ANTES QUE CRESÇAM – Luciana Branco (*)

Foram longos dias até acontecer de novo. Um pedido de HELP de meu filho e lá fui eu em busca do encontro depois de meses distante. O cuidado tem sido atitude de ordem nestes tempos de pandemia, por isso essa ausência necessária. Ficar longe é difícil quando se tem tanto amor.

Chego ansiosa, com medo da minha pequena não me reconhecer. Seus olhos azuis param nos meus olhos castanhos e um sorriso se abre deixando meu coração aliviado. “ Vovoooó!” Eu recebo seu chamado e me jogo num abraço quente e afetuoso. Ela sabe de mim. E me reconhece. E me ama. E todo o medo vai embora…

Nesse lugar de montanha onde estamos passando estes dias, muita mata nos cerca, assim como passarinhos coloridos e miquinhos salientes. Eu os apresento à ela, garantindo que ali tudo é bonito e seguro. Passeamos de mãos dados pelas ruazinhas de pedra cercada de verde. Ouvimos cantos e mais cantos saídos dos altos das árvores centenárias. Nosso silêncio é preenchido pelos sons maravilhosos da natureza que nos cerca. Tudo é lindo e mágico porque nada se parece com o que vivemos no “mundo lá fora”. Aqui dentro um lugar que será pra sempre. Sigo os passos da pequena que teima em desbravar cambaleante, mas firme, com olhos curiosos tudo à sua frente. Tanto verde no nosso ar puro. Quero o caminho desse futuro, cheio de água doce, matas intocáveis e pássaros coloridos, levada pelas mãos da minha neta. Nossos dias acordam cedo, com frio e beijo. Nossos passeios pelas estradinhas bucólicas cheias de curvas me levam ao meu filho, na sua idade, neste mesmo lugar, tantos e tantos anos atrás. Tudo igual como antes e diferente… As formigas levando suas enormes folhas num esforço imenso; as pedrinhas jogadas no poço cristalino perto da casa; a queda d’água formando a piscina; as borboletas que nos seguem assanhadas indicando o caminho; a comida servida na boca oferecida querendo mais; os banhos na piscina aquecida pelo sol; as brincadeiras na rede; a rega nas plantinhas tiradas do mato… O que foi ainda é porque o amor é o mesmo. Hoje é minha última noite aqui. Ponho meu coração na mala enquanto vejo a lua cheia despontar na janela do quarto. Ela sabe que gosto de lua e me segue até lá fora. Nós duas assim, olhando o céu naquele escuro clareado de luar e barulhos de bichos me faz entender a importância de se estar perto da infância da minha neta.

Nenhuma história que conte tirada de um livro bem ilustrado irá marcar tão especialmente as vidas de nós duas. Mesmo depois dos filhos amadurecidos, sentimos saudades de seus tempos mais perto. Depois que partem para suas “viagens” pela vida, tudo fica meio preto e branco. Netos são lápis de cor. Chegam desenhando e colorindo todos os espaços de saudade que a gente tinha. E antes que eles cresçam é preciso aproveitar!

(*) Escritora & Produtora cultural.

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2 comentários em “ANTES QUE CRESÇAM – Luciana Branco (*)”

  1. Luciana
    E uma dessas cronistas que procura passar pro papel as suas
    emoções diárias
    Alegre , descontraída é uma revelação nesse mural intelectual de Cabo Frio
    Gosto dela m, desde? que eu atendi a um convite para uma reunião numa badalada e antiga Livraria de meu amigo Zé Roberto Rocha !
    Só nos, eu e ela !!! Mas o papo fluiu manso e eu descobri ali, a sua busca pelo encanto da magia efervescente das letras de formas !
    Que eu veterana no ofício do jornalismo estou aplaudindo sempre

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