Visita a exposição de arte

 Queriam sair para visitar a exposição de arte. Afinal, só se falava disso. E como eles viviam ali na cidade, porque não ver com os olhos que a terra há de comer? Separaram roupa e tomaram um banho rápido. É que a tarifa d’água estava mais cara. Antes de partir para debaixo do chuveiro uns pulinhos, pois decidiram que, para não estrangular o orçamento doméstico, seria água fria até as 22h em razão da bandeira vermelha que sangrava a conta de energia elétrica. Pronto, podiam ir. Mas não sem antes comer os pãezinhos de queijo que sobraram do café da manhã. Você sabe quanto custa um salgadinho no café do centro cultural? Ele perguntou. Uma barbaridade! Ela respondeu.

Táxi ou Uber sequer lhes passou pela cabeça. Foram para o ponto esperar o ônibus. Ouviram alguns estrondos ao longe. Será que é tiro? Ela indagou. Do jeito que as coisas estão só pode ser. Ele rebateu preocupado olhando para os lados. O ônibus apontou no começo da rua. Deram sinal, embarcaram. Ele pagou e se voltou para dizer ao cobrador que o troco estava errado. É que a passagem não diminuiu como prometeu o prefeito, explicou o rapaz de uniforme azul.

Desceram do coletivo e atravessaram a praça cheia de meninos de ruas e pombos. Sentiram-se inseguros, abandonados e envergonhados. Entretanto, caminharam em silêncio. Chegaram, enfim, à exposição de arte. Em frente à galeria pessoas protestavam, repórteres entrevistavam, bandeiras eram desfraldadas.

Eles entraram, viram tudo e saíram logo. Chocados? Indignados? Não. Preocupados. Já estavam com fome e o dinheiro não dava para o lanche, pois a passagem não diminuiu. A cidade não tinha segurança e o ônibus ninguém sabia a que horas passaria.

A questão não era se gostavam ou não de arte. E sim que, a cada dia, sobreviver ficava mais arriscado.

Rafael Alvarenga

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