“Porque hoje é domingo“

Tati BUENO

Hoje é domingo e, porque hoje é domingo, ando revivendo coisas e pessoas, numa revivência suave e bem vinda sentada aqui em Cascais, numa piscina de mosaicos coloridos e sem água. E real é estranho, porque a piscina de minha estalagem é linda e está completamente seca nesse outono europeu!

Comprei dois livros de poesias e, enquanto me perdia nas rimas de suas emoções, lembrei de um poema que recitei num daqueles saraus obrigatórios, aos sábados na minha escola! Era um final de tarde com todos os pais presentes, no grande salão enfeitado lá no “Colégio Cristo Rei” em Cachoeiro de Itapemirim, e, cada aluna recitava o que a Madre Superiora escolhia , ou melhor, o que ela ordenava !

Eu sempre, era escolhida para declamar os grandes poetas, porque nunca soube, dançar direito, e também porque era um colégio tradicional de Freiras e predominavam muitos textos bíblicos, canções religiosas, e eu, sempre de “castigo“ era obrigada a recitar um poema, tendo somente o privilégio de ter sido escolhido por mim.

Apesar de minhas inquietações aparentes de meu jeito inconsequentemente creditício e audacioso meus eternos questionamentos meu professor de francês afirmava convicto; – “Oi menina, vamos lá, não reclame, e vença essa timidez, e faça bonito na sua apresentação“ E concluía com ênfase ; – -Esqueça essa sua insuportável timidez e faça bonito”

E eu recitei emocionada, e ninguém aplaudiu e, talvez, por isso, nunca o tenha esquecido. Um breve momento de fracasso, deixa mais lembranças amargas em nós, do que um longo e aplaudido momento de sucesso!. O primeiro marca a perda, a impotência e fica gravado na alma, enquanto os momentos de felicidades tão raros, passam velozes e se escondem no porão de nossa alma.

O poema era lindo, não lembro o autor e dizia assim:

“A vida lago azul. Algumas vezes mar fremente. Tem sido para nós constantemente. Um lago azul sem onda, nem espumas. Um dia quem sabe? Um cisne morrerá por certo. E quando chegar esse momento incerto. Onde talvez a água se tisne. Que o cisne vivo cheio de saudades. Nunca mais cante nem sozinho nade. Nem nade nunca ao lado de outro cisne”

Por que me lembrei disso agora? Qual o cisne que, em meu inconsciente ainda vive , e porque eu, como o poeta canto o amor e nunca mais nadei ao lado de outro cisne?

(*) Tati BUENO é jornalista.

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