquete matutino, caso a vizinha, novamente pródiga, me oferecesse um cigarro eu tragaria com prazer. E assim, prolongaríamos a conversa mais um pouco enquanto a manhã corresse livre.

A imaginação é o que nos salva!

Ao me aproximar do muro e do rosto redondo da vizinha, ela me informou que talvez fosse melhor fechar a janela lateral – sim, logo aquela do quarto de dormir – pois o pedreiro iria ligar a makita para iniciar os trabalhos com pó e barulho.

Agradeci. Às vezes só dá para agradecer.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 29 de outubro de 2020

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