OS DIAS QUE NÃO SERÃO ESQUECIDOS

Luciana Branco (*)

O céu nunca esteve tão vermelho nos finais de tarde. Tem sido um espetáculo acompanhar a despedida do sol. Mas ao mesmo tempo uma ponta angustiante de tristeza rói a beleza do instante. Nessa hora um momento de reflexão. Será o choro do universo? A dor do mundo tentando “falar”? Será o reflexo do sangue dos animais e índios exterminados nos incêndios e emboscadas cruéis? O grito abafado do povo encurralado, correndo em busca da saída sem encontrá-la? Os dias não tem sido fáceis porque deixamos escapar a esperança sem acreditar que havia. Uma agonia me enche os pulmões de um ar poluído, irrespirável… Fazemos o quê quando não sabemos o que fazer? Espero a primeira estrela e faço o pedido.

“Que seria de nós sem o auxílio das coisas que não existem?” Tenho procurado respostas nos detalhes. Claro que as perguntas não foram respondidas. Nem serão! Somos estranhos seres habitando um planeta que não nos aguenta mais. Somos estranhos seres decidindo errado os destinos da gente enquanto seres. Somos seres sem ser. Perdemos a essência principal da vida numa briga de valor que não tem valor. Santo Agostinho já dizia: “O povo é o conjunto de pessoas que ama as mesmas coisas…” Claro que não demos certo. Daí a tristeza. Nosso amor não olha pro lado, não se espalha e não percebe a beleza de amar junto. Ouço que tudo isso acontecendo é reflexo de uma humanidade doente. No fundo estamos botando fogo no mundo!

As notícias ruins não param de chegar. As ruas continuam cheias. Os bares continuam cheios. As praias continuam cheias. Hospitais lotados. Leitos tomados. Profissionais de saúde cansados. Entre crises de ansiedade, saudade e medo, vamos perdendo amigos… E risadas, e encontros bons de papos leves, conversas sobre a vida e o trabalho, o café na padaria, o compartilhar das notícias da cidade, as comemorações depois da vitória do time, as reuniões de condomínio, os projetos pro futuro… Futuro?? Nunca vivemos um presente tão presente como agora. Não existem planos futuros porque o que temos é uma luta intensa pela vida.

“Perdida uma esperança, outra nasce em seu lugar.” Que sorte então! Temos muitas esperanças guardadas, se perdemos uma, outra se acha e se abre. Mas de que serve a esperança se não for para fazermos algo melhor do que temos tentado? Serão as esperanças infinitas ou hão de se acabar por não sabermos “esperançar”?

Assisto Caetano em seu documentário “Narciso em Férias” como se estivesse ao seu lado. Ouço expor os seus medos e fraquezas sem qualquer arrependimento. Vejo seus olhos molhados ao ver a foto na revista antiga, do planeta terra que inspirou a canção. Numa fala, Caetano diz que, “quando se é preso, mesmo solto, continua sendo, porque passa a ter medo na liberdade…” Estamos um pouco assim, sem as grades. Presos em liberdade. Condicionados a clausura de nossa consciência que, por vezes, falha e escapa para fora. Uns retornam; outros vão embora.

Os entardecerem continuam vermelhos e melancólicos. Não há como não pensar nas vidas que estamos perdendo… Jamais esqueceremos estes dias.

(*) Luciana Branco é escritora e produtora cultural.

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