TUDO POR CAUSA DO CARRO.

Amanhecia e ele descia as escadas correndo. Entrava no carro descalço, deixava os chilenos no chão para não sujar o tapete que lustrava diariamente. Tirava-o do estacionamento e colocava na rua sob a melhor das sombras disponíveis. Então voltava, buscava os chinelos e também o balde d’água, o pano e o aspirador de pó. Limpava o carro com prazer. Quem passava admirava a beleza reluzente do maquinário.

Demorava-se na tarefa e depois ficava na janela do apartamento orgulhoso e atento. Sua esposa, a quem ele não entregava as chaves nem para ir a padaria, odiava o carro. Sentia-se a outra. Por um tempo empenhou-se em encontrar defeitos. Esse farol brilha mais que aquele. Você já reparou que esse capô está empenado? Ele jamais concordava imediatamente. Entretanto ficava encafifado. E no dia seguinte pesquisava sobre, comprava, trocava, gastava, lavava, polia. Vendo isso ela se sentia uma masoquista.

No carro não trazia as compras do mercado “vai que um ovo quebra aqui dentro”, não ia ao centro da cidade “é péssimo pra estacionar e não confio naqueles garotos”, não levava ninguém à praia “areia salgada come o fundo do carro”.

Ela passou a tomar um antidepressivo. Tinha enxaquecas horríveis. Não podia ver o carro, ora seu maior desafeto. A raiva a fez pular as baixas cercas da sanidade.

Roubaram o carro. Disse ele aos prantos ao policial que questionou: Mas não há sinais de arrombamento. As chaves sumiram de dentro da sua casa junto da sua esposa. O senhor já ligou pra ela? Há possibilidade de sequestro?

No dia seguinte ela telefonou de um orelhão. Descontrolado ele prontamente perguntou sobre o carro. A resposta veio dentro de uma gargalhada: Carro… carro não é igual a mãe. É como esposa e marido: dá pra trocar.

Retocou o batom e saiu pela praça. O sol era morno e clareava tudo.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 30 de julho de 2019

DICA – AGORA SERVE O CORAÇÃO – Nei Lopes.

Debruçando-se sobre o cotidiano de algumas regiões da periferia da cidade do Rio, o carioca Nei Lopes traça um painel ficcional da fantástica mistura de criminalidade, politicagem e intolerância religiosa ali presentes, segundo os jornais. Verdades ou mentiras? 

Na fictícia Marangatu — capital do boato, onde qualquer notícia sem fundamento se espalha e faz vítimas —, na Baixada Fluminense, as escolas de samba, os candomblés e a igreja católica não passam de fantasias: de verdadeiro mesmo, só as organizações criminosas e as centenas de igrejas pentecostais. Essas forças teriam sido unificadas, segundo voz corrente, sob a influência da poderosa Iaiá de Marangatu, mulher “importante, majestosa e invejada”, mas impiedosa com seus inimigos. Mestre em entrelaçar ficção e realidade, Nei Lopes recria neste romance a periferia carioca — suas glórias, orgulhos, sombras e mitos — desde os tempos coloniais até o século XXI, passando pelos anos de chumbo da ditadura militar.