A GARÇA E OS URUBUS – Rafael Alvarenga.

No terreno, à beira da estrada, uma paisagem salgada. Arbustos finos que o vento não quebrava resistiam sem dar frutos. Mal traziam galhos onde pousar uma leve cambaxirra e sequer sombreavam o chão rachado. Pouca coisa vinha ter ali. Uma casuarina se atreveu. Talvez lhe tivessem prometido companhia, mas desistiram. As outras da sua espécie rumaram todas para os lados do Arraial.

Certa vez vi ali, sob o amparo mirrado de uma única aroeira, um cavalo amarrado. Pobre animal! Olhava a estrada, olhava os olhos da gente, e daria sua própria vida para falar nossa língua, uma única vez, e perguntar por que havia sido deixado ali. Preferi desviar o olhar para não lhe relinchar uma bobagem.

Foi nesse cenário que tudo aconteceu. Tão longe da água caminhava uma garça entre arbustos secos, lixo e coisas aproveitáveis. Então, do conforto de suas térmicas, desceram os urubus. Calculo eu que garça saiba voar, mas essa ficou tensa e imóvel.

Desceram tantos urubus que se eu não tivesse acompanhando tudo, desde o início, diria que a garça era já um cadáver. Rodeada temeu por sua vida e eu quase gritei avisando que urubus não possuem garras e não caçam. Os urubus, por sua vez, queriam saber o que a garça havia encontrado e se passava bem. Foi nesse dia que descobri que eles não falavam a mesma língua, embora usassem o mesmo mundo.

A garça agitava-se piando cada vez mais alto e arregalando os olhos soltava algumas penas. Os urubus se aproximaram mais. Queriam saber, poder ajudar. Porém a garça descontrolada e com medo explodiu. Talvez infarto. Os urubus não entenderam. Chegaram a ciscar o chão como quem coça a cabeça diante da dúvida. Entretanto, logo depois agiram por instinto. Afinal, entre eles o que está em jogo é a sobrevivência e não a moral.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio 07 de outubro de 2019

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