COZINHA

Nessa tarde de abril minha caravana chegou à cosmopolita cozinha desta casa. Venho da sala. Caminhando com calma por entre as falésias do corredor. Procurando um local onde possa levantar a minha cabana para pernoitar. Na cozinha o sol se põe mais cedo. E de acordo com o refogado o pequeno basculante prende a respiração abrindo assim nosso apetite. A chegada do meu cansaço é saudada com um café. Por algum motivo, a mosca solitária que zunia por aqui, se incomoda e senta no azulejo fresco. Penso em matá-la, mas a tarefa é inviável. Quando menino eu acreditava que o maior enigma da terra dizia respeito aos cavalos que dormiam de pé. Só podia ser um animal enfeitiçado, mágico, escondendo seus poderes atrás daqueles relinchos zombeteiros.

No entanto, depois de grande, encontrei animal capaz de me oferecer enigma maior. As moscas dormem acordadas! São frias. Levantam vôo somente quando a mão humana da morte já se pensa vitoriosa. Naquela época, um sujeito da cidade vinha a casa de minha avó vender tecnologias. Foi através dele que conheci aquela, que para mim, foi a maior invenção humana, o papel pega-moscas!

Moscas e formigas! Exceto esses não há outros seres vivos nessa paragem. São ervas desidratadas, animais congelados e grãos polidos e laminados. A cozinha também é o lar dos utensílios. Da versátil colher de pau ao específico batedor de ovos. Aqui ocorre a transubstanciação das frutas: de perdidas pelo excesso de maturidade ao renascimento na compota açucarada.

Então anoitece e as chamas do fogão vibram. E se a sala ganha música a cozinha fala. Pede uma pitada de sal. Pergunta se apreciam a pimenta. A essa hora cada cômodo da casa parece um vilarejo com suas luzes e movimentações. Mas quem viaja por aqui pode garantir que a cozinha continua sendo o entreposto mais movimentado desse mundo todo.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 28 de abril de 2020.

Compartilhe:
RSS
Follow by Email
Facebook
Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *