É muita fome para pouco feijão.

Leandra Ferreira Bento (*)

A máxima popular onde come um, comem dois, e ou onde comem três comem quatro é irracional. Comem. Mas comem mal. Mas nós somos assim.

Ser solidário é maravilhoso, conseguir manter a humanidade em tempos atuais é virtude.

Mas sempre questiono de onde saiu essa máxima popular. Talvez das senzalas, não sei. Onde se dividia o pouco para se manter vivos e juntos. Mas isso continua a ser nossa realidade.

Onde a desigualdade ultrapassa a mesa para a sobrevivência, união e manutenção da vida, dentro da estrutura da senzala.

A sobrevivência saiu dos guetos das senzalas e se expandiu. Ela é social, gigantesca, enraizada na camada pobre mundial para justificar a ausência de políticas governamentais onde ninguém tenha que dividir o pouco que tem.

O desemprego, a fome, o pouco acesso as tecnologias, o analfabetismo, o retorno de doenças erradicadas. Em qual século estamos?

Perco-me diante da realidade e do tempo.

A caridade verdadeira está aí. Em quem divide o pouco ou o quase nada que possui. Pois é dado com alegria e satisfação. Pois se divide a mesa. A comida que está sobre a mesa. Embora nem sempre farta e suficiente… o momento se torna alegre e festivo. E como é bom…. estar em volta de uma mesa, se farta, melhor ainda. Ali nos alimentamos: comemos, bebemos, conversamos, discutimos, nos conhecemos, nos aprimoramos, descobrimos o outro. Participamos de suas histórias, piadas, tragédias, rimos e choramos.

Comunhão!

Diferente de muitos que proporcionam ao outro, não a sua mesa. Mas o que tem em abundância no seu bolso.

Em tempos políticos fico a me questionar…

Quem oferecerá sua mesa à população? Quem irá partilhar o feijão que nos restou de forma alegre, festiva, responsável e igualitária. Pois o feijão já não é abundante. E nós da senzala estamos à espera.

Ah… esse pensamento é comunista. Não, é uma realidade. Aqui em casa onde comem três comem quatro, ainda que mal.

E na sua?

Como será na Câmara dos Vereadores (Casa do Povo) e no poder Executivo.

Seremos convidados para a mesa ou alimentados com migalhas que sobram em seus bolsos?

Prática corriqueira e também, enraizada na sociedade que se acostumou a não ser convidada a participar da mesa.

A quem gerencie para o caos. Sem o caos, esse perde o palco e as luzes.

(*) Leandra Ferreira Bento é Professora.

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Um comentário em “É muita fome para pouco feijão.”

  1. Sempre crítica, ponderada, sensível , perspicaz…. Não é à toa que sempre admirei e aprendi com suas falas, quando companheiras de turma, e depois de vida com uma amizade que a vida me presenteou. Ainda bem que existem pessoas com esse olhar que desperta no outro a sensibilidade para os sofrimentos alheios.

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