SAÚDE PÚBLICA CAÓTICA

Qualquer pesquisa com credibilidade mostra que a área de saúde pública em Cabo Frio vive momento caótico. As reclamações vêm de todos os cantos e setores: da população mais pobre, a mais prejudicada aos funcionários da saúde, que se desdobram para manter o setor funcionando.

Não é possível, portanto que para 2020, o governo de Adriano Moreno corte 9 milhões, justamente na saúde pública. A projeção de receita aumenta em 71 milhões e o governo reduz o orçamento para a saúde. Maldade ou absoluta falta de planejamento?

JANELA DE NATAL – Rafael Alvarenga.

Eu os flagrei de maneira indiscreta. Também não vivo em apartamento e quando estou dentro de um deles sou atraído pela janela que me apresenta confortavelmente a humana vida dos outros. Do outro lado os dois sabiam que eu os espiava de forma direta, pois também me viam de olhos inteiros. Por isso, resolvi por me manter ali com as cortinas devassadas mostrando toda minha curiosidade. Se me gritassem algo como “Tá olhando o que, porra?” eu responderia estupefato “Ora ora onde está o espírito natalino?” Mas eles não me disseram nada e eu pensei “Que bom que ainda não vendemos armas nas farmácias.”

Não me insultaram. A bem da verdade creio que se aborreceram um com o outro. Era um casal já trazendo alguns cabelos brancos como legenda da idade. Estavam emperequetando a sala para o natal. E era assim que enfadavam-se: discutindo sobre a melhor posição para cada penduricalho. Eu, sujeito insensível, a certa altura só pensava em abrir a janela e gritar “O fim da tarde está ótimo para um sorvete! Saiam daí.”

Afinal, ponderava comigo entre as rabanadas que eram servidas, o que os coagia a tamanho sacrifício? Então olhei melhor! Olhei para as centenas de apartamentos ao redor; olhei para o apartamento em que eu estava. Era uma selva de brilhantes árvores artificiais, com estrelas que de cadentes tinham apenas a altura do andar onde concorriam.

Rafael Alvarenga

Niterói, 22 d dezembro de 2019

POEMA DE NATAL – Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

DIPLOMACIA POLÍTICA

DIPLOMACIA POLÍTICA

Tudo leva a crer que o vice-prefeito Felipe Monteiro realmente se desligou em definitivo do grupo político da dupla formada por Adriano Moreno e Antônio Carlos Vieira, o Cati. A separação, entretanto, não deve ser litigiosa, mas dentro do respeito às normas diplomáticas tão raras na política de hoje.

NOVOS CAMINHOS

O jovem vice-prefeito vai procurar seu próprio caminho político, mais a esquerda e popular que o desgastado governo pode oferecer. Felipe Monteiro é candidato a vereador e conta para isso com boa penetração na área estudantil, que construiu com base em sua militância.

AMPLIANDO A ÁREA DE INFLUÊNCIA

O presidente da câmara, Luis Geraldo está construindo uma forte nominata para o ‘Republicanos’ e ampliando sua área de influência política. O vereador é a principal liderança da centro-direita cabofriense, isto é, a chamada direita civilizada, que rejeita a truculência da ultra direita.

O JEITO DO ANTIGO PSD

Luis Geraldo cultiva e tem em mãos boa parte dos votos das tradicionais famílias cabofrienses, principalmente do centro da cidade. O presidente da câmara atua bem ao estilo do antigo PSD de Tancredo Neves, José Maria Alckmin e Benedito Valadares. Segundo alguns observadores tende a se tornar o novo Acyr Rocha” do legislativo cabofriense.

MARQUINHOS X AQUILES

Marquinhos Mendes assumiu o comando de toda a articulação política do PSDB. A partir de Brasília, o ex-prefeito “furou a fila” e tirou das mãos de Aquiles Barreto qualquer interferência sobre o “ninho tucano”, em Cabo Frio.

TÁBUA DE SALVAÇÃO?

A tendência de Aquiles Barreto é aproximar-se ainda mais do vereador Rafael Peçanha, visto pelo grupo do ex-presidente da câmara como a “tábua de salvação” da carreira política de Aquiles. O que emperra a aproximação é a disputa pela influência sobre os profissionais da educação.

O DESGASTE DE MARQUINHOS

Parte importante do grupo de Rafael Peçanha teme a proximidade com Aquiles Barreto, cuja imagem pública ainda está muito ligada aos governos de Marquinhos Mendes. O grupo teme que o desgaste de Marquinhos, com as contas reprovadas duas vezes pelo TCE-RJ cole no candidato do PV.

A ÚLTIMA NOITE DE NATAL – Graciliano Ramos

Os grandes olhos claros e aguados boiavam na sombra nevoenta, cheios de espanto. Esfregou-os, arrastou-se pesado e entanguido, mal seguro à bengala,sentou-se num banco do jardim, fatigado, suspirando, examinou a custo os arredores. Gastou uns minutos passeando as mãos desajeitadas na gola do casaco. 0 exercício penoso enfureceu-o. Resmungou palavras enérgicas e incompreensíveis, esforçou-se por dominar a tremura. Com certeza era por causa do frio que os dedos caprichosos divagavam no pano esgarçado e os queixos banguelos se moviam continuamente. Era por causa do frio, sem dúvida. Se conseguisse abotoar o casaco e levantar a gola, os movimentos incômodos cessariam.

Em que estava pensando ao chegar ali? Ia jurar que pensava em coisas agradáveis. Ou seriam desagradáveis? Pedaços de recordações incoerentes dançavam-lhe no espírito, acendiam-se, apagavam-se, como vaga-lumes, confundiam-se com os letreiros verdes, vermelhos, que se acendiam e apagavam também quase invisíveis na poeira nebulosa. Tentou reunir as letras, fixar a atenção nas mais próximas, brilhantes, enormes.

A igreja toda aberta resplandecia. O incenso formava uma neblina perturbadora. E, através dela, os altares refugiam como sóis, a luz das velas numerosas chispava nas auréolas dos santos.

Que doidice ! Não é que estava imaginando ver ali, nas transitórias claridades, a igreja vista sessenta anos antes? Tresvariava. Sacudiu a cabeça, afastou a lembrança importuna. De que servia desenterrar casos antigos, alegrias e sofrimentos incompletos?

O que devia fazer… Pôs-se a mexer os beiços, procurando nas trevas úmidas e leitosas que o envolviam o resto da frase. O que devia fazer… Repetiu isto muitas vezes, numa cantilena, distraiu-se olhando a chuva amarela, verde, vermelha, dos repuxos. Impossível distinguir as cores. Ultimamente a cidade ia escurecendo. As pessoas que transitavam junto aos canteiros sem flores eram vultos indecisos; .os prédios se diluíam nas ramagens das árvores, manchas negras; os letreiros vacilantes não tinham sentido.

O que devia fazer… De repente a idéia rebelde surgiu. Bem. Devia meter os botões nas casas e agasalhar o pescoço. Depois cruzaria os braços, aqueceria as mãos debaixo dos sovacos, ficaria imóvel e tranqüilo. Mas os dedos finos e engelhados avançavam, recuavam, não havia meio de governá-los. Se pudesse riscar um fósforo, chegá-lo a um cigarro, esqueceria os inconvenientes que o aperreavam: o frio, a dureza das juntas, o tremor, a zoeira constante, sussurro de maribondos assanhados. Dores errantes andavam-lhe no corpo, entravam nos ossos e vinham à pele, arrepiavam os cabelos, fixavam-se nas pernas, esmoreciam.

Agora não estava no banco do jardim, perto das estátuas, das árvores, do coreto, dos esguichos coloridos. Estava longe, a sessenta anos de distância, ajoelhado na grama, diante da igreja da vila. Os rostos embotados, que se dissociavam, juntaram-se no largo onde um padre velho dizia a missa da meia-noite. Fervilhavam matutos em redor das barracas, num barulho de feira, e uma sineta badalava impondo em vão respeito e silêncio. Os cavalinhos rodavam. Esgueiravam-se casais pelos cantos. O padre velho dirigia olhares fulminantes àquela cambada de hereges. Uma figura pequenina cantava os hinos ingênuos, de versos curtos, fáceis. Tudo parecera de chofre muito sério, eterno. Os hinos capengas elevavam-se, estiravam-se. A mulher tinha um rosto de santa e exigia adoração. Sessenta anos. As fachadas enfeitavam-se com lanternas de papel, janelas escancaradas exibiam presépios, listas de foguetes cortavam o céu negro. A sineta badalava, zangada. E o burburinho da multidão não diminuía.

Sessenta anos. Da cinza que ocultava os olhos frios saltou uma faísca; os alfinetes pregados na carne trêmula embotaram-se; o espinhaço curvo endireitou-se; um débil sorriso franziu os beiços murchos; os braços ergueram-se lentos, buscando a imagem de sonho.

Imagem de sonho, que doidice! Era apenas uma bonita criatura de bom coração. Ligara-se a ela. E dezenas de vezes tinham-se os dois ajoelhado ali na grama, olhando as lanternas, os presépios, os foguetes, o padre que dizia a missa da meia-noite. Algumas esperanças, muitos desgostos. Os meninos cresciam, engordavam. E no jardim da casa miúda um jasmineiro recendia.

Depois tudo fora decaindo, minguando, morrendo. Achara-se novamente só. Os filhos e os netos se haviam espalhado pelo mundo. Agora… Que extensa caminhada, que enormes ladeiras, pai do céu ! Já nem se lembrava dos lugares percorridos.

Conseguiu abotoar o casaco e levantar a gola.

Andar tanto e afinal chegar ali, arriar num banco, não perceber as letras que se acendiam . e apagavam.

Certamente àquela hora, diante duma igreja aberta, outro homem novo admirava outra pessoinha ajoelhada, sentia desejos imensos, formava planos absurdos. Os desejos e os planos iam desfazer-se como a. fumaça luminosa dos repuxos.

CANTIGA DOS PASTORES – Adélia Prado

À meia noite no pasto,
guardando nossas vaquinhas,
um grande clarão no céu
guiou-nos a esta lapinha.
Achamos este Menino
entre Maria e José,
um menino tão formoso,
precisa dizer quem é?
Seu nome santo é Jesus,
Filho de Deus muito amado,
em sua caminha de cocho
dormia bem sossegado.
Adoramos o Menino
nascido em tanta pobreza
e lhe oferecemos presentes
de nossa pobre riqueza:
a nossa manta de pele,
o nosso gorro de lã,
nossa faquinha amolada,
o nosso chá de hortelã.
Os anjos cantavam hinos
cheios de vivas e améns.
A alegria era tão grande
e nós cantamos também:
Que noite bonita é esta
em que a vida fica mansa,
em que tudo vira festa
e o mundo inteiro descansa?
Esta é uma noite encantada,
nunca assim aconteceu,
os galos todos saudando:
O Menino Jesus nasceu!

SEM SALÁRIOS EM DIA

Os sindicatos dos servidores públicos de Cabo Frio estão uma fera com a incapacidade da prefeitura de Adriano Moreno colocar em dia os salários dos servidores. É praticamente impossível imaginar que o prefeito busque a reeleição com esse quadro de rejeição quase absoluta.

A CRISE DO COMÉRCIO SÓ AUMENTA

Os comerciantes de Cabo Frio também vivem uma maré muito ruim. O número de lojas fechadas reflete uma realidade difícil para o pequeno empresário. A incapacidade da prefeitura em pagar salários em dia aos servidores é catastrófica para o comércio, na medida em que a prefeitura é a maior empregadora.

CAOS NA SAÚDE PÚBLICA

Por uma questão de justiça já que estamos entrando em ano eleitoral é preciso que se diga que o caos instalado na saúde pública municipal não é privilégio da prefeitura de Adriano Moreno. A bagunça generalizada acontece desde os governos de Alair Corrêa e Marquinhos Mendes, gerando crises sobre crises, inclusive intervenções pontuais.

CARA DURA!

Aquiles Barreto e Adriano Moreno comemoram a aprovação de suas contas pelo TCE-RJ. Não deveria ser objeto de comemoração, mas praxe da administração pública. Como os tempos são sombrios, o ex-prefeito Marquinhos Mendes, apesar de ter as contas mais uma vez rejeitadas, insiste em dizer que é candidato.

DE “ARMAS E BAGAGENS”

Ao mudar de “armas e bagagens” do MDB de Sérgio Cabral Filho para o PSDB de Aécio Neves, o ex-prefeito Marquinhos Mendes tenta buscar a sobrevivência política. Afinal os “bruxos” da política garantem que o “ninho tucano” tem imenso prestígio junto ao Judiciário. Não é verdade?

TUDO TÃO VAGO – Mário Quintana

Nossa senhora

Na beira do rio

Lavando os paninhos

Do bento filhinho…

São João estendia,

São José enxugava

e a criança chorava

do frio que fazia

Dorme criança

dorme meu amor

que a faca que corta
dá talho sem dor

(de uma cantiga de ninar)

Tudo tão vago…Sei que havia um rio…

Um choro aflito…Alguém cantou, no entanto…

E ao monótono embalo do acalanto

O choro pouco a pouco se extinguiu…

O menino dormira…Mas o canto

Natural como as águas prosseguiu…

E ia purificando como um rio

Meu coração que enegrecera tanto…

E era a voz que eu ouvi em pequenino…

E era Maria junto à correnteza,

Lavando as roupas de Jesus Menino…

Eras tu…que ao me ver neste abandono

Daí do céu cantavas com certeza

Para embalar inda uma vez meu sono!…