Boa tarde para recomeçar

      Nas ruas desse mundo cheio de contradições (como me disse um velho professor há anos atrás) o sol dos dias de inverno, não tirava dos semblantes das pessoas a profundeza da escuridão. As máscaras de proteção, apagando dos rostos a impressão digital do sorriso, homogeneizava todos dentro da necessidade sanitária. Também o cálculo das vítimas punha minha geração diante do resultado de uma conta mortífera. E assim, a lógica da contabilidade parecia mais irracional, afinal, foi também outro professor quem me havia ensinado que o século das mortes aos milhões já havia passado junto com as Grandes Guerras.

      A única saída hoje é nos proteger. Ação essa tão inclinada à nossa própria auto conservação quanto declinada diante de nosso ânimo sorumbático e atormentado. Ainda assim, estar vivo é se surpreender, pois a vida é potência, força, vontade. Foi o que eu vi com a mulher que vinha pela rua. A cabeça caída no vão dos ombros. O protocolo do distanciamento a lhe negar um abraço.

      A mulher descia assim, fechada pela rua vazia. Sem ter pretensão de boa tarde. Já prestes a dar meia volta para dentro de casa, pois o vento frio incomodava ao amarrar o fim do dia. Em sua cabeça o mundo se ia apagando. E quando uma lágrima apontou na raiz dos cílios, uma criança, que brincava em um quintal, do outro lado de um portão, lhe ofereceu um boa tarde sonoro e próspero.

      Forte mulher que teve força para renascer dando a luz um sorriso que sequer a máscara de pano vultoso foi capaz de conter. Depois disso, esticou o passo, largou os braços a balançar e jogou os olhos para frente. Pois mesmo o pior dos dias, também tem seu boa tarde.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 18 de junho de 2020

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