Fome & Fogo

O sistema vida está em risco em nosso planeta. Uma das espécies, a nossa, adquiriu tamanho poder de intervenção e modificação, que adentrou no maléfico biocídio, por egoísmo e ambição.

Biocício? Eliminação de várias formas de vida, inclusive a nossa.

A arrogância, ganância é tão grande que estamos vivendo a sombra de uma veloz destruição, como desertificação, incêndios e contaminação das águas.

É hora urgente de ver qual gota nos resta retirar desse copo para que ele não transborde. É tarde? Ainda não! O problema é difícil, mas não invencível!

O empenho ecológico não se limita só proteger a natureza, mas também os seres humanos.

O ciclo de vida no planeta e a justiça social são inseparáveis, pois a Ecologia integral trata da cultural, econômica e social.

O que está acontecendo desembocará em catástrofes no presente e no futuro.

Necessitamos de uma mentalidade e posturas do ser humano.

A crise é profunda.

Uma lógica está causando degradação simultânea do ambiente social, ecológico e do trabalho humano.

Para tratarmos desse problema não é preciso de atitudes mirabolantes, pode ser feito com gestos cotidianos que podemos quebrar a lógica da violência, exploração e do egoísmo.

Temos que dar prioridade ao tempo não a busca do poder.

A realidade nos mostra como é fácil entrar na corrupção, fazer parte da política diária do “dou para que me deem”, onde tudo é negócio.

E assim estamos apreciando nosso País queimar, matando nosso bioma.

Tristeza invade o coração de nós brasileiros, nosso verde da bandeira está se transformando em fumaça negra, rios secos, animais mortos, indígenas sem suas comunidades e agricultores jogados a própria sorte.

Que podemos fazer p sair do fundo do poço? Consciência, luta e patriotismo, porque ficar omisso é ficar do lado de quem vai ganhar essa guerra!

(*) Ângela Maria Sampaio de Souza é Professora.

Irritações

Irritado

por ainda

não ter permissão

de ter minhas mãos

entre as suas pernas

cansado

por acharem

correspondência

de expectativa

através de minha

atitude

desatento

por estar

ao relento

e ainda não ter

declarado

o imposto

de pena

tesudo

por te ver nessa

posição

doido pelo encaixe

aquele delirante

com intenção

sonolento

a água entorna

nem percebo

porque o contexto

nos joga

numa zona cinzenta

impaciente

cochilo

nem vejo o final

do episódio

desanimo

de forma lenta

desorientado

pelo estado

de coisas

provocações

atrações

retrações

numa velocidade

compatível

a um celular

carregado

de espírito de espera

por alguns instantes

os dispositivos

acessam

nossas informações

somos aquém

na espera

da recompensa…

(*) Fábio Emecê é Poeta, Mc e Professor.

O Golpe do Comendador

Fernando Sabino

Ele sabia que aquilo ainda ia acabar mal. Ele era noivo, à antiga: pedido oficial, aliança no dedo, casamento marcado, Mas, no ardor da juventude, não se contentava em ter uma noiva em Copacabana: tinha também uma namorada na cidade.

Encontravam-se na hora do almoço, ou em algum barzinho do centro, ao cair da tarde, encerrado o expediente. Ele trabalhava num banco, ela num escritório. A noiva não trabalhava: vivia em casa no bem-bom.

E tudo ia muito bem, até que a namorada, que morava na Tijuca, resolve se mudar também para Copacabana.

A princípio ele achou prudente não voltarem juntos, já que uma não sabia da existência da outra. Com o correr do tempo, porém, foi relaxando o que lhe parecia um excesso de precauções. Mais de uma vez eu adverti ao meu amigo:

— Cuidado. Um dia a casa cai.

— Seria o auge da coincidência — protestava ele.

Pois acabou acontecendo. Foi numa tarde em que os dois voltavam de ônibus para Copacabana, muito enleados, mãozinhas dadas. Ali pela altura do Flamengo, ao olhar casualmente pela janela, ele viu e reconheceu de longe a moça que fazia sinal no ponto de parada.

Em pânico, o seu primeiro impulso foi o de gritar para o motorista que não parasse, para evitar o encontro fatal. Era o cúmulo do azar: havia um lugar vago justamente a seu lado, naquele último banco, que comportava cinco passageiros.

