A CARA DA CRISE

A cara da crise

Cancelamento dos contratos temporários e das licitações na administração direta e indireta (Comsercaf) e exoneração de cargos comissionados (portarias ou cargos de confiança). São as decisões do governo Adriano Moreno/Cati para enfrentar a crise.

Vai sobrar grana?

A prefeitura deu um passo atrás e a suspensão dos contratos temporários será restrita a área da Educação. Ora, os recursos do FUNDEB (Governo Federal) cobrem 75% da folha de pagamentos dessa área. Vai sobrar grana?

A crise das cestas básicas

Os vereadores continuam profundamente insatisfeitos com a condução da secretaria de assistência social, leia-se professora Marta Bastos, que foi indicação direta da “República do Edifício Lila”: “Não adianta colocar a cesta básica em cima do túmulo da pessoa” – vereador Luis Geraldo, presidente da câmara.

Um certo Cabo Frio – José Correia Baptista

O centro de Cabo Frio perdeu a sua centralidade há muito tempo. Centralidade comercial, bancária, dos serviços, até dos encontros pessoais casuais (“por onde você anda?”). Hoje é comum você rever pessoas não mais no centro da cidade, mas no Shopping Park Lagos, que reúne ali os serviços que um dia estavam concentrados no centro de Cabo Frio. Com a vantagem da segurança e do piso nivelado que facilita o caminhar das pessoas idosas e cadeirantes.

Bairros como São Cristovão, por exemplo, têm hoje toda uma estrutura de serviços – bancos, mercados, restaurantes, escritórios de advocacia, clínica veterinária, entre outros – que tornam desnecessário o deslocamento do morador para o centro histórico de Cabo Frio. Este fenômeno acontece em outras cidades, mas é aqui onde moramos que vivenciamos estas transformações e que merecem algumas observações.

Cabo Frio vem se modernizando lentamente desde que a indústria salineira se instalou como economia da segunda metade do século XIX até meados do século XX. Os reflexos na cidade e na sociedade foram muitos. A Álcalis inaugurou um novo momento de revitalização econômica quando o mercado salineiro perdia fôlego. O boom imobiliário a partir dos anos de 1960/70 marca outro grande momento da economia local. Os reflexos positivos e negativos foram enormes. E ficou claro que as elites cabo-frienses não tiveram um projeto para esta cidade que se alterava visivelmente. Sua desfiguração se deu como se fosse uma fatalidade.

Mas voltemos para algumas transformações do centro da cidade. Quando há 40 anos vim morar em Cabo Frio, esta era uma cidade em que em seu centro era comum se ver o prefeito, o promotor público (me lembro do fácil acesso ao dr. Sebastião Fador Sampaio), o juiz (dr. Leomil Antunes Pinheiro saía a pé do Fórum para almoçar no centro), os vereadores, os comerciantes, professores, médicos, jornalistas e radialistas, as figuras populares (quem não se lembra do engraxate Gadabá ali em frente à Defensoria Pública?), escritores, poetas (Victorino Carriço era uma lenda caminhante), artistas plásticos, músicos, enfim, a visibilidade criava valores importantes de transparência e de compromissos profissionais.

Dava-me com o dentista e cronista Antonio Terra (a casa dele ficava no Largo Santo Antonio). Para mim, ele é bem representativo desse cabo-friense ligado à história de vidas de sua cidade. Ao conversar com Antonio Terra me sentia conectado do século XX ao século XIX. Um Cabo Frio contínuo. Antonio Terra era bem crítico, o que dava uma particularidade especial ao seu texto. Hilton Massa, mais voltado para a história da cidade, também fazia-nos estar ligado a essa totalidade Cabo Frio. O escritor Célio Mendes Guimarães é outro cabo-friense que nos liga à vida sempre recriada desta cidade. Os três escreveram livros importantes para se compreender Cabo Frio. Os três facilmente os encontrávamos no centro da cidade. São intelectuais que estão antenados com o presente e que fizeram observações valiosas numa declaração de amor a esta cidade.

Bem, víamos andando no centro e tínhamos acesso, por exemplo, aos prefeitos e depois ex-prefeitos Otime Cardoso dos Santos, Antonio Castro, Edilson Duarte, José Bonifácio, Ivo Saldanha – Hermes Barcellos, Marquinho Mendes e Alair Corrêa foram mais reservados -, o deputado Wilson Mendes, além de tantos vereadores, cito alguns, Antonio Carlos Trindade, Walter Bessa, Aires Bessa, Beto Nogueira, Aroldo Menezes, Osmar Sampaio, Alcineides Souza, Milton Roberto, Gustavo Beranger, Rui Machado, Waldir Aguiar, Wilmar Monteiro, Walfredo Gordo, Manoel Justino, Acyr Rocha, Oswaldo Rodrigues, Aristarco Acioli, Octávio Raja Gabaglia, Álvaro Rosa, entre outros (dos vereadores, a maioria ainda vive).

