TEIXEIRA E SOUSA E O PROBLEMA DO MAL

José Correia Baptista

A atualidade de Antonio Gonçalves Teixeira e Sousa (1812-1861) – o primeiro romancista brasileiro com a publicação de “O filho do pescador” em 1843 – está na leitura que ele fez de seu tempo. A obra ficcional de Teixeira e Sousa, muito voltada para o folhetim cujo propósito era atender a um público que valorizava as peripécias e reviravoltas imprevisíveis dos personagens e suas histórias, estruturada pelas exigências da corrente do sucesso momentâneo, ficou datada, desinteressante e até enfadonha de se ler. Essa crítica Teixeira e Sousa já recebia em sua própria época, principalmente do mal humorado e honesto Sílvio Romero.

Mas foi o Teixeira e Sousa observador atento que era dos costumes de seu tempo que deu fôlego à sua literatura – José Ramos Tinhorão escreve um capítulo em “A música popular no romance brasileiro” mostrando que Teixeira e Sousa já registra detalhes preciosos da música popular brasileira urbana -, da figura crítica que se formou na vida dura e do homem ético que aparece em sua obra pelos altos valores que conservou muito em virtude da criação amorosa que recebeu dos pais em Cabo Frio (e ele reconhece isso em uma de suas dedicatórias).

Tanto que “O filho do pescador” já nasce no partido da abolição da escravatura. Teixeira e Sousa não defende explícitamente esta causa, mas a visibilidade que ele dá aos personagens negros em seus livros, como seres autônomos, nobres, belos e corajosos, sustenta essa visão de que o negro, como ser, está fora do lugar naquele Brasil escravista. Porque Teixeira e Sousa, em toda a sua literatura, enxerga o negro como ser universal, como sujeito, e não como objeto, como simplesmente despersonalizada força de trabalho do sistema colonial. 

O PROBLEMA DO MAL – É intencional de Teixeira e Sousa intitular seu último romance folhetinesco de 1854 de “A Providência” (livro que só teve uma edição e que li os cinco tomos no site da Biblioteca José Mindlin). Desde o primeiro romance, a Providência, que é a intervenção divina nos negócios humanos, é quem reorganiza a vida de seus personagens combatidos pelo mal. A sociedade que aparece nos romances de Teixeira e Sousa é a constatação hobbesiana pré-contratual da guerra de todos contra todos. Teixeira e Sousa passa a ideia de que a violência, o mal contra os negros está associado a um quadro mais amplo da violência social institucionalizada.

A sociedade que ambienta “A Providência” é a dos tempos coloniais de meados do Setecentos. Mas isto é um recurso do romantismo para falar do tempo contemporâneo. Nos romances de Teixeira e Sousa não existe um mundo burguês mesmo que em seus antecedentes de formação de um mercado e de valores liberais. Em “A Providência” Teixeira e Sousa se pergunta sobre o processo de institucionalização de poder na sociedade brasileira e responde: “Acreditai-me: essas grandes, muito grandes casas dinheirosas, são feitas furtando-se ou roubando-se, matando-se ou iludindo-se, enganando-se, etc., etc.” E conclui com uma concepção mais geral da vida: “As venturas deste mundo são para os mais espertos, e esta esperteza consiste em enganar, e despojar os outros do que é seu.”

Com a pintura deste quadro realista constata-se que o mal está instalado no mundo e que nem o Império e nem a Igreja poderão impedir que ele se expanda, até porque Teixeira e Sousa entende que o mal se protege nessas instituições (“Tardes de um pintor” exemplifica isso). 

Esta é a visão orgânica e inteligível da história humana em Teixeira e Sousa. A conjuntura será sempre trágica. Mas Teixeira e Sousa não é indiferente ao que vê porque seus personagens têm sede de verdade e de amor. Deus dá liberdade e livre arbítrio aos homens. O mal aí se instala. O mal é contingente porque para existir precisa de um reino do bem. Não tem vida própria. Portanto, o mal não é substância. As ideias filosóficas de Teixeira e Sousa estão muito próximas às de Santo Agostinho. O conceito necessário, sim, é o de Deus. E a Providência é o governo divino do mundo. É o que dá racionalidade à história humana. Cujo final para Santo Agostinho é o triunfo geral da Igreja de Cristo. Mas para Teixeira e Sousa surge um conceito moderno que é, como defende em “A Providência”, o de que “a mudança é uma lei natural, uma lei necessária.” E naquele Império da escravidão, Teixeira e Sousa foi bem claro: “a vida é esperança; mas a alma da esperança é a liberdade”.

Bibliografia:

TEIXEIRA E SOUSA, Antonio Gonçalves. O filho do pescador. Rio de Janeiro: Edições Melhoramentos, 1977.

_________________. A providência. Rio de Janeiro: Typografia de M. Barreto, 1854. 5 v. Disponível em : <www.brasiliana.usp.br>

_________________ . As tardes de um pintor ou as intrigas de um jesuíta. São Paulo: Editora Três, 1973.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010.

TINHORÃO, José Ramos. A música popular no romance brasileiro. Belo Horizonte: Oficina de livros, 1992. v. I.

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e Letras pela UFF e ex-secretário de Cultura de Cabo Frio (2009/2012)

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2 comentários em “”

  1. Refleti a modernidade ao tempo em escreveu, é recorrente na obra do nosso Teixeira e Sousa, o que José Corrêa, mas um vez, com muita propriedade, reafirma neste texto.

    re

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