“A REVOLTA DA CACHORRA” por Rafael Alvarenga.

A cachorra está revoltadíssima com o cárcere privado na varanda dos fundos. São uns desalmados, ela diz entre os latidos. Diante da primeira urgência me recolhem ao submundo da habitação. Aqui ficam as coisas que não devem ser vistas pelas visitas. A pequena vira-latas quer saber quem vai chegar. Mas todos saíram e a única coisa que ela pode fazer é incomodar os vizinhos latindo e raspando a madeira com as unhas.

Quanto desespero! Uma hora depois chegam todos mais a visita. A porta dos fundos é aberta, entretanto a alta tábua de madeira é uma fronteira intransponível. A cachorra está acesa e late tudo que sabe.

A visita é um candidato a cargo público. Veste paletó nesse calor e garante que o primeiro passo para uma nação bem sucedida é acabar com os malfeitores. Discursa na cozinha adoçando o café com a ignorância das pessoas e depois passa tudo a limpo com a mais deslavada das mentidas “As estatísticas provam isso!”. Seu slogan traz uma arma na mão e a promessa da construção de mais de cinquenta presídios.

A família ouve e crê que a segurança surge quando o Estado dá à luz do dia a escuridão de uma casa de detenção ao invés da centelha viva de um centro educativo. Já a cachorra está obstinada a morrer latindo como um Kami-Kasi canídeo. Em sua função de fingir afeto e auxílio o candidato pede que soltem “a cachorrinha”. Inclusive aproveita-se para dizer que inocentes não devem permanecer em cárcere algum. Todos concordam. Retiram a tábua de madeira e num açoite selvagem a cachorra morde a perna do sujeito.

Foi um corre-corre. Um ai Jesus e outro minha Nossa Senhora! Sorte da cachorra que as eleições seriam somente no ano que vem. E que por isso, na cozinha, a única arma disponível ainda era a vassoura.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 25 de novembro de 2019

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