Aprendendo com o pé de mato

A televisão está entupida pelos números da calamidade social. É o que vejo através do contraste oferecido pelas ruas desertas. Além disso, agora, ao sul do Equador, o inverno diz a que veio. Meu vizinho espirra e meus pés esfriam tão rápido quanto o chá de erva doce.

Frente a isso a prefeitura manda abrir o comércio. Se é para sair às ruas o povo devia seguir uma marcha de protesto exigindo mais auxílio social desses que tem a caneta e o papel. Somos jogados na cova dos leões! A história se repete, Daniel! Isso é o que nos ronda.

Entretanto, há algo de esplendoroso acontecendo. Infelizmente está restrito ao reino do natural. É a árvore do terreno baldio. Ela é grande e pertence à categoria do incógnito – sem dúvida medida pelo arco da minha ignorância. Parece com o mato que a rodeia. É um pé de mato que por motivos desconhecidos, cresceu, ganhou tronco e altura, fez sombra com o sol e barulho com o vento.

Hoje, reparei bem nela. Pois algo a destaca. Está inteiramente enfeitada como uma noiva feliz e brilhante. Milhões de pequenas flores estouram de todas as suas pontas. Agora esse grande pé de mato, transformado em árvore pelo tempo, reluz na manhã como a via láctea o faz a noite.

Me lembrei das notícias fúnebres da televisão. Das decisões sombrias da prefeitura. Do inverno que me ataca os pés. Em tanta escuridão e desamparo social, esse pé de mato veio brilhar prosseguindo seu curso natural. Nesse momento, penso que nós também devemos brilhar. Não podemos fazer tudo do mesmo jeito como sempre fizemos. Afinal, não somos um pé de mato e, diferente deste, podemos sim criar alternativas para nossos invernos e primaveras.

Pensar em soluções para as novas fronteiras éticas é uma tarefa humana. Porque diferente dos pés de mato, são os humanos quem fazem a sua hora, sem precisar esperar acontecer.

Rafael Alvarenga

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