O RETORNO DO CRONISTA!

Eram quase cinco horas de uma tarde de verão quando a moça passeava com sua bicicleta de raios brilhantes. Eu havia chegado de viagem e por isso abri a casa lentamente. Gostava de tudo quanto tinha ali. Mas queria que a poeira de outro lugar, trazida nas solas dos sapatos, se espalhasse por aquele chão. Que o odor, produzido pelo meu corpo sob o jugo de outro sol, entranhasse no ambiente e repousasse sobre os móveis.

Tinha comigo alguma tristeza. Por isso não acendi lâmpadas e não levantei os forros como quem procura verificar se está tudo em ordem. Não desejava fazer uma transição brusca. Sempre me desalentou voltar de uma viagem. É que sou um bicho rotineiro. Facilmente me afeiçôo à poeira mais oxidante, ao frio mais insípido, ao calor mais inapetente. Não obstante, o primeiro dia, seja onde e como for, me faz suar e feder como um organismo vivo e pronto a se defender de uma presença estranha.

Voltar, inclusive para minha própria casa, é experimentar o desconforto do novo.

Eu quis me proteger com a vagareza dos gestos. Joguei de propósito uma camisa suja sobre os títulos dos livros. Resolvi jejuar a fim de não abrir a geladeira e encontrar o que há duas semanas comia com tanto gosto.

Tentei que o reencontro com minhas coisas fosse cadenciado e sedutor. Mas a moça que passeava com a bicicleta de raios brilhantes refletia o sol todo dentro da minha casa mostrando-me a lista de coisas não resolvidas no ano passado.

Novamente como um bicho, agora ameaçado e humano, sai correndo com uma música na cabeça. Embora não enfrentasse o mal, me senti bem melhor quando cheguei em frente ao mar.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 15 de janeiro de 2020.

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