O CABO FRIO QUE APARECE NA VINDA DE D. PEDRO II EM 1847

José Correia Baptista

A passagem de D. Pedro II (1825-1891) por Cabo Frio nos dias 24 e 25 de abril de 1847 se inscreve numa viagem mais ampla de fortalecimento da instituição monárquica. Por mais de um mês D. Pedro II visitou cidades e vilas da província fluminense. De Campos dos Goytacazes em direção à capital, margeando o litoral do Estado. Nesse périplo – registrado pelo “O Correio da Tarde” e a “Gazeta Official do Império do Brasil” -, D. Pedro II contava 21 anos de idade, sua mulher a Imperatriz Teresa Cristina estava grávida do terceiro filho, Leopoldina, e a coroação como Imperador do Brasil era recente, 1841, com 14 anos de idade. O novo monarca precisava ser visto e era instigado a participar do gerenciamento da vida política e administrativa do Império.

Campos dos Goytacazes até 1677 estava sob jurisdição de Cabo Frio. 170 anos depois, o tempo que D. Pedro II permaneceu em Campos e em Cabo Frio dá a medida exata da importância de cada cidade, do que cada uma conquistara até aquele 1847. Em Campos, D. Pedro II encontrou um modo de vida mais cheio, aristocrático – o que Alberto Lamego chamou de “civilização açucareira -, e andou por lá à vontade por 22 dias – de 25 de março a 16 de abril -, recebido até com apresentações musicais interpretadas por jovens pianistas em ricos solares. Em Cabo Frio cumpriu agenda oficial por apenas dois dias. E em um final de semana. Não tinha muito que ver e nem com quem conviver.

É a Câmara de Cabo Frio que centraliza a visita real, onde em sua sede se realiza no sábado o grande baile que reúne autoridades civis, militares, eclesiásticas, várias famílias e as chamadas pessoas distintas do município. D. Pedro II passa também pelo poder religioso: assiste a um “Te Deum” no Convento de Santo Antonio e outra missa e “Te Deum” na manhã de domingo na Igreja de Nossa Senhora de Assunção. Visita a igreja de Nossa Senhora dos Remédios em Arraial do Cabo. Conhece o Forte São Mateus, representação histórica da presença militar portuguesa, quando foi recebido por uma salva imperial da artilharia. O que naquele momento tem de iniciativa econômica digna da visita de D. Pedro II é o empreendimento salineiro de Luís Lindenberg que recebera apoio do Estado a fim de introduzir inovações técnicas na produção do sal, usando a combustão como meio de reduzir o tempo de sua cristalização. D. Pedro II no entanto não almoçou na casa do alemão Lindenberg que o aguardava com um “rico almoço” – conforme relata a ata da Câmara -, “aceitando só um pouco de doce”. É digno de registro que D. Pedro II escolheu almoçar naquele domingo em Arraial do Cabo na casa do cidadão Manuel dos Santos Moreira, onde também descansou. Nessa casa, D. Pedro II teve à mesa o presidente da Câmara de Cabo Frio e o juiz de Direito da Comarca que o acompanhavam a Arraial. Sem dúvida uma confirmação dessa notável simplicidade atribuída a D. Pedro II.

Há outros registros que chamam a nossa atenção na bela ata da Câmara produzida nesta visita de D. Pedro II, como a população que em diversos momentos recebeu o Imperador. Ao passar por Campos Novos – ponto importante do roteiro do tráfico negreiro comandado por José Gonçalves -, onde almoçou e descansou, “o povo estava reunido em grande número para dar vivas de saudação à S. M. e à imperial família.” Certamente mais escravos que homens livres. Ao chegar à cidade, em frente à hoje conhecida Praça D. Pedro II, “imenso público”, “inúmeros cidadãos” saudaram o Imperador. E finalmente na partida, na segunda-feira pela manhã às 6h, havia um “imenso povo que se achava apinhado na praça à despedida do seu adorado monarca.” Dados de 1850 sobre a população de Cabo Frio mostram que com pouco mais de 19 mil habitantes, 48,66%, ou seja, 9.274 eram escravos. Não havia um sentido pessoal para esse volume da história.

Outro detalhe muito importante que traduz aquele acontecimento histórico para Cabo Frio e o espírito do momento que circula e não encontra nomeação – que já abordei na revista cultural “Nossa Tribo” – é o poema que a menina Engrácia Francisca de Marins, cercada por 18 meninas vestidas de branco e coroadas de flores, lê para D. Pedro II saudando sua chegada no sábado às 17h. O tema é: a cidade “pobre, pequena, acanhada” está honrada em receber o Imperador, queria ofertar ricos dons, mas “falta-lhe tudo e por isso/ se abriga em nossa inocência”. A cidade lhe oferece então com certeza o amor que tem por Pedro II e Teresa.

O termo chave do poema é a cidade pobre. O que justifica portanto que o traficante de escravos José Gonçalves da Silva pudesse contribuir para os festejos de recepção ao Imperador. E a ata da Câmara registra oficialmente algumas dessas contribuições do traficante de escravos: “chegando o mesmo augusto senhor ao Passageiro, desembarcando da carruagem, embarcando-se no escaler, que de prevenção tinha decentemente preparado o cidadão José Gonçalves da Silva, dirigiu-se a esta cidade (…)”. Quando D. Pedro II foi visitar o Forte São Mateus da Barra, “várias girândolas que subiram ao ar, de propriedade do cidadão José Gonçalves da Silva” saudaram o monarca.

Desde 1838, o governo brasileiro declarara extinto o tráfico negreiro que já era reprimido nos mares pela Marinha inglesa. No período de 1844 a 1845, portanto, dois a três anos antes de D. Pedro II vir a Cabo Frio, estima-se que 7.040 africanos foram desembarcados em praias de Búzios. Havia uma tolerância do Império para o tráfico negreiro. O livre trânsito e prestígio com que José Gonçalves circulava com os políticos e o judiciário local revela que havia na sociedade cabo-friense um lugar para ele.

Só a partir de 1850 é que se intensificará a repressão a essa atividade comercial ilegal e desumana.  Nos anos seguintes, o governo endurece com José Gonçalves, chega a expropriar seus bens e a prendê-lo. José Gonçalves, morando no Rio de Janeiro, reage publicamente com uma série de artigos no “Jornal do Commercio”. Não se conforma com o que ele chama de espoliação e recorda em um de seus artigos o quanto ajudou na recepção ao Imperador naquele 1847: “(…) inclusive a propria galeota que tive a honra de offerecer ao meu digno monarcha quando foi visitar a cidade de Cabo-Frio” (in: “Jornal do Commercio” de 16/06/1860).

Campos dos Goytacazes recebeu a visita de D. Pedro II por mais três vezes (1875,1878 e 1883). A cidade disputava a indicação de ser a capital da província do Rio de Janeiro. Era a mais rica do interior do Estado e recebia incentivos e a atenção do Império. Uma economia forte. Já Cabo Frio contabiliza uma única visita de D. Pedro II, a de 1847. Que ainda foi repercutida negativamente no Rio de Janeiro em 1860 pelo traficante de escravos José Gonçalves que revelou por meio de um dos mais importantes jornais da capital que a receptividade que Cabo Frio dera ao Imperador tinha o seu dinheiro, portanto, o dinheiro do tráfico negreiro.

Acredito que esse retrato de 1847 exibindo uma frágil sociedade cabo-friense que procurava acertar seu destino econômico deva ser levado em consideração para nos ajudar a entender porque Cabo Frio foi construindo uma cidade cindida, separada, fracionada, radicalizada, que nos levou 60 anos depois à explosão assassina ao executar públicamente João Cherubim no dia 1 de janeiro de 1907. 

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e Português/Literatura pela UFF e ex-secretário de Cultura de Cabo Frio (2009/2012).

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3 comentários em “”

  1. Ótimo! Só nos resta saber se o Imperador, tão jovem, veio para se certificar da bandidagem do traficante, para preveni-lo ou acobertar já que o mesmo continuou o tráfico por mais dez anos, juntamente com o concorrente Manoel Abreu, pai do nosso poeta Casimiro de Abreu. Que, ao abrir uma licença artistica partiu jovem, talvez de desgosto.

  2. Muito bom ler José Correia! Saudades do Aqui. Adorei saber deste fragmento de história cabofriense. Gostaria de ler mais.

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