O GOLEIRO E O FRANGO – João Saldanha.

O GOLEIRO E O FRANGO

Posição ingrata é a do goleiro. Em todas as outras, não é raro aparecer o jogador jovem acabando com o jogo. No gol não dá pé. Para um goleiro fazer nome, são indispensáveis duas condições fundamentais: o amadurecimento do jogador e ganhar a confiança da torcida. Ambas excluem o goleiro recém-iniciado.

E não adianta pensar o contrário. No caso do amadurecimento do jogador é necessário que ele compreenda que está numa posição em que seu papel é apenas agarrar a bola e mais nada. Parece fácil para quem reúna as qualidades inerentes à posição. Mas acontece que o goleiro imaturo se preocupa em aparecer mais do que a realidade do jogo permite e cai do andaime ou então atravessa uma fase má.

É que muitas vezes o jogo não dá oportunidade ao goleiro de brilhar e só um goleiro cancheiro tem paciência para esperar pela outra partida. O garotão não espera. Sai da área e vai lá fora tentar aparecer, quer cortar centros em ângulo desfavorável, faz ponte para os fotógrafos, conversa com eles, enfim, por inexperiência, faz uma porção de coisas além da sua simples obrigação de agarrar a bola na sua hora. E a verdade, é que pouco adianta falar e ensinar porque é do próprio espírito dos jovem querer assaltar a lua logo que descobre a sua existência. Por enquanto, apesar dos progressos, isto ainda não está fácil. Pelo menos para os goleiros.

No outro caso, que é o de conquistar a confiança da torcida, a cana é mais dura ainda. O público só aceita o frango quando inclusive o goleiro reúne qualidades para engolir o galináceo com categoria, sem dar a impressão que ficou nervoso e pode engolir outros. Isto também é muito difícil que o goleiro jovem possa conseguir em meia dúzia de atuações por mais brilhante que tenham sido. Se na sétima partida vem o tal frango, a torcida implacavelmente berra que o cobra era um enganador.

É a típica posição onde a modéstia e a constância, aliadas às qualidades naturais de físico e reflexos, se transformam em leis invioláveis para o seguimento normal da mais dura carreira de jogador de futebol.

Se o Orlando do São Cristóvão, por exemplo, não entender bem isto, ele, que tem tudo para ir muito longe, pode, também, ir facilmente para o vinagre.

TUBARÃO PELÉ

Na esquina da rua Miguel Lemos, com Copacabana, Macaé (dono do biriba) discorria sobre a paixão brasileira por futebol. “Imaginem vocês que um dia nós estávamos no racha da praia quando a bola caiu dentro da água, mais ou menos ali onde dá pé na altura da barriga. Eu já ia entrar para buscar a bola quando vi, pertinho, um tubarão com aquela ponta de fora. Parei de estalo e pensei que o desgraçado ia rasgar a bola na ponta do bico e carregou ela lá pra longe. Eu só fiquei olhando a bola desaparecer na linha do horizonte.

Além de mim, estavam presentes as seguintes pessoas: Flávio Ramos, Benjamim, Lamana, Larry, Betovem, Washington e o italiano da banca de jornal. Eram duas e meia da madrugada de segunda-feira. Depois que Macaé contou o caso reinou o mais profundo silêncio e todos foram para casa dormir.

DO BURRO ATROPELADO À LUTA DO SÉCULO

Ontem aqui na página de esportes, publicamos uma fotografia do ex-campeão mundial de pesos pesados, George Foreman, carregando um bicho nas costas, como treinamento para uma luta contra cinco canadenses. O bicho é um terneiro “Hererford”, de duzentos e vinte e cinco quilos.

Francamente não vejo muita vantagem. O terneiro, ou bezerro, como chamam por aqui, está vivo e peso vivo é mais fácil de carregar do que peso morto. Vantagem faz um português que trabalha de ajudante no caminhão da carne que vem todos os dias (todos os dias, não. Em certas épocas o caminhão desaparece), trazer carne para o açougue aqui perto de casa.

O patrício carrega nas costas, com facilidade, um boi inteiro. Sobe e desce a escadinha do caminhão várias vezes e em vários açougues. O diabo é que não luta boxe e assim não terá seu retrato no jornal. É a triste sina dos carregadores de animais mortos. A propósito, lembro aquela história que corre na Limpeza Urbana: “Um dia ia o cidadão pela Rua Almirante Cockrane quando viu um burro ser atropelado e morto por um caminhão. Foi a um telefone, ligou para o LDU e disse “olha, tem um burro aqui que está morto na Rua Almirante…” mas ao tentar dizer o nome Cockrane embatucou e o funcionário mal-humorado berrou: “vá ver direito o nome da rua e depois dê a informação correta!” O pacato e exemplar cidadão foi. Meia hora depois voltou ao telefone: “Olha aqui é aquele cidadão…” e já o berro do funcionário: “qual cidadão? Ora pombas!” e o paciente cidadão disse: “É aquele… o do burro que morreu…” O funcionário perguntou: “Ah, sim, onde está o burro?” Veio a resposta: “O burro está na Rua Pareto”. O burocrata pipocou e berrou como de costume: “mas o senhor não disse que era Rua Almirante… não sei o que lá?” O cidadão com firmeza e já aborrecido respondeu enérgico: “Olha aqui ó gajo, era a tal Rua do Almirante, sim, mas era um nome muito difícil e levei-o para a Rua Pareto, está bom? Se quiser mande buscar o burro e se não quiser deixe-o lá. Pois dane-se, o burro é seu”.

O caso é que o George Foreman que treine de uma vez e o Cassius Clay também. Do contrário, a próxima luta que farão para decidir o título de campeão mundial será outra vez a luta do século. Mas não deste. A luta do século que vem.

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