CHOVE DENTRO DO ISOLAMENTO

Desde antes da manhã sair pelas beiradas da noite já chovia por aqui. Talvez chovesse aí também. E a criança, já em alguma medida aprisionada pelo isolamento social, ficou ainda mais desassossegada. Esse momento tão extraordinário da vida podia, pelo menos, ser de um sol incessante. Nesse dia de clausura dentro da clausura, parece que ninguém com menos de oito anos pensa em fazer outra coisa que não seja ver um filme. Ver e rever o mesmo. Já visto antes e antes numa repetição de decorar todas as falas.

Pois é em meio a negociação de quereres humanos que a crônica ainda precisa nascer. Então a criança, cujo filme está no computador que ainda não viu a crônica, vem ajudar nesse parto. Me falta um tema e ela dispara uma série intuitiva de palavras: Panela, bateria, comida, passarinho, canarinho, pilha, colher. Por um instante penso em produzir um texto surrealista. Dialogar com o inconsciente, gargalhar sem porque e no fim assinar e produzir uma nota explicativa, consciente, séria e cheia de motivos.

A criança está no meu encalço. Em pé, ao lado da cadeira na qual me sento, ela vigia cada investida dos meus dedos às teclas. Está à beira de me dizer “Se quiser eu escrevo.”. Estou a um triz de aceitar. A chuva não cessa. Sol, na mais otimista das expectativas, somente amanhã.

É preciso entender as dificuldades que o momento traz para todos. Sobretudo para as crianças.

Ela me olha e pede com um “por favor” agoniado. Ponho um ponto na frase e decido que será o final. Está bem assim. Há fins nessa vida cuja natureza é mesmo imprevisível.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 30 de julho de 2020

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