Jorginho moda íntima

Jorginho assistia televisão dentro da pequena loja de roupas íntimas naquele dia. Era hora de almoço. A modorra e a falta de clientes o teriam feito cochilar não fosse a notícia anunciada pelo apresentador do telejornal: Operação Fio Dental da polícia federal procura estabelecimento de roupas íntimas envolvido em vergonhoso esquema de corrupção.

Daí a pouco os agentes vestidos de preto, empunhando armas de guerra, penetram na loja que sobrevivia graças a um único ventilador. Disseram a Jorginho que ele tinha o direito de permanecer calado e o carregaram através da coerção. Ele gaguejou e disse que precisava fechar a loja. Os policiais esperaram baixar a porta de ferro e nesse meio tempo apareceu o mesmo apresentador da televisão em uma tomada ao vivo dizendo que Jorginho era o cabeça do esquema execrável.

À noite, o telejornal esclarecia tudo e mantinha a paz e a moral dos homens que conduzem o país. O caso estava aclarado. A digna esposa do senhor senador da república comprou as cuecas do marido na loja “Jorginho moda íntima”. Cuecas, claramente adulteradas, pois cheias de dinheiro. Um produto contrabandeado que burlava os impostos e, ainda por cima, maculava as honradas nádegas de um homem público.

Jorginho era réu primário, mas seu crime era hediondo. Ora, vender à esposa de um senador uma cueca corrompida, cheia de dinheiro, era coisa de vagabundo. Já pela noite na delegacia, assistindo ao telejornal, Jorginho, entre a estupefação e o desespero, chegou a puxar as calças para olhar se a sua cueca também não estava adulterada.

Incompetente! Disse alto ao constatar que vendeu, para si mesmo, uma cueca original.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 15 de outubro de 2020

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