E AS CRIANÇAS SALVARAM A VISITA DE SAINT-HILAIRE A CABO FRIO

José Correia Baptista

Dos naturalistas europeus que vieram a Cabo Frio no início do século XIX, como em 1815 Maximiliano de Wied Neuwied (1782-1867), em 1832 Charles Darwin (1809-1882) e em 1818 Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), foi o botânico francês Saint-Hilaire que deixou o relato mais amplo, singular, ambiciosamente completo sobre Cabo Frio. Saint-Hilaire – respeitado professor do Museu de História Natural de Paris – foi o único naturalista a se interessar em conhecer Arraial do Cabo. Em sua passagem por aqui descreveu o que viu da flora e fauna, os recortes geográficos, a ação dos ventos, a força da economia da pesca, a exploração do calcário através da queima e da retirada em pedra na Praia dos Anjos, entre outros registros. Mas foi seu olhar para a vida da sociedade de Cabo Frio o que de mais definitivo marcou seu relato. É a mais bela e importante impressão que sobre nós temos desse período. Mas toda essa maravilhosa incursão de Saint-Hilaire por Cabo Frio que está narrada em seu livro “Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil” quase se precipita se não fosse a intervenção das crianças cabo-frienses.

A cena: Saint-Hilaire vem de São Pedro da Aldeia observando capoeiras, raramente terrenos em cultura, montanhas, florestas e choupanas dispersas. Aproximando-se de Cabo Frio vê casas melhores. De novo às margens da Laguna, chama sua atenção uma prodigiosa quantidade de pássaros aquáticos, depois um tom mais carregado das árvores e arbustos. E avista o Morro da Guia. Ele está situado na margem oposta à cidade. Vai em direção a uma venda, voltada para o Convento, local então obrigatório para quem quisesse atravessar o canal Itajuru. Saint-Hilaire descreve os próximos passos: “Em pirogas muito estreitas, à razão de 20 réis por pessoa, fez-se a travessia do canal. Os cavalos e bestas passam a nado; mas como os animais são mantidos pelas rédeas pelos que vão nas pirogas, é preciso pagar mais 20 réis por animal”, conta queixosamente Saint-Hilaire.

O botânico francês se informara e estava convencido de que conseguiria asilo no Convento dos franciscanos. E aqui começam os seus problemas. Saint-Hilaire deixa seu pessoal na margem do canal e se encaminha para o Convento a fim de pedir ao guardião que lhe permita passar um par de dias ali no campo assim como deixar seus animais pastar no que ele chama de a montanha da Guia. “Minha solicitação foi duramente recusada”, conta Saint-Hilaire, que insiste e oferece dinheiro ao guardião. Mas tudo inútil. Argumento do guardião para negar o pedido de Saint-Hilaire: “Ordens superiores.” O botânico francês estava acostumado a ser recebido com hospitalidade mesmo em casa de homens os mais pobres. “Acabei, confesso, por perder a paciência; disse palavras duras ao velho monge e voltei à praia, sem saber o que fazer.”

Naquele momento, quando Saint-Hilaire retorna ao ponto de desembarque no canal Itajuru para tomar uma decisão sobre que rumo dar à sua expedição, o desastre para o patrimônio memorialístico de Cabo Frio estava por um fio. Pois se Saint-Hilaire concluisse naquele instante em abortar sua visita à nossa cidade – uma decisão tomada em um átimo de seu abatimento – teríamos então perdido a passagem mais rica e vivaz que um naturalista fez de Cabo Frio com apreciações das mais perspicazes e instigantes, que nos ajudou a nos conhecermos um pouco melhor.

Mas este cenário desanimador que se construíra em torno de Saint-Hilaire mudou repentinamente quando muitas crianças cabo-frienses são atraídas para aquela novidade que rompia uma vida cotidiana tão previsível. Ao redor das bagagens da tropa de Saint-Hilaire, as crianças estão animadas com a novidade. A luz se faz na escuridão dos pensamentos de Saint-Hilaire: “A elas me dirigi para saber se poderia encontrar uma casa para alugar.” E as crianças respondem à indagação de Saint-Hilaire: “Elas me indicaram uma, aonde me instalei mediante o módico aluguel de 320 réis (2 fr.) por quatro dias.” Podemos até imaginar a fantástica cena de Saint-Hilaire acompanhando as crianças a caminho da casa. Aquele momento histórico estava sob o comando delas. As crianças salvaram a vinda de Saint-Hilaire a Cabo Frio.

O problema de onde acomodar seus cavalos também fora resolvido por meio do tropeiro de Saint-Hilaire, Manoel da Costa, que se entendera com o guardião e reconciliara o botânico com os monges. Saint-Hilaire agora estava mais calmo: uma casa alugada e com seus animais em segurança. Um final feliz.

Faço algumas leituras deste trecho da passagem de Saint-Hilaire por Cabo Frio. As crianças observam o botânico e o botânico as observa. Um encontro tão desigual e complementar. Tirando de um outro contexto um pensamento de Saint-Hilaire usado para entender a exuberância da flora e da fauna do Brasil: “misto de desordem e regularidade selvagem [porque natural, da sobrevivência dos seres].”

Outra leitura que defendo é que Saint-Hilaire foi o primeiro turista de Cabo Frio, pois ele vem à nossa cidade e aluga uma casa para passar quatro dias. Detalhe, o slogan padrão educativo contemporâneo do turismo de Cabo Frio, “explore o turismo e não o turista”, já se apresentava ali em 1818 como Espírito Objetivo. Os barqueiros exploraram o turista porque cobraram estranhamente passagem aos animais que nadavam no canal com o argumento de estarem presos à piroga. Saint-Hilaire se sentiu explorado. Mas o aluguel por 2 francos, ele achou baratíssimo. Ali a receptividade estava sendo corretamente exercida.

Outra ideia: Cabo Frio que não tem tradição em homenagear vultos de sua formação – o estudioso Luiz Carlos da Cunha Silveira já enumerou mais de 100 personalidades e coletividades, como os Tupinambá, galhardamente esquecidas por nossas autoridades -, se um dia lembrar de prestar um tributo ao botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, por favor, não esqueça das crianças. Pois Saint-Hilaire só prosseguiu sua expedição em Cabo Frio porque foram as crianças, sim, as crianças cabo-frienses que em sua vivacidade curiosa se aproximaram do solitário botânico e prontamente corresponderam com uma solução para seu impasse e que tanto nos beneficiou. A elas, uma dívida inesquecível.

(*) José Correia Baptista é jornalista, sociólogo, professor de português-literatura pela UFF e ex secretário municipal de cultura de Cabo Frio.

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3 comentários em “”

  1. Prezado José.
    Parabéns pelo artigo revelador.
    Mas uma curiosidade me consome desde que li o relato: qual teria sido a casa em que o naturalista se hospedou?
    Tenho uma precária suposição: A casa setecentista, onde um dia moraria o fotógrafo Wolney com sua família.

    1. Caro Elísio: a pista que SH nos dá é que a casa em que se hospedara tinha uma janela talvez voltada para a rua onde crianças e rapazes ou se comprimiam na janela ou entravam no quarto dele para vê-lo simplesmente escrever. Que casa? Pelo texto, não sabemos. Mas certamente era ali nas imediações do Santo Antonio residencial. Abs.

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