O PORTA-VOZ

O discurso do dia 24 de março de J.B. não deveria ser visto como mais um dos seus muitos absurdos verbais. J.B. é um animal, mas um animal político. Sabe o que fala, quem defende e sabe com quem fala. É uma jogada calculada avalizada por um percentual de 35% da sociedade brasileira que aprova a forma como tem reagido diante da crise do Corona Vírus.

Como animal político que é, joga com as armas que domina melhor para se manter no jogo. A manutenção da polarização a partir da escolha de inimigos claros para se contrapor (qualquer militar adora a retórica dos inimigos). Nos tempos recentes de deputado escolheu Maria do Rosario e Jean Willis como inimigos preferenciais aproveitando-se do enorme racismo estrutural envolvendo a defesa das bandeiras dos direitos humanos, das lutas feministas e da causa LGBT.

Agora aponta suas armas para a Imprensa, a Ciência e os prováveis adversários políticos de 2022, contando com o sucesso recente de sua ascensão como legítimo contestador do “politicamente correto” e da baixa política da troca de favores (de onde sempre se alimentou). Para o seu público, essa retórica continua funcionando e devemos analisar esse fenômeno com mais cuidado. Pois é ele que o sustenta.

O que parece claro é o que ele menos demonstra. O seu discurso não deve ser lido de forma apartada dos recentes movimentos protagonizados por Roberto Justus, pela Havan e pela Madero (incluindo aí Luciano Huck, um dos seus sócios, afinal de contas, o que ele fala não é o que ele faz). J.B. age como legítimo porta voz do patronato brasileiro e como defensor de suas causas, representantes legítimos de um capitalismo raiz que relativiza qualquer questão humanitária, previdenciária ou trabalhista a partir da leitura fria de números e dados que indiquem margem maior ou menor de seus lucros. Nesse sentido, nem J.B., nem seus patrões-empresários devem ser vistos como um Mal. Apenas como capitalistas radicais.

Vale relembrar que o último grande movimento desse tipo de capitalismo radical foi o experimento dos campos de trabalho na Alemanha nazista, chamados de forma imprecisa de campos de concentração e sendo lidos na história apenas como um exemplo de Mal. Não era um Mal. Era o movimento capitalista na sua essência. Cada campo de trabalho era financiado por grandes empresários alemães (“se é Bayer é bom”) que pagavam ao Estado alemão para receber mão de obra gratuita para as fábricas que acompanhavam cada campo. O Estado Alemão vestindo Hugo Boss foi julgado por seus crimes nos Tribunais de Guerra, mas a alta burguesia alemã, que financiou essa aventura, saiu ilesa e contabilizando altos lucros. Afinal, na lógica do capital, antes de ser um Mal, qualquer guerra é antes de tudo um negócio.

Do lado oposto da retórica do patronato, observarmos que muitos dos trabalhadores e trabalhadoras que continuam com suas atividades, enfrentando todos os riscos do momento, usam como justificativa um medo real, concreto e muito conhecido. Temem mais o Desemprego do que a Morte. Só conhecem esse medo aqueles vivem muito próximos da extrema miséria, da fome e da situação de rua. Mais um sintoma do Capitalismo Raiz que despreza a abordagem do Capitalismo de Bem Estar Social que surgiu depois da II Guerra e, dentro dos ciclos do Capitalismo, reaparece nos momentos de crises que o próprio Capitalismo produz.

J.B. não é o Mal. É um fenômeno do Capitalismo. Deve ser encarado como tal, longe do folclorismo que ele próprio alimenta sobre a sua figura. Vai esticar a corda para tensionar todas as esferas institucionais no Executivo, no Legislativo, no Judiciário e nos setores mais progressistas e conservadores da sociedade civil. É a sua forma de se colocar em evidência, sua forma de fazer política e é como aparece melhor para o seu público. O perigo maior do momento é esse tipo de tensionamento acontecer em um período de isolamento social, onde a participação popular fica amarrada a textos para redes sociais, assinatura de manifestos virtuais e gritos nas janelas (ainda me recuso a bater panelas). A estratégia desse empresariado e do seu porta voz na presidência está clara. A dos setores progressistas nem tanto. Em meio ao excesso de informação e de tantos posicionamentos excessivamente passionais (que diminuem o debate e aumentam a polarização), fico em dúvida se estamos produzindo mais ruído do que ação efetiva. Afinal, os setores progressistas continuam sendo pautados por suas falas e ações e a bolha considerável dos 35% de aprovação que o protege, continua intacta. O momento pede atenção não somente com o vírus. Atenção, Estratégia e Ousadia.

O que fazer?

Bruno Peixoto Cordeiro

Trabalhador da Cultura.

25/03/2020

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