O CACHORRO DO QUEIROZ – Rafael Alvarenga.

O cachorro do Queiroz

Na beira do mar a fragata estraçalha uma tainha. É cedo e a praia guarda um silêncio que poucos hão de encontrar. Mas o Queiroz vem caminhar com seu cachorro que, curioso, se aproxima dizendo “Que belíssima pescaria”.  A fragata nada responde. Não gosta do cachorro que tem cara de poema oportunista e insiste “Nada como ganhar por mérito, não é?” E a fragata com um pedaço de pele pendurada no bico responde “Não. Roubei de um albatroz porque muita coisa me favoreceu”.

Novamente abaixou a cabeça e continuou rasgando a carne do peixe quando o cachorro tornou a dizer “Roubar jamais é certo”. A fragata escorou o rabo da tainha com uma das patas e usando o bico arrancou as vísceras. Estava suja de sangue quando inquiriu “E o Queiroz seu dono, trabalha com o que?” Foi com um abano de orelhas que o cachorro respondeu “Negócios, ora”. Com o bico a fragata quebrou a espinha da tainha e ofereceu “Quer um pedaço?” O cachorro negou com repulsa “Só ração e patê”. Então a fragata engoliu com espinha e tudo e disse “Mas é melhor se preparar” e seguiu devorando o peixe. O cachorro quis saber “Me preparar pra que?” A ave passou a cabeça debaixo de uma asa e advertiu “No mundo selvagem as coisas são como são. No mundo deles as coisas são como estão”.

Sem entender o cachorro olhou para o Queiroz que já ia longe lhe chamando com um assobio e garantiu “Você é estranho. E olha como come…” A fragata dispensou a cabeça da tainha e concluiu “Aqui as coisas são assim. Lá – e apontou em direção ao Queiroz – hoje é ração e patê, amanhã é ele no xadrez e você sem dono, na rua, doido pra tirar pelanca da boca de outro.” Alçou vôo e gritou “Na bochecha da tainha tem carne”.

O cachorro olhou para a cabeça do peixe e recusou. Do sul vinham nuvens pesadas “É só uma tempestade. Os negócios e as representações devem estar seguros” pensou e correu, porque assim pensaria menos.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio 18 de novembro de 2019

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