O ônibus parou e ela subiu. Ele se encolheu, separando-se da outra, mãos enfiadas entre os joelhos e olhando para o lado — como se adiantasse: já tinha sido visto. A noiva sorriu, agradavelmente surpreendida:

— Mas que coincidência!

E sentou-se a seu lado. Você ainda não viu nada — pensou ele, sentindo-se perdido, ali entre as duas. Queria sumir, evaporar-se no ar. Num gesto meio vago, que se dirigia tanto a uma como a outra, fez a apresentação com voz sumida:

— Esta é a minha noiva…

— Muito prazer — disseram ambas.

E começaram uma conversa meio disparatada por cima do seu cadáver:

— Você o conhece há muito tempo? — perguntou a noiva titular.

— Algum – respondeu a outra, tomando-o pelo braço: — Só que ainda não estamos propriamente noivos, como ele disse…

— Ah, não? Que interessante! Pois nós estamos, não é, meu bem? E a noiva o tomou pelo outro braço:

— Você não havia me falado a respeito da sua amiguinha…

Atordoado, nem tendo 0 ônibus chegado ainda ao Mourisco, ele perdeu completamente a cabeça. Desvencilhou-se das duas e se precipitou para a porta, ordenando ao motorista:

— Pare! Pare que eu preciso descer!

Saltou pela traseira mesmo, sem pagar, os demais passageiros o olhavam, espantados, o trocador não teve tempo de protestar. Atirou-se num táxi que se deteve ante seus gestos frenéticos, foi direto à minha casa:

— Você tem que me ajudar a sair dessa.

Amigo é para essas coisas, mas não me dou por bom conselheiro em tais questões. Mal consigo eu próprio sair das minhas: a emenda em geral é pior do que o soneto. Ainda assim, tão logo ele me contou o que havia acontecido, ocorreu-me dizer que, se saída houvesse, ele teria que abrir mão de uma — com as duas é que não poderia ficar. Qual delas preferia?

— A minha noiva, é lógico – afirmou ele, sem muita convicção: É com ela que vou me casar.
E torcia as mãos, nervoso:

— Pretendia, né? Imagino o que a esta hora já não devem ter dito uma para a outra. O pior é que minha noiva é meio esquentada, para acabar no tapa não custa.

Respirou fundo, mudando o tom:

— Também, que diabo tinha ela de tomar exatamente aquele ônibus? E o que é que estava fazendo àquela hora no Flamengo? De onde é que ela vinha?

— Eu que sei? — e comecei a rir: — Me desculpe, meu velho, mas essa não pega.

Ele se deixou cair na poltrona.

— É isso mesmo. Não pega. Nenhuma pega. Estou liquidado. Não tem saída.

— Só vejo uma — e fiz uma pausa, para dar mais ênfase: — O golpe do comendador.

Marido exemplar, pai extremoso, avô dedicado, como se usava antigamente, o ilustre comendador era de uma respeitabilidade sem jaça. Vai um dia sua digníssima consorte, chegando inesperadamente em casa, dá com o ilustre na cama da empregada. Com a empregada.

Enquanto a esposa ultrajada se entregava a uma crise de nervos lá na sala, o comendador se recompunha no local do crime, vestindo meticulosamente a roupa, inclusive colete, paletó e gravata. Em seguida se dirigiu a ela nos seguintes termos:

— Reconheço que procedi como um crápula, um canalha, um miserável. Cedi aos sentidos, conspurcando o próprio lar.

Você tem o direito de renegar-me para sempre, e mesmo de me expor à execração pública. E provocar em conseqüência a desgraça de nosso casamento, a desonra de meu nome e o opróbrio de nossos filhos e netos. A menos que resolva me perdoar, e neste caso não se fala mais nisto. Perdoa ou não?

Aturdida com tão eloqüente falatório, a mulher parou de chorar e ficou a olhá-lo, apalermada.

— Vamos, responda! — insistiu ele com firmeza: — Sim ou não?

— Sim — balbuciou ela, timidamente.

Ele cofiou os bigodes e, do alto de sua reassumida dignidade, declarou categórico:

— Pois então não se fala mais nisto.