Esta variedade de circulação dos mais diferentes personagens da cidade no território central não existe mais. Trata-se de uma realidade: o centro de Cabo Frio perdeu sua centralidade. Uma centralidade que durou séculos. Uma centralidade em que você até arriscaria pensar que dava acesso ao espírito de uma cidade.

No centro continuam a Igreja Matriz, a Câmara Municipal, a Prefeitura, o Charitas, o Convento, o antigo prédio onde está a Biblioteca, as plataformas religiosas, políticas, comerciais, hospitalares e até culturais. Mas estamos diante de uma outra cidade, em que a invisibilidade foi entronizada.

  • José Correia Baptista é jornalista, sociólogo e ex secretário municipal de cultura de Cabo Frio.

Lima Barreto, Cronista do Rio.

Lima Barreto, Beatriz Resende (Organização)

Organizado por Beatriz Resende, especialista na obra de Lima Barreto (1881-1922), este livro – uma coedição com a Fundação Biblioteca Nacional – reúne alguns dos textos mais importantes e saborosos do escritor sobre a cidade do Rio de Janeiro. Nas páginas de Lima Barreto – cronista do Rio, passeamos pelas ruas da capital carioca, do final do século XIX a meados do XX, seguindo de perto o olhar atento e crítico do autor, em crônicas que espelham vários pontos e bairros do Rio, seus principais logradouros e sua mais viva expressão cultural. Para enriquecer o volume, as narrativas são ilustradas com fotos da época, do acervo da Biblioteca Nacional: são imagens do Teatro Municipal, das praças, da Lapa, das ruas do Centro, de Botafogo, do Passeio Público, entre outras. Uma merecida homenagem a Lima Barreto, escritor que morreu esquecido, vítima de preconceito e incompreensão.

LIÇÕES DA PANDEMIA COVID-19

A pandemia do Covid-19 e a consequente crise econômica está massacrando emocionalmente e psicologicamente grande parte da população brasileira. Isso sem falar da situação real dos mortos e da dor que acomete todas estas famílias.

Entretanto, está dando uma “lição de Brasil real ” a todos aqueles que preocupados com o seu dia a dia não observavam o que de fato acontece no país, principalmente, a elite financeira e uma grande parte da alta classe média que só tinha olhos para seus problemas individuais e diários.

Primeiro está mostrando cerca de 40 milhões de pessoas que são invisíveis ao sistema. Pessoas que não tem emprego formal, que sofrem diretamente os efeitos do isolamento social e da repentina parada do giro da economia. Estão sem renda e “mendigando” uma ajuda de três parcelas de R$ 600 reais que a Caixa Econômica Federal não consegue atender de forma adequada e com a velocidade necessária, humilhando as pessoas aglomerados em filas e submetendo-as a risco de contaminação pelo corona vírus, devido a uma burocracia infernal que criou. É óbvio que me refiro ao alto escalão da CEF e não aos funcionários das agências.

Mostra ainda cerca de 20 milhões de pessoas que também invisíveis estão de fora desta ajuda por motivos diversos. Muitas nem CPF’s têm. Essas pessoas, muitas moram nas ruas, outras nos rincões do país, e vivem do que o dia pode oferecer em suas diversas formas de luta pela sobrevivência.

Está mostrando de uma forma clara como nunca os grandes aglomerados urbanos que comumente chamamos de favelas, mas muitas vezes sem avaliar suas consequências mais profundas. É um quadro de desigualdade social que está sendo “esfregado” na cara da sociedade brasileira com as mazelas de uma gente sofrida, mas que luta por uma vida melhor.

A pandemia, após o agravamento do quadro nas grandes cidades, está mostrando também a falta de estrutura da saúde pública brasileira. A imensa maioria dos mortos são pobres com quase nenhum acesso a saúde de base.

É certo que sistema de saúde nenhum no mundo está preparado para um quadro como este, mas no Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, a pandemia assume claramente um corte de classe social. Faltam leitos de UTI’s apenas para pacientes do SUS. E isso está levando a milhares de mortes de forma entristecedora.A rede privada nitidamente está reservando leitos para a elite usuária dos caros planos de saúde.

