A LAGARTIXA HORROROSA PARA QUEM TORCI NESSA NOITE

No alto da pilastra enraizaram o jovem refletor. E ele, como todo sujeito que acaba de conquistar a vaga, mostra serviço. Ilumina mais do que está indicado na etiqueta colada em suas costas. É um facho concentrado e simpático. Suponho que por isso atraiu tantos insetos. Os pequenos voadores rodopiam num atletismo aéreo bonito de ver. Mas, logo que cansam, pousam na madeira e fecham os olhos como quem deita na areia da praia a fim de se bronzear.

O ambiente convida também uma lagartixa. Me impressiona sua cor de pele de filhote recém nascido. É horrorosa! Mas é um animal tentando sobreviver, como tantos outros nesse mundo. A madeira envernizada e escura não lhe propicia um palmo de camuflagem. Entretanto, em tempos como esse, é preciso ter paciência e esperar. É o que faz a lagartixa que me parece estar faminta, pois, ainda que eu não entenda nada sobre elas, sei o que é ter fome.

Com seus dedos abertos ela se mantém colada na madeira. O corpo está retorcido, curvado como um pedaço de lua crescente. Deve ter chegado assim e preferiu não se ajeitar para não chamar mais a atenção dos insetos. A luz é uma dádiva! Penso eu. Afinal, embora exista o perigo iminente do predador, estão todos voando ali perto.

Me ponho de expectador. Quero ver a lagartixa dar o bote certeiro sem cair na face fria desse piso feio. A coisa é muito mais interessante que um programa de bicho na TV, mesmo que lá seja um tigre e um cervo brigando pela vida.

Aqui, torço pela lagartixa. Talvez sua maior alegria nessa vida seja engolir um inseto. No entanto, a chuva que não tem nada com isso, além de sua necessidade, chega sem pedir licença. Cai forte, respinga em tudo e espanta todos, inclusive eu.

Entro e mato um mosquito. Será que lagartixa come inseto morto?

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 20 de março de 2020

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