Tão logo ouviu o caso do comendador, o noivo desastrado resolveu imitá-lo. De minha casa mesmo telefonou para a noiva, dizendo-lhe atropeladamente que ele era um crápula, um canalha — em resumo: o ser mais ordinário que jamais existiu na face da terra. Depois, sem lhe dar tempo de retrucar, despejou-lhe uma cachoeira de declarações amorosas, invocando o casamento marcado, a felicidade de ambos para sempre perdida, os filhos que não mais teriam… Não faltaram nem reminiscências dos primeiros dias de namoro – tanto tempo já que se amavam, ela não tinha treze anos quando se conheceram, as trancinhas que usava, lembra-se? Tudo isso ia por água abaixo — a menos que o perdoasse.

Desligou o telefone, vitorioso.

— Concordou em se encontrar comigo.

— Não se esqueça. O comendador.

— Já sei. Não se fala mais nisto.

E se foi, alvoroçado. Nem comigo se falou mais nisto, mas de alguma forma deu certo, pois acabou se casando, teve vários filhos e, segundo ouvi dizer, vive feliz até hoje.

Com a outra.

TURMA DO ÓDIO

Turma do Ódio

A extrema direita está tendo chiliques e siricuticos por conta da pesquisa que aponta José Bonifácio como líder. A “Turma do Ódio”, inquieta, está abusando de notícias falsas e toda sorte de ilações, tentando queimar a candidatura do ex-prefeito.

Turma pesada!

A “Turma do Ódio” é da pesada. Grupo que não encontra barreiras e limites para destilar veneno e tentar destruir as instituições democráticas. O avanço desse grupo está provocando a reunião de diferentes campos políticos e ideológicos para barrar o que há de mais nocivo para a cidade.

Candidatura patética

Patética é a candidatura a reeleição do prefeito Adriano Moreno. As poucas intervenções nas redes sociais são mal sucedidas por conta dos internautas, que não perdoam a administração caótica e irresponsável, que agravou os problemas de Cabo Frio.

A quem serve?

Após ser vereador, secretário de Alair Francisco Corrêa, empresário e fabricante de picolés, radialista e “Homem de Deus”, Dirlei Pereira é mais uma vez candidato a prefeito de Cabo Frio. A pergunta a ser feita é: a quem serve a candidatura de Dirlei?

Salvando o que dá pra salvar

A Família Bento, que jamais desgruda do poder e serve a todos os governos vive um drama. A decadência política é evidente e o patriarca da família, o ex-cantor Silas Bento, que até presidente da câmara foi, tenta salvar o que resta de prestígio nessa eleição.

O Dedo do Marcão.

Ultimamente tenho vivido entre a cruz e a caldeirinha.

Explico-me: Tento exibir o meu filme e não consigo; tenho que fazer um exame desagradável, mas não tenho coragem… Tanta besteira!

Quero tomar umas cervejas, um porre homérico, como há tempos não faço, o último, quem poderá prever? Mas, não posso!

Estava com isto me torturando o cérebro quando recebi dois emeios que vieram para nortear os meus próximos passos…

Que coincidência!

O cara me perguntou se eu conhecia o Marcão, pensei no produtor do filme 100%brazileiro… Mas esse era outro personagem da nossa história.

O tal Marcão era um antigo funcionário de uma cervejaria no interior de São Paulo. Ele era feliz no trabalho, embora seu sonho fosse ser degustador de cerveja, bebida que tanto adorava.

Certa vez, trabalhando no turno da noite, ele caiu dentro de um tonel de cerveja. Pela manhã, o vigia deu a triste notícia:

– É com profundo sofrimento que informo que o Marcão se desequilibrou, caiu no tonel de cerveja e afogou-se.

– Meu Deus! – exclamou um grande amigo de Marcão – Será que ele sofreu?

– Acredito que não – respondeu o vigia – porque, segundo as imagens da câmera de segurança, ele chegou a sair três vezes do tonel para mijar!!!

(*) José Sette de Barros é Artista plástico e Cineasta.

Valente menina

Rubem Braga

Debruçado cá em cima, no 13.° andar, fiquei olhando a porta do edifício à espera de que surgisse o seu vulto lá embaixo.

