Prisioneiros do Acaso

José Sette de Barros (*)

O universo cultural do planeta tem tudo a oferecer neste grande mercado do divertimento e muito pouco ao homem que se interessa em se elevar na busca do saber e do conhecimento. Stanley Kubrick errou ao profetizar mudanças profundas na consciência humana e na busca eterna de um sábio que em nós existe, criando a uns trinta anos passados, uma ficção futurista, poeticamente filmada e esteticamente renovadora de Uma Odisséia no Espaço. Esse filme foi um dos pilares na minha visão do novo na cinematografia universal. Lembro-me que todos nós cinéfilos saímos da sala de cinema estupefatos – 19 anos se passaram do ano simbólico de 2001 e as coisas do universo político-cultural e social do homem continuam as mesmas, nada mudou, a ignorância continua grassando. Somos prisioneiros do acaso e fadados ao insucesso.

Não existem reformas na política, no tratamento igualitário para uma sociedade sadia. Não haverá transformações de nenhuma espécie se elas não passarem pela cultura na educação e pela educação na cultura. Por conseguinte é preciso conquistar uma nova visão cultural para a mídia que desfaz, destrói e imbeciliza a cabeça brasileira.

Neste meandro de labirintos reza uma só variante que vai do lixo ao luxo. Hoje o lixo ocupa 99% do mercado de mídia e não importando a sua origem somos obrigados, de uma maneira ou de outra, a digeri-los. Do luxo, da beleza estética transformadora e modernista de outrora, antropofágica, revolucionária, como queria Oswald de Andrade, não há mais nada a ver, a ouvir, com raríssimas exceções, pois nada de novo vem sendo feito de transformador que mereça algum crédito. Vivemos a mesmice quando não estamos voltando para o que de pior existe, para o lixo. A maioria perdida, a cada dia que passa, sem notar, anestesiada pela droga do divertir-se a qualquer custo, do consumir a qualquer preço, ingere veneno na mesa do almoço e descarrega o lixo no jantar de frente para a tevê. E agora chegou o vírus devastador. O pandemônio. Será esse o luxo civilizatório que todos queremos? Para modificar isso só são necessários alguns atos de políticas públicas que permanecem desconhecidos ou julgados de pouco interesse por aqueles que pretendem governar, governaram ou que hoje governam, pós abertura, esse país desde o golpe militar de 1964. Um país feito de golpes precisa avançar neste campo minado com inteligência e bom senso.

Veja bem que com algumas canetadas, um bom governante coloca o saber, todo conhecimento e discernimento dos homens desta terra no eixo, procedendo às verdadeiras reformas no sistema de ensino, saúde e na difusão da educação e de toda a nossa cultura.

Proteger e projetar o nosso produto cultural, incentivando, em novos parâmetros, a produção e a criação da arte nacional e selecionando com critério o melhor do estrangeiro, é estratégia de defesa do país contra o lixo importado.

Fora com o lixo em todos os meios de exibição da mídia nacional! Vamos construir um novo mercado cultural de luxo para todo o povo brasileiro.

Desburocratizar o Estado de tais anomalias é investir no futuro. Investir no futuro é cuidar de nossas crianças – isto é, como diria Brizola: todas as crianças do país o dia inteiro na escola, com educação integral, alimentação equilibrada, assistência médica-dentária e muita cultura nacional no currículo escolar, além das matérias fundamentais, música, teatro, cinema, literatura, dança, poesia, filosofia e tudo que se relacione ao bom conhecimento e ao saber. Em 10 anos já notaríamos a diferença.

Essas necessárias reformas podem e devem começar pelos municípios brasileiros onde se elegerão (tenho ainda esperança) alguns bons prefeitos e bons vereadores que poderão dar início a esse processo de transformação do lixo em que somos ao luxo que ainda seremos.

Para que isso tudo aconteça, em um estado capitalista democrático, o povo precisa estar atento e forte para eleger quem realmente deve ser eleito.

A princípio é bom saber que em política é preciso ir avante, pois quem gosta de voltar é caranguejo de garras longas e unhas cumpridas. Política não é olimpíada, não é esporte onde o que interessa é competir. Em política o que interessa é ganhar; é avançar em cima dos seus objetivos sociais; é participar da transformação do homem; é buscar a felicidade no belo existir, é viver de fato e de direito no devenir utópico, pois só ele é transformador.

Só a boa arte na educação integral e cultural do nosso povo pode oferecer ao Brasil, sem violência, sem contradições, a revolução permanente e transformadora de nossa sociedade.

(*) José Sette de Barros é Cineasta e Artista Plástico.

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