NÃO QUERO TOCAR! EU QUERO DESENHAR! José Henrique Nogueira (*)

Os pais que tentaram transferir seus desejos musicais para a filha.

Não me lembro direito o dia que aconteceu, afinal, depois de 12 anos a frente do Espaço Musical 23, acolhi, ouvi e trabalhei diversos desejos, passagens, frustrações musicais que sempre começam com uma boa e necessária conversa. E não foi diferente neste breve caso que vou relatar agora, não fosse o fato de que a menina que marcou o horário para conversar e conhecer o Espaço 23, lá esteve conforme combinado, entrou, trocamos algumas ideias, tocou alguns instrumentos, se despediu e nunca mais voltou. Mas apesar desse rápido encontro, tenho certeza que o trabalho foi muito bem realizado. Uma das melhores aulas da minha vida. Aula boa é aquela que o professor também aprende, se enriquece com o sofrimento e alegrias dos seus alunos, com qualquer faixa etária. Foi assim que aconteceu.

Ela tinha apenas 16 anos e foi ao Espaço 23 depois de um telefonema de sua mãe marcando comigo para que sua filha viesse conversar e conhecer o meu atelier e a proposta. Soube do meu trabalho por intermédio de amigos. Cheguei a perguntar pra mãe se em casa alguém tocava algum tipo de instrumento. Porém a negativa apressada, com certa ansiedade, de certa forma me cortando, na hora me pareceu apenas a pressa dos dias atuais. Mas tal desconforto, sobre minha pergunta: “- em casa alguém toca um instrumento musical?”, só pude entender e decifrar no final desse encontro.

Chegou na hora marcada. Eram 15 horas aproximadamente do mês de Dezembro, o sol estava queimando lá fora e ao entrar percebeu que o ar refrigerado estava funcionando muito bem. Sentou-se na cadeira que eu havia deixado já preparada para ela, o som ambiente escolhido foi Beatles instrumental. 

Sentou-se, e como sempre, começo perguntando se mora perto do estudio, se teve dificuldade de encontrar (meu estúdio é ligeiramente escondido), onde estuda, e aos poucos vou adentrando no tema que a levou a me procurar. A lembrar: a aprendizagem de um instrumento musical; violão ou teclado, pelo menos foi assim por telefone que sua mãe me falou. Aos poucos a conversa já girava em torno da música. Grupos, cantores e Djs que permeiam a juventude. Como recebo muitos adolescentes consigo trocar uma conversa sobre a cultura musical desta faixa etária com certa desenvoltura. Faltava entrar no tema em questão: a aprendizagem de um instrumento musical.

  • Pois então professor, (disse ela) na verdade estou aqui porque minha mãe e meu pai querem muito que eu aprenda um instrumento. 

Até então tudo certo. São inúmeros casos de procura no Espaço 23 para aprendizagem e prática de algum instrumento. De certa forma, como o espaço possibilita o acesso a vários instrumentos, para que o aluno possa entrar em contato, achava até então tudo iria correr tranqüilo não fosse o fato que ela assim que manuseou o violão, depois foi ao teclado e tocou a escala de Dó e por fim foi batería fazer um som livre em suas peças; em todos esses instrumentos ela tocou com muita cerimônia e desconforto. Logo percebi que teríamos um trabalho minucioso e longo pela frente. Nos sentamos e quando eu ia retomar um assunto, ela se antecipou e comentou assim:

  • Professor você já deve ter percebido que estou aqui mais por desejo dos meu país do que o meu próprio. Não tomei a iniciativa, não queria, nunca encostei nos instrumentos dos meus pais que estão guardados lá em casa.

Nesse momento surgia uma outra menina em minha frente. Outras informações estavam surgindo “instrumentos em casa”. Me organizei e me posicionei para deixá-la ao máximo à vontade para ela poder elaborar melhor sua fala.

  • Ah…! Então eles já tocaram, E ainda guardam seus instrumentos em casa. Comentei.
  • Dois instrumentos! Um teclado da minha mãe da época que tocava e o violão do meu pai que também antes de casar ter filhos. Entre eles eu. Tenho um irmão menor professor.
  • Certo, certo, continue 
  • Então. Eu fico assim sem saber o que fazer. Pensa só: Se tocar um instrumentos é tão bom assim, porque então pararam? Porque então eles não vieram para cá no meu lugar. Até entendo o valor da música na vida das pessoas. No colégio onde estudei tocava super bem flauta-doce, mas gostava mais da aula de arte. Gosto mesmo de desenhar. Ficar quietinha, em silêncio rabiscando meus cadernos,

Acho que o leitor já deve ter entendido que o encontro está chegando ao seu final. Os pais não haviam dito nada sobre seus instrumentos, ficando agora claro a pressa da mãe em desconversar este assunto, lá em minha conversa inicial. É muito comum o pai ou a mãe interromperem suas atividades musicais assim que casam. Vários motivos são alegados: falta de tempo, necessidade de trabalho, a insatisfação do(a) companheiro(a). Mas casos assim do casal cessar suas atividades musicais é mais raro. Fico pensando: a música suscita alguns sentimentos e fantasias que muitas das vezes podem ir de encontro a aquela proposta nova de união. Um pacto silencioso que pode trazer questões delicadas ao futuro do casal. Não entrevistei o casal, apenas estou costurando sobre inúmeros casos que aqui atendo de adultos que interromperam suas atividades musicais e que me procuram para reiniciar o contato com seu instrumento. O contato com lembranças prazerosas, com a alegria, fantasias, com o mundo subjetivo que a música oferece pode incomodar. Retomar esses sentimentos através da música pode suscitar, remexer sentimentos que muitas das vezes foram deliberadamente reprimidos, porém inconscientemente guardados com inúmeros afetos e desejos. O caso desses pais, que cobraram da filha, impuseram um desejo que não era dela, de certa forma transferiram para a filha uma parcela de um mundo recalcado, silencioso e velado para o casal, na esperança de aliviar um desconforto de ambos.

Eu não entrei em contato com os pais depois deste encontro. Enviei uma mensagem de texto relatando um pouco do meu encontro com a filha, comentei sobre as observações maduras e sinceras da filha acerca do seu “não desejo” pela música. Achei necessário expor, de forma breve, a reflexão da filha sobre os instrumentos musicais parados em casa, porém não entrei nos detalhes, nem tampouco sugeri que voltassem a tocar.  Agradeci. Me coloquei ao dispor da família. Me despedi. Nunca mais soube deles. Espero que os pais estejam tocando a vida. E a menina…desenhando suas fantasias e desejos. 

(*) Musicoterapeuta 

Mestre Educação Musical

Pós Graduado em Construtivismo e Educação
Diretor do Espaço Musical 23-Rio de Janeiro

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