Está mostrando também por parte das autoridades sanitárias a falta de planejamento, de competência e agilidade nas decisões de alternativas complementares a rede pública, como por exemplo, a construção dos hospitais de campanha.Em 90% dos casos estão com os procedimentos atrasados. Este atraso também está custando vidas.  Isso sem contar os casos de superfaturamento que começam a aparecer. Não há uma testagem adequada da população para que se possa minimamente traçar uma estratégia mais adequada para enfrentar com mais eficiência esta crise. Todos os especialistas reconhecem uma enorme subnotificação de casos no país.

Enquanto isso, o presidente Bolsonaro que deveria estar na liderança do processo de combate a pandemia, de forma torpe e doentia, vive criando crises políticas, inclusive dentro do próprio Ministério da Saúde, que deveria ter toda a sua atenção voltada a este enfrentamento. As pesquisas de opinião já começam a refletir este comportamento.

Ele respondendo ontem a uma pergunta feita por um jornalista sobre as mortes, disse: “E daí? Lamento. Sou Messias, mas não faço milagres”. Revelou sua total falta de solidariedade e empatia com a tragédia que nos acomete. Revelou também os seus já conhecidos traços de psicopatia e sociopatia. Lamentável e inaceitável sob todos os aspectos.

Escrevo isso, hoje, num tom de desabafo, preocupado com um futuro incerto que nos espera. Estamos, inclusive, num ano eleitoral, mas ninguém ainda consegue pensar nisso de forma prática e objetiva. Quem é pré-candidato, como eu, procura se manter ativo nas redes sociais, mas política se faz no contato diário, dialogando, conversando olho no olho com a população.

Sinceramente, não sou especialista em saúde pública, epidemiologia, curvas de infectados, isolamento social, além de outras coisas, mas procuro me informar e acompanhar o noticiário, e confesso, tenho imenso receio de como sairemos deste quadro tão preocupante. O que será esse “novo normal” depois de tudo isso?

Sugiro neste momento aumentar o nosso espírito de solidariedade com o próximo, respeitar as normas de comportamento social saudável para não sermos infectados e torcer para que o país se recupere o mais rápido possível.

E no campo político, penso que devemos ser implacáveis com aqueles que ao longo de seus mandatos no executivo não trataram a saúde pública como ela merece, e também, com aqueles que com mandato no legislativo não cumpriram com seu papel fiscalizador nesta área.

Constituição, Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Claudio Leitão é economista, professor de história e pré-candidato a vereador pelo PDT.

COZINHA

Nessa tarde de abril minha caravana chegou à cosmopolita cozinha desta casa. Venho da sala. Caminhando com calma por entre as falésias do corredor. Procurando um local onde possa levantar a minha cabana para pernoitar. Na cozinha o sol se põe mais cedo. E de acordo com o refogado o pequeno basculante prende a respiração abrindo assim nosso apetite. A chegada do meu cansaço é saudada com um café. Por algum motivo, a mosca solitária que zunia por aqui, se incomoda e senta no azulejo fresco. Penso em matá-la, mas a tarefa é inviável. Quando menino eu acreditava que o maior enigma da terra dizia respeito aos cavalos que dormiam de pé. Só podia ser um animal enfeitiçado, mágico, escondendo seus poderes atrás daqueles relinchos zombeteiros.

No entanto, depois de grande, encontrei animal capaz de me oferecer enigma maior. As moscas dormem acordadas! São frias. Levantam vôo somente quando a mão humana da morte já se pensa vitoriosa. Naquela época, um sujeito da cidade vinha a casa de minha avó vender tecnologias. Foi através dele que conheci aquela, que para mim, foi a maior invenção humana, o papel pega-moscas!

Moscas e formigas! Exceto esses não há outros seres vivos nessa paragem. São ervas desidratadas, animais congelados e grãos polidos e laminados. A cozinha também é o lar dos utensílios. Da versátil colher de pau ao específico batedor de ovos. Aqui ocorre a transubstanciação das frutas: de perdidas pelo excesso de maturidade ao renascimento na compota açucarada.

Então anoitece e as chamas do fogão vibram. E se a sala ganha música a cozinha fala. Pede uma pitada de sal. Pergunta se apreciam a pimenta. A essa hora cada cômodo da casa parece um vilarejo com suas luzes e movimentações. Mas quem viaja por aqui pode garantir que a cozinha continua sendo o entreposto mais movimentado desse mundo todo.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 28 de abril de 2020.