SEM PERDER A TERNURA – Rafael Alvarenga.

Sem perder a ternura

Quando aquele pequeno cacto chegou à encosta pedregosa só não chorou porque, em certa altura dos acontecimentos, perder uma gota d’água pode custar a própria vida. Mas estava desolado. Foi arrancado do colo frio e espinhento da mãe e lançado nessa vida dura! Vento impiedoso! Ao menos o empurrou até uma pequena fenda. Os primeiros dias e noites passou deitado na sujeira, entregue a tristeza. No entanto logo veio a fome e ele teve que se erguer. Não tinha outro jeito senão criar suas raízes, juntar suas coisas e batalhar.

O vento não fazia cerimônia e trazia tudo. Depois o cacto selecionava e com muito custo dispensava o que não lhe servisse. Com muito custo segurou seu quinhão de terra e se enraizou no mundo. Um dia veio a primeira chuva. Uma enxurrada pela pedra lisa. Teve que se agarrar para não ser lançado ao mar. Em compensação bebeu tanta água que ficou roliço feito uma cana caiana.

O cacto vivia feliz na encosta. Nem o sol forte, o sal zinabrento e os longos meses de estiagem o faziam pensar em mudar de vida. No seu pedaço de fenda fazia seu próprio alimento e crescia. Possuía espinhos poderosos e ninguém se atrevia com ele. Era duro porque a vida era dura.

Ao ver o nascer do sol ele deixava até uma lágrima escorrer pelos espinhos. As pedras diziam que era o orvalho da manhã. Mas as bromélias afirmavam que era uma forma singular de endurecer sem perder a ternura.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 26 de outubro de 2019

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