Eu a levara até o elevador, ao mesmo tempo aflito para que ela partisse e triste com a sua partida. Nossa conversa fora amarga. Quando lhe abri a porta do elevador esbocei um gesto de carinho na despedida, mas, como eu previra, ela resistiu. Pela abertura da porta vi sua cabeça de perfil, séria, descer, sumir.

Agora sentia necessidade de vê-la sair do edifício, mas o elevador deve ter parado no caminho, porque demorou um pouco a surgir seu vulto rápido. Desceu a escada fez uma pequena volta para evitar uma poça de água, caminhou até a esquina, atravessou a rua. Vi-a ainda um instante andando pela calçada da transversal, diante do café; e desapareceu, sem olhar para trás.

“Valente menina!” — foi o que murmurei ao acaso lembrando um verso antigo de Vinicius de Moraes; e no mesmo instante me lembrei também de uma frase ocasional de Pablo Neruda, num domingo em que fui visitá-lo em sua casa de Isla Negra, no Chile. “Que valientes son las chilenas!” dissera ele, apontando uma mulher de maiô que entrava no mar ali em frente, na manhã nublada; e explicara que estivera andando pela praia e apenas molhara os pés na espuma: a água estava gelada, de cortar.

“Valente menina!” Lá embaixo, na rua, era tocante seu pequeno vulto, reduzido pela projeção vertical. Iria com os olhos úmidos ou sentiria apenas a alma vazia? “Valente menina!” Como a chilena que enfrentava o mar, em Isla Negra, ela também enfrentava sua solidão. E eu ficava com a minha, parado, burro, triste, vendo-a partir por minha culpa.

Deitei-me na rede, sentindo dor de cabeça e um certo desgosto por mim mesmo. Eu poderia ser pai dessa moça — e me pergunto o que sentiria, como pai, se soubesse de uma aventura sua, como essa, com um homem de minha idade. Tolice! Os pais nunca sabem nada, e quando sabem não compreendem; estão perto e longe demais para entender. Ele, esse pai de quem ela falava tanto, não acreditaria se a visse entrar pela primeira vez em minha casa, como entrou, com sua bolsa a tiracolo, o passo leve e o riso nervoso. “Como você pensava que eu fosse?” Lembro-me de que fiquei olhando, meio divertido, meio assustado, aquela mocetona loura e ágil que só falava me olhando nos olhos, e me fez as confissões mais íntimas e graves entremeadas de mentiras pueris — sempre me olhando nos olhos. Disse-me que a metade das coisas que me contara pelo telefone era pura invenção — e logo inventou outras. Senti que suas mentiras eram um jeito enviesado que ela tinha de se contar, um meio de dar um pouco de lógica às suas verdades confusas.

A ternura e o tremor de seu duro corpo juvenil, seu riso, a insolência alegre com que invadiu minha casa e minha vida, e suas previsíveis crises de pranto — tudo me perturbou um pouco, mas reagi. Terei sido grosseiro ou mesquinho, terei deixado sua pequena alma trêmula mais pobre e mais só?

Faço-me estas perguntas, e ao mesmo tempo me sinto ridículo em fazê-las. Essa moça tem a vida pela frente, e um dia se lembrará de nossa história como de uma anedota engraçada de sua própria vida, e talvez a conte a outro homem olhando-o nos olhos, passando a mão pelos seus cabelos, às vezes rindo — e talvez ele suspeite de que seja tudo mentira.

CHICO MENDES

Quem é que consegue dormir

com esse assassino rondando a pátria?

Só os ponteiros do relógio,

que em horas como 3 e 15,

4 e 20 e 5 para as 11,

o ponteiro de cima deita sobre o de baixo

no sexo anal-anual-secular dos relógios.

Quem é que consegue dormir

sabendo que o homem está marcado,

numerado, na conta mortal do latifúndio?

Lá fora premiado,

aqui, alvejado, e sua morte

comemorada com um churrasco.

Sua causa era a dos seringueiros

mas seu corpo não era de borracha.

E o mundo segue:

o trem fazendo piuí

o Brasil Piauí

e nós psiiii… Silêncio de hospital!

Não era um rio

não era um rei

era um exemplo.

Um sonho previsto

no manual de instrução

para gente e árvore.

Pena que não exista verde depois da morte

para o morto lutar pelo verde que já morreu!

(Ricardo do Carmo)