Um certo Cabo Frio – José Correia Baptista

O centro de Cabo Frio perdeu a sua centralidade há muito tempo. Centralidade comercial, bancária, dos serviços, até dos encontros pessoais casuais (“por onde você anda?”). Hoje é comum você rever pessoas não mais no centro da cidade, mas no Shopping Park Lagos, que reúne ali os serviços que um dia estavam concentrados no centro de Cabo Frio. Com a vantagem da segurança e do piso nivelado que facilita o caminhar das pessoas idosas e cadeirantes.

Bairros como São Cristovão, por exemplo, têm hoje toda uma estrutura de serviços – bancos, mercados, restaurantes, escritórios de advocacia, clínica veterinária, entre outros – que tornam desnecessário o deslocamento do morador para o centro histórico de Cabo Frio. Este fenômeno acontece em outras cidades, mas é aqui onde moramos que vivenciamos estas transformações e que merecem algumas observações.

Cabo Frio vem se modernizando lentamente desde que a indústria salineira se instalou como economia da segunda metade do século XIX até meados do século XX. Os reflexos na cidade e na sociedade foram muitos. A Álcalis inaugurou um novo momento de revitalização econômica quando o mercado salineiro perdia fôlego. O boom imobiliário a partir dos anos de 1960/70 marca outro grande momento da economia local. Os reflexos positivos e negativos foram enormes. E ficou claro que as elites cabo-frienses não tiveram um projeto para esta cidade que se alterava visivelmente. Sua desfiguração se deu como se fosse uma fatalidade.

Mas voltemos para algumas transformações do centro da cidade. Quando há 40 anos vim morar em Cabo Frio, esta era uma cidade em que em seu centro era comum se ver o prefeito, o promotor público (me lembro do fácil acesso ao dr. Sebastião Fador Sampaio), o juiz (dr. Leomil Antunes Pinheiro saía a pé do Fórum para almoçar no centro), os vereadores, os comerciantes, professores, médicos, jornalistas e radialistas, as figuras populares (quem não se lembra do engraxate Gadabá ali em frente à Defensoria Pública?), escritores, poetas (Victorino Carriço era uma lenda caminhante), artistas plásticos, músicos, enfim, a visibilidade criava valores importantes de transparência e de compromissos profissionais.

Dava-me com o dentista e cronista Antonio Terra (a casa dele ficava no Largo Santo Antonio). Para mim, ele é bem representativo desse cabo-friense ligado à história de vidas de sua cidade. Ao conversar com Antonio Terra me sentia conectado do século XX ao século XIX. Um Cabo Frio contínuo. Antonio Terra era bem crítico, o que dava uma particularidade especial ao seu texto. Hilton Massa, mais voltado para a história da cidade, também fazia-nos estar ligado a essa totalidade Cabo Frio. O escritor Célio Mendes Guimarães é outro cabo-friense que nos liga à vida sempre recriada desta cidade. Os três escreveram livros importantes para se compreender Cabo Frio. Os três facilmente os encontrávamos no centro da cidade. São intelectuais que estão antenados com o presente e que fizeram observações valiosas numa declaração de amor a esta cidade.

Bem, víamos andando no centro e tínhamos acesso, por exemplo, aos prefeitos e depois ex-prefeitos Otime Cardoso dos Santos, Antonio Castro, Edilson Duarte, José Bonifácio, Ivo Saldanha – Hermes Barcellos, Marquinho Mendes e Alair Corrêa foram mais reservados -, o deputado Wilson Mendes, além de tantos vereadores, cito alguns, Antonio Carlos Trindade, Walter Bessa, Aires Bessa, Beto Nogueira, Aroldo Menezes, Osmar Sampaio, Alcineides Souza, Milton Roberto, Gustavo Beranger, Rui Machado, Waldir Aguiar, Wilmar Monteiro, Walfredo Gordo, Manoel Justino, Acyr Rocha, Oswaldo Rodrigues, Aristarco Acioli, Octávio Raja Gabaglia, Álvaro Rosa, entre outros (dos vereadores, a maioria ainda vive).

Esta variedade de circulação dos mais diferentes personagens da cidade no território central não existe mais. Trata-se de uma realidade: o centro de Cabo Frio perdeu sua centralidade. Uma centralidade que durou séculos. Uma centralidade em que você até arriscaria pensar que dava acesso ao espírito de uma cidade.

No centro continuam a Igreja Matriz, a Câmara Municipal, a Prefeitura, o Charitas, o Convento, o antigo prédio onde está a Biblioteca, as plataformas religiosas, políticas, comerciais, hospitalares e até culturais. Mas estamos diante de uma outra cidade, em que a invisibilidade foi entronizada.

  • José Correia Baptista é jornalista, sociólogo e ex secretário municipal de cultura de Cabo Frio.
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6 comentários em “Um certo Cabo Frio – José Correia Baptista”

  1. O tempo é uma sucessão de (agoras) .
    A cidade que amávamos ficou em algum lugar , esquecida no coração.
    As ruas da cidade e sua gente , agora são outra civilização.

    1. Meu queridíssimo amigo Luiz Antônio. Entra no face de Marcia Quaresma e dali estabelecemos nosso contato. Agora, vc foi longe, lá na assinatura de meus quadrinhos. Abração.

  2. Saudades, Ana Maria. Avise aos amigos quando você vier a Cabo Frio. Você tem o face da Márcia para marcarmos um reencontro. Beijos e agradeço o elogio. Valeu!

  3. Eu, que saí de Cabo Frio há 27 anos, não a reconheço mais. Há poucos anos quando aí estive, não consegui localizar endereços conhecidos e íntimos da Av. Assunção do meu tempo…

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