UM JOVEM CASAL

É jovem esse casal que eu agora vejo. Ela grávida, com a pele da barriga esticada a ponto de me dar agonia. Parece que vai explodir ali mesmo na calçada para, de súbito, nascer uma criança que saiba andar e falar. É que nesse mundo é preciso nascer sabendo muitas coisas para poder sobreviver a esses homens que nos cobram duas vezes por um mísero AS.

Porém a barriga permanece porque ainda não é hora do parto. E eu não sei se o rapaz está chegando ou saindo. Mas eles se abraçam com uma força cuidadosa. Ele sequer desce da bicicleta velha. Tem as mãos sujas de graxa e um boné empinado no alto da cabeça. Logo se beijam na via pública sem qualquer constrangimento, afinal os jornais ainda não noticiam a ditadura.

Há entre eles algo que condição política alguma poderá impedir. É o segredo cochichado ao pé do ouvido. Ela ri. Ele franzi a testa. Talvez façam promessas, uma noite sensual a essa altura do campeonato ou um doce de abóbora com coco. Não sei.

Olho para os lados, dizem que a cidade está perigosa. Receio que alguém espione os cochichos desses jovens que agora vejo. Ultimamente fiquei demasiado prevenido e creio que esse pode ser um sinal de que não sou mais tão jovem quanto esse casal que se beija e faz promessas sem se preocupar com quem os observa.

Por fim, sigo adiante. Na padaria peço uma xícara de café e telefone para minha namorada. Digo uma boa mentira e ela me responde que está a caminho! Quando chegar a beijarei na via pública e lhe contarei um segredo ao pé do ouvido! E que essa seja uma forma de lutar contra quem nos quer ver borocoxôs e assexuados no bonito sofá na sala de estar.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 11 de fevereiro de 2020

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