UM ESCONDERIJO PARA O CRONISTA.

O cronista se escondia. Pois devia a crônica ao seu editor. Mas o atraso do texto não era fruto de falta de inspiração. Tinha, inclusive, um bom motivo para começar a escrevinhação naquela tarde.

Entretanto, como os motivos são vivos e a inspiração uma mísera parte em todo trabalho, o texto se transformou e ganhou ares de conto. Era grande e tinha um personagem humano porque demasiado contraditório. Enfim, uma leitura que não cabia em um café e por isso o próprio cronista não o classificava como crônica.

Permanecia, portanto, o problema da falta da crônica. E, com as orelhas em pé para o que disse Vinicius de Moraes, o cronista não recorreu a falta de tema como tema para escrever. Saiu de casa. Indo passear pela cidade que bufava de tanta vida.

Eis então que entra em uma cafeteria e quem ele encontra senão o editor. O jovem apela, em seguida, para a ignorância, dizendo não saber se aquele que encontrou é aquele mesmo. É ele. E todos riem. O cronista é pego como o garoto que rouba brigadeiro da mesa antes de cantarem o parabéns, ou seja, não pode, mas se ninguém faz que graça tem?

Mais que isso, não pode se sentar. Ora, porque tem pressa. Está às voltas com o texto que não necessita de nada mais que um instante dentro do qual qualquer coisa possa acontecer. Entra na cafeteria um mendigo vestindo seus trajes de sempre. Estaciona em frente ao balcão e analisa os preços. Por fim, dirige-se aos homens que passam, reclama da inflação e pergunta, Mas é por causa da crise, ainda?

O caso chama a atenção e o cronista aproveita para sair de fininho. Afinal, ali era mesmo um péssimo esconderijo.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 30 de janeiro de 2019

Compartilhe:
RSS
Follow by Email
Facebook
Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *