A MOÇA NA BIBLIOTECA – Rafael Alvarenga.

A moça na biblioteca

A moça chega à biblioteca. Tem cabelos compridos e mãos de louça lavada. As unhas não foram destacadas por nenhuma cor sangrenta, assim como o corpo também não fora descortinado por nenhum decote refrescante.

As estantes quase escondem a moça. Mas como a biblioteca não forma nenhum labirinto não há por que ela se perder. Suas digitais correm pelos pés dos livros. Tateiam as numerações dos volumes, todavia seus olhos seguem pelos nomes dos autores. A moça acha os nomes estrangeiros lindíssimos!

O que deseja ler essa moça da qual nada se destaca? Talvez uma ficção para chamar de minha vida!

A moça agora procura algo entre as enciclopédias: o nome da guerra que trouxera seus antepassados, o ano em que inventaram a pílula anticoncepcional ou como funciona a televisão. Quem sabe o cabelo ruivo de seu avó e o fato de ser filha única ainda não se expliquem a tempo.

Ela continua. Passa por uma estante com temas de filosofia e mais outra sobre anatomia. No entanto não se demora ali. Prefere manuais bem objetivos e detesta jornais folhosos.

Para ela a biblioteca está sempre erma. Pois o silêncio alto e a atenção quando distante esvaziam os lugares do lado de fora da cabeça. Assim pensa a moça que tomou um atlas entre as mãos e se sentou para tirar os sapatos. Agora ela se concentra em lembrar-se de sua própria voz. Não consegue. Lembra-se, porém, da voz de seus cantores preferidos. Todos eles cantando lugares que o homem inventa.

Tem muitos sonhos essa moça. E a vida… A vida às vezes ela acha tão pouca…

 Rafael Alvarenga

      13 de novembro de 2019

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