LEITORES DE ALUGUEL

Ricardo do Carmo (*)

— Quanto você quer para ler meu livro?

Ávila Machado apelava. Tinha tentado de tudo. Pedido, implorado, e ninguém se dispunha a ler o romance que levara anos escrevendo. As principais desculpas eram falta de tempo e falta de saco. Era um desconhecido, um autor ainda em formação, quem é que ia se propor a, de peito aberto, atravessar aquela narrativa de mais de trezentas páginas? A cinco páginas/dia, o corajoso, já subtrairia 60 dias de seu precioso tempo, ou dois árduos meses.

O que mais lhe doía era o pouco caso de seus familiares. Que as editoras não lhe respondessem, que um estranho não se animasse a encarar sua história, ele até podia entender, mas um parente? Era, na melhor das hipóteses, falta de consideração. Não fosse o descaso dos tios, tias e primos, não estaria passando por aquela humilhação. O outro Machado, de Assis, escrevera em Memórias Póstumas de Brás Cubas, inspirado em Stendhal, que cinco leitores já seriam o suficiente; pois, para ele, Ávila Machado, apenas um e já estaria realizado. Unzinho com o qual pudesse dividir sua aventura literária.

Após três anos e oito meses de dedicação, escrevendo com uma disciplina jamais empregada em qualquer outro projeto na vida, sacrificando o lazer, os amigos e o descanso, como aceitar agora, com a obra terminada, não conseguir sequer um leitor? Uma cobaia, como brincava o seu melhor amigo, que, aliás, adiara das últimas férias para depois da aposentadoria a leitura da obra. 

O pai do escritor despistava alegando demasiado envolvimento. Era suspeito demais: o suspeito número 1. Admirava a obstinação do filho, que perdera anos montando um elefante branco. Sua mãe evocara o oftalmologista, mostrando o último exame de vista; o novo grau de seus óculos lhe obrigava a mudar o hábito da leitura até que as novas lentes ficassem prontas. A madrinha do escritor, graduada em palavras cruzadas, cujo tempo disponível a habilitava à empreitada, nem que fosse apenas para matar o tempo com uma arma diferente, bem que poderia ter-se dado ao trabalho, mas também não demonstrou ânimo, alegando incompatibilidade literária. Ficara sabendo que, ainda na primeira página, havia uma expressão infame, motivo para não ler, porque não iria perder tempo com a escrita de um pervertido. Era romântica e um xingamento assim, na página de abertura, era inaceitável. A frase que afastou a madrinha da obra foi: “Ah, vai à merda, antes que eu me esqueça!”.

É claro que Ávila Machado deve ter tentado ler a história para alguém, em voz alta, durante as primeiras incursões de convencimento, e o inoportuno interlocutor se apegou à frase.

Um tio sensato, mas intolerante, chegou a sugerir a diminuição do número de páginas, inclusive suprimindo a primeira, alegando que algo mais sintetizado, mais compactado, mais light, daria ao romance uma força maior e aumentaria as chances de aceitação da obra “no atacado e no varejo”, quis dizer, no mercado editorial e entre os amigos.

— Mas como o senhor sabe se não leu o romance?

O tio largava a discussão no meio, senão acabaria obrigado a ler os originais para poder contra-argumentar com propriedade.

Foi assim que a família inteira não leu e não gostou do romance.

Ávila Machado resolveu, então, ligar para a ASSOCIAÇÃO DOS LEITORES DE ALUGUEL.

— Nós temos um quadro de associados com mais de 250 leitores. Modéstia à parte, aqui há leitores de todos os estágios e estilos, gostos e gastos… — disse a secretária.

— Como assim?

— Temos leitores de todos os níveis: estudantes universitários, professores de literatura (é claro), intelectuais de renome, críticos benevolentes e raivosos, escritores frustrados e, pode acreditar, até editor-espião…

— E o que devo fazer? — animou-se Ávila Machado.

— Pagar, enviar os originais e aguardar.

Constatou o custo absurdo cobrado por cada página lida e optou pelo leitor mais barato, afinal só queria uma leitura séria e um comentário breve.

— Comentário?… Oral ou escrito? — quis saber a funcionária.

— E faz diferença? — espantou-se Ávila Machado. 

— Escrito é mais caro.

— Essa não! 

— Essa não! O senhor, além de obrigar o nosso associado à dura tarefa de ler um romance inteiro escrito por um iniciante, ainda quer exigir crítica literária? — ela deixou escapar.

— Mas eu preciso de uma prova que a leitura foi realizada: uma pista, um segredo, alguma informação relevante da história.

 — Daqui a 90 dias o senhor vai encontrar disponíveis em nosso site as palavras substanciosas que tanto aguarda.

Acertaram tudo. Ávila Machado fez o depósito e enviou os originais. Em troca, recebeu uma senha para acessar, em área restrita, na internet, o comentário do leitor de aluguel.

Prazo esgotado, correu para conferir, e estava lá: “Ah, vai à merda, antes que eu me esqueça!”.

(*) Ricardo do Carmo é poeta, professor e documentarista.

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