REPENSANDO O CONTRATO SOCIAL – Rogério Carvalho (*)

A pandemia do covid-19 estendeu diante dos nossos olhos uma incômoda crise humanitária, seja pelo despreparo do neoliberalimso em lidar com as questões sociais advindas com a doença , seja pelas questões morais envolvidas no seu combate.

Como se não bastassem os desafios do combate à própria doença,no Brasil ainda temos que lidar com a institucionalização da ignorância promovida pela eleição de Jair Bolsonaro que, cercado por um grupo ideologicamente bitolado, tem lidado com a pandemia a partir de uma espécie de terraplanismo sanitário, se contrapondo à ciência, aos fatos e caminhando na contramão do mundo.

O Brasil reúne todas as condições para ser um dos países mais afetados pela pandemia que tem ceifado vidas em países com qualidade de vida muito superior à nossa.

A nossa sociedade, além de historicamente marcada por desigualdades sociais profundas é habituada à remediação, fazendo com que os apelos por prevenção sejam negligenciados por boa parte da população. Adicione à essa realidade histórica o discurso anticiência e antifatos de um governo que tem encontrado eco no cotidiano, seja pela ignorância de uns ou pela arrogância de outros. Temos assim, o pior cenário para um ser humano se proteger de uma pandemia e as melhores condições para um vírus se propagar.

Foi nesse contexto que assistimos na última semana um pronunciamento no qual o presidente defendeu abertamente a flexibilização do isolamento social e atacou governadores que adotaram medidas no sentido de combater o corona vírus.

Se o discurso do presidente foi resultado de uma pressão ou não do mercado financeiro não importa, afinal a escola que orienta a política econômica do seu governo não ministra a matéria “Estado de bem-estar social”. O que merece atenção são as consequências que a reabertura do comércio poderá provocar. Não estamos no Japão, no qual há economia de toques e os modos são comedidos. Japoneses praticam a auto-reclusão ao menor sinal de sintoma de enfermidade. Estamos falando do Brasil, país no qual se vê com as mãos e os espaços individuais são praticamente coletivos.

A adoção do isolamento social é fundamental para minimizar os efeitos da pandemia numa sociedade cujo sistema de saúde já não consegue atender as demandas em situações normais, até porque nenhum sistema de saúde do mundo estava preparado para suportar o volume de infectados pelo covid-19. “Mas e a crise econômica?” Muitos se perguntarão. “Mas e o Estado?” Devolvamos a pergunta. Se por um lado a escola de Chicago não preparou o Minisitro Paulo Guedes para o “Welfare State” aí está uma ótima oportunidade para que ele aprenda, mesmo que a contragosto, os caminhos da proteção social. Na mesma medida os brasileiros poderão compreender a importância vital da presença do estado e na economia e no cotidiano da sociedade.

Quando na semana do período previsto para ser o início do pico de contaminação discutimos a reabertura do comércio, estamos na verdade discutindo o preço da vida. E quando ponderamos sobre grupos de riscos estamos debatendo sobre quem deve ou não viver. Pode não parecer, mas o momento que estamos vivendo é uma conclamação à nossa humanidade. Estamos sendo convidados a pensar a nossa própria existência individual e coletiva. É como se precisássemos reavaliar as cláusulas do nosso contrato social para podermos assim reorganizar as nossas prioridades sociais, políticas e econômicas.

(*) Professor de